Dana de coraes
Nora Roberts
OHurley 2


Prlogo

Durante o descanso entre a comida e os coquetis, o clube ficou vazio. O piso estava um pouco deteriorado, mas suficientemente limpo, e a pintura das paredes acusava
o ataque constante da fumaa dos cigarros. Reconhecia-se o aroma clssico daquele tipo de lugar: bebida envelhecida, caf e espao fechado. Para certo tipo de pessoas,
aquele ambiente era um verdadeiro lar. E para os O'Hurley, onde se concentrava uma audincia, havia um lar.
Naquele momento, a luz do sol derramava-se atravs das duas janelas deixando que tanto o p quanto as marcas e defeitos nas superfcies dos mveis implacavelmente
visveis. O espelho situado atrs do balco de bebidas absorvia uma parte daquela luz, mas sobre tudo a refletia para o pequeno cenrio situado no centro da sala.
-Vamos, Abby, sorria.
Como era habitual, Frank OHurley treinava suas trigmeas de cinco anos no pequeno nmero de baile que desejava incorporar ao espetculo daquela noite. Moravam em
uma hospedagem familiar de um bonito, e razoavelmente barato, complexo turstico do Poconos. Confiava que  audincia adoraria em particular a atuao de suas filhas.
- Gostaria que Deus planejasse melhor suas ideias, Frank - sua esposa, Molly, sentada no canto de uma mesa, estava costurando com pressa os vestidos brancos que
iluminariam as meninas em algumas poucas horas-. Eu no sou uma maldita costureira, sabe?
-  uma artista, queridssima Molly, e a melhor coisa que aconteceu a Frank OHurley.
- A sim que tem razo - murmurou, sorrindo.
- E agora, minhas queridas, vamos tentar outra vez - sorriu para os trs anjinhos com que Deus o tinha abenoado. Se tinha dignado a lhe dar de presente trs filhas
pelo preo de uma, indubitavelmente o Senhor gozava de um grande senso de humor.
Chantel era uma beleza, com sua arredondada carinha de querubim e seus olhos cor azul escura. Frank lhe deu uma piscada, consciente de que estava mais preocupada
com os laos de seu vestido que do treinamento. Abby era toda amabilidade. Danaria sozinha se seu papai pedisse, mas seria divertido subir no placo em companhia
de suas irms. Maddy, com seu rosto de elfo e seu cabelo castanho avermelhado, imitava com perfeio os movimentos que seu pai explicava, sem deixar nem um s instante
de olh-lo.
Seu corao transbordava de amor pelas trs.
Apoiando uma mo em seu ombro, Frank pediu a seu filho, que estava sentado ao piano.
- Toque uma entrada animada, Risque.
Risque deslizou obedientemente os dedos sobre as teclas. Frank lamentava terrivelmente no poder lhe pagar boas aulas ao menino. O que Risque sabia tinha aprendido
observando e escutando.
- Que tal assim, papai?
-  um fenmeno - acariciou-lhe a cabea - Vamos, garotas, adiante.
Seguiu trabalhando com elas durante outros quinze minutos, pacientemente, brincando de quando em quando. Aquele pequeno nmero de somente cinco minutos de durao
teria que ser perfeito, mas era simplesmente encantador. E teria um grande xito. A essa altura j estavam fora de temporada no complexo turstico, mas se triunfassem
conseguiriam repetir contrato. A vida, para Frank, parecia consistir unicamente em espetculos e contratos, e no via nenhuma razo pela qual sua famlia no pudesse
compartilhar essa mesma viso.
Mesmo assim, percebendo que Chantel comeava a perder interesse pelo ensaio, interrompeu-o. Era consciente de que suas irms no agentariam muito mais.
- Maravilhoso - inclinou-se para lhes dar um sonoro beijo a cada uma, to generoso em afeto como teria gostado de s-lo com o dinheiro-. Vamos deixar todos maravilhados
com este nmero.
- Sair nosso nome no pster? -perguntou Chantel, e Frank riu deleitado.
- J quer encabear o cartaz, minha querida pipoca? Ouviu isso, Molly?
- No me surpreende nada - deixou de costurar para descansar um momento os dedos.
- Olhe, Chantel. Encabear o cartaz quando puder fazer isto - e comeou a executar uns passos de claqu, enquanto estendia uma mo para sua esposa. Sorrindo, Molly
levantou-se para se reunir com ele. Do primeiro passo, comearam a mover-se ao unssono: um efeito dos doze anos que estavam danando juntos.
Abby se sentou ao piano com Risque, para observ-lo. E ele improvisou uma divertida melodia que a fez sorrir.
- Imagina? Algum dia aparecero todos nossos nomes no pster.
- Nunca duvide - respondeu Risque, divertido, escutando o sapateado de seus pais no piso de madeira do cenrio.
Contente, apoiou-se em seu ombro. Seus pais riam, desfrutando do exerccio, do ritmo. Abby tinha a sensao que seus pais sempre estavam rindo. Inclusive quando
sua me se zangava, papai sempre arrumava um jeito de faz-la rir. Chantel os observava, procurando em vo imitar seus movimentos. Sabia que dentro de muito pouco
se zangaria. E sempre que se zangava, terminava por conseguir o que queria.
- Eu quero fazer isso - pronunciou Maddy de um canto do cenrio.
Frank se comeou a rir, sem deixar de danar.
- E posso faz-lo - acrescentou com tom firme, e com expresso decidida comeou a sapatear, salto, ponta, salto, ponta... At que foi aproximando do centro do cenrio.
Frank deixou ento de danar, surpreso.
- Hey, olhe isso, Molly.
Afastando o cabelo dos olhos, Molly descobriu que sua filhinha tinha captado instintivamente o bsico da tcnica do claqu. Estava conseguindo. E sentiu uma mescla
de orgulho e tristeza que somente uma me poderia compreender.
- Parece que vamos ter que comprar outro par de sapatos, Frank.
- Tem toda a razo - Frank somente sentia orgulho, e nada de arrependimento. Soltou sua mulher para concentrar-se em sua filha - Oua, tente agora fazer isto...
Executou lentamente os movimentos, marcando bem os passos: salto, deslizamento, batida. Deslizamento, passo, batida e logo para um lado. Tomou Maddy pela mo e,
cuidando de adaptar seus passos ao seus, repetiu a sequncia. A menina no se equivocou nenhuma s vez.
- E agora isto - cada vez mais entusiasmado, dirigiu-se a seu filho-: Toque um compasso mais acentuado - Ateno Maddy. Um e dois e trs e quatro, batida. No centre
o peso do corpo a. Ponta, e logo atrs. Assim - outra vez repetiu a seqncia, e outra vez a pequena a imitou com xito - Agora faremos juntos, assim, e terminaremos
abrindo muito os braos, desta maneira, v? - deu uma piscada - Fantstico.
- Fantstico - repetiu Maddy, concentrada.
- Vamos, Risque - Frank voltou a tomar a da mo, encantado de senti-la movendo-se ao mesmo tempo que ele, sem falhar um s passo-. Molly, acaba de nascer uma autntica
bailarina! -exclamou jubiloso.
De repente, ergueu-a em seus braos, girando em torno dela, e a lanou ao ar. Maddy soltou um grito, mas no porque temesse que seu pai no fosse peg-la, mas sim
porque sabia que o faria.
Aquela sensao de flutuar no ar era to excitante como o tinha sido o a prpria dana. Mais. Queria mais.


Captulo 1

- Cinco, seis, sete, oito!
Doze pares de ps ressonavam no cho de madeira ao unssono. O eco era maravilhoso. Os doze corpos giravam e saltavam como se fosse um sozinho. Os espelhos repetiam
ao infinito suas imagens. Flutuavam os braos, as pernas, elevavam-se as cabeas, giravam, caam
O aroma era o teatro, o musical. O piano lanava incansvel as notas, e a melodia parecia flutuar suspensa no ar da velha sala de ensaios. Muitas estrelas tinham
ensaiado e treinado ali. Incontveis bailarinos e bailarinas haviam trabalhado naquela atividade at a dor, at que seus msculos j no podiam mais.
O ajudante de coreografia, com os vidros dos culos embaados pelo sufocante calor, golpeava ritmicamente o cho enquanto gritava os movimentos. A seu lado estava
o coregrafo chefe, a pessoa que tinha desenhado e concebido a dana, olhando tudo com olho alerta, atento.
- Alto!
Cessou a msica do piano. Interrompeu-se o ensaio. Os bailarinos relaxaram com uma mescla de alvio e esgotamento.
- Muito lento.
Os bailarinos, ainda um nico organismo, elevaram os olhos ao cu. O coregrafo os observou ainda durante um momento antes de dar o sinal de cinco minutos de descanso.
Os doze corpos se deixaram cair contra a parede, dobrando-se ou estirando-se, dando-se massagens nos tornozelos, flexionando e relaxando os msculos. Conversaram
um pouco. No muito, porque o flego era um bem prezado e teriam que reserv-lo para o esforo. O cho de madeira, arranhado, revelava as marcas de centenas de outros
espetculos. Mas somente havia um que importasse naquele instante: aquele no que estavam trabalhando.
- Quer um pouco?
Maddy OHurley olhou a barra de chocolate que lhe estendiam. Depois de uns segundos de vacilao, negou com a cabea. Uma dentada nunca seria suficiente.
- No, obrigado. O acar me d enjos quando estou danando.
- Pois eu preciso dessas calorias - a mulher, de uma pele to escura e brilhante como o bano, mordeu a barra de chocolate-. Sabe? Acredito que o nico que falta
a esse sujeito  um chicote.
Maddy olhou para o coregrafo.
-  muito duro. No sentiremos falta dele quando tudo isto tiver terminado.
- Certo, mas agora mesmo eu adoraria...
- Estrangul-lo? - sugeriu Maddy, fazendo-a rir.
- Algo assim.
Maddy j estava recuperando sua energia.
- A vi no teste.  muito boa - comentou.
- Obrigado -a mulher envolveu cuidadosamente o resto da barra e o guardou em sua bolsa - Meu nome  Wanda Starre.
- Maddy OHurley.
- J sei.
O nome do Maddy era j conhecido no mundo do teatro. Para os ciganos, bailarinos que viajavam de espetculo em espetculo, representava um dos poucos exemplos
de um dos seus que tinha conseguido triunfar. De mulher a mulher, de bailarina a bailarina, Wanda via em Maddy algum que no tinha renunciado suas razes, a suas
origens.
- Este  meu primeiro contrato branco - confessou.
- Verdade? -os contratos brancos eram para os bailarinos principais, os rosas para o resto do corpo de baile. Surpreendida, Maddy a observou atentamente. Aquela
mulher tinha um rosto belo e extico, um pescoo comprido e fino e os fortes ombros de uma bailarina. Era mais alta que ela.
-  a primeira vez?
- . E estou terrivelmente assustada.
- Eu tambm.
- Vamos. Voc j triunfa.
- Mas no nesta obra. E nunca tinha trabalhado com o Macke - olhou ao coregrafo, ainda de corpo musculoso h seus sessenta anos, que naquele instante se separava
do piano-. Bom, hora de mexermos - murmurou.
Os bailarinos levantaram, atentos a suas instrues. Durante outras duas horas danaram, forando seus corpos ao mximo, polindo seu estilo. Quando todos se foram,
Maddy descansou durante uns dez minutos e continuou ensaiando seu nmero sozinha. Como bailarina principal danaria no somente com corpo de baile, mas tambm sozinha,
com o bailarino protagonista e com outros companheiros de sua mesma categoria. Preparava-se para aquela obra como um atleta teria se preparado para uma maratona:
prtica, disciplina e mais prtica. Em uma obra destinada h durar duas horas e dez minutos, estaria no cenrio durante dois teros desse tempo. Os movimentos ficaram
guardados em uma gaveta secreta de sua memria, na prpria memria de seu corpo, de seus msculos.
- Tente agora com os braos levantados a altura dos ombros - instruiu-a Macke.
O ajudante de coreografia contava os passos, e Maddy dedicou-se a ensaiar uma exaustiva seqncia de dois minutos, uma e outra vez.
- Melhor. Desta vez relaxe mais os ombros - aproximou-se e apoiou suas mos, grandes e de palmas calosas, sobre seus ombros midos de suor - Quero movimentos rpidos,
explosivos. Lembre-se que no  uma bailarina de bal.
Maddy sorriu, porque enquanto a criticava dessa maneira, estava lhe dado uma relaxante massagem nos ombros. Macke tinha a reputao de ser um instrutor cruel, mas
tinha a alma e a sensibilidade do melhor dos bailarinos.
- Tentarei me lembrar disso.
Contou de novo e deixou de pensar. Usava sua curta cabeleira, de um tom loiro avermelhado, preso com uma touca que j estava empapada de suor. Para aquele nmero
teria que usar uma pesada peruca de cachos, mas naquele momento no queria pensar nisso. Seu rosto brilhava como se fosse de porcelana, mas nenhum trao delatava
o esforo fsico que estava fazendo. Sabia fingir perfeitamente uma expresso e comunicar com o rosto um sentimento, algo freqentemente exigido nas obras como aquela.
O suor estava se acumulando sobre o lbio superior, mas continuava sorrindo, rindo ou esboando as expresses faciais que requeria o assunto do nmero musical.
Possua um belo rosto,de forma triangular, traos delicados e olhos grandes, da cor do mel. Em seu papel da Mary Howard, a artista de striptease, Maddy no tinha
mais remedeio que confiar na habilidade de sua maquiadora para conseguir um aspecto o mais sensual possvel. De alguma forma, refletiu, estivera se preparando durante
toda a vida para aquele papel: as viagens de trem e nibus com sua famlia, viajando de cidade em cidade e de clube em clube para amenizar algum congresso de comerciantes
ou de homens de negcios. J com cinco anos tinha sido capaz de atuar ante uma audincia. Virtualmente sua vida, desde que tinha sido capaz de andar, tinha transcorrido
no alto de um cenrio. E nenhuma s vez, durante esses vinte e seis anos, arrependeu-se disso.
Recebera aulas, incontveis aulas. Embora os nomes e os rostos de seus professores tivessem se apagado de sua memria, cada movimento, cada posio, cada passo tinha
ficado firmemente registrado em seu crebro. E quando no tinha tido tempo ou dinheiro para receber umas aulas formal, seu pai sempre tinha estado a seu lado, exercitando-a
em qualquer momento e lugar.
Havia levado a vida de um nmade, de uma verdadeira cigana, percorrendo o mundo com suas duas irms. Portanto, transformar-se em uma cigana da Broadway tinha sido
algo inevitvel, apresentou-se para testes, a tinham rejeitado, tinha tido que lutar contra o abatimento e a decepo. Tinha sado com xito de outros testes e tinha
tido que superar o medo de primeira estria. Embora, devido tanto a sua natureza quanto a sua experincia, jamais tinha lhe faltado confiana em si mesmo.
Durante cinco anos tinha lutado sozinha, sem o apoio de seus pais, de seu irmo e de suas irms. Tinha atuado em grupos de dana e recebido treinamento. Entre ensaio
e ensaio tinha trabalhado de garonete para financiar mais aulas de dana. Tinha chegado a artista principal, mas tinha continuado estudando. Seu papel mais importante
tinha sido o de protagonista do parque de Suzannah, um trabalho estelar no que a derrubou por inteiro. Abandon-lo tinha sido um risco, mas no tinha hesitado em
tentar a sorte. E agora tinha conseguido o papel de Mary, um papel ainda mais duro, complexo e exigente que qualquer um que tivesse feito antes. Quando terminou
a msica, Maddy ficou de p no centro da sala, as mos nos quadris, ofegando pelo esforo.
- No est nada ruim, garota - comentou Macke, jogando uma toalha.
Rindo, Maddy enterrou o rosto nela.
- Como assim no est ruim? Sabe perfeitamente que esteve genial.
- Esteve bem - respondeu Mike franzindo os lbios. Um gesto que, tratando-se dele, equivalia a uma gargalhada - No suporto bailarinas presunosas.
Na realidade, estava mais que satisfeito. Ela era a ferramenta de sua arte. Seu xito pessoal dependeria tanto da confiana que tivesse na capacidade de Maddy, como
da que ela tivesse na sua.
Maddy jogou a toalha sobre os ombros enquanto se aproximava do piano.
- Posso lhe perguntar algo, Macke?
- Dispara -pronunciou, tirando um cigarro.
- Quantos musicais j preparou at agora?
- Perdi a conta. Deixaremos a resposta em muitssimos.
- Certo - no discutiu sua resposta, embora apostava suas melhores sapatilhas que tinha a conta exata - Que possibilidades de xito temos com esta obra?
- Nervosa?
- No. Paranica.
-  bom estar um pouco paranica.
- No  verdade. Quando estou, no durmo bem. E preciso descansar - aceitou agradecida o copo de gua que lhe ofereceu o coregrafo ajudante.
- Relaxe. Tudo sair muito bem.
Respeitava-a. E no s por seu papel no Parque do Suzannah. Macke admirava o que Maddy e tantas outras como ela faziam todos os dias. Tinha apenas vinte e seis anos
e estava danando a mais de vinte.
- Sabe quem nos patrocina?
Maddy assentiu com a cabea enquanto bebia um gole de gua.
- Discos Valentine.
- E sabe por que uma companhia de discos como essa resolveu ser a nica patrocinadora de um musical?
- Para ter os direitos exclusivos na hora de editar um lbum.
- Efetivamente. Reed Valentine  nosso anjo da guarda, um peixe bem gordo filho de outro peixe gordo. E, por isso me contaram, muito mais duro que seu velho. Ele
no est interessado em ns, corao. Somente est interessado em tirar um suculento lucro.
- Me parece justo - refletiu Maddy ao fim de um instante - Sabe? Eu gostaria que tirasse um bom ganho com a obra. E quanto maior for, melhor para todos.
- Bem pensado. Para o banho.

Maddy apoiou os braos na parede de azulejo, deixando que a gua quente escorregasse por seu corpo. Naquela manh, muito cedo, tinha recebido uma aula de bal. Depois
tinha ido diretamente  sala de ensaios, e praticado antes um par de canes com o compositor. Cantar no a preocupava, j que tinha uma voz limpa, rica em nuances.
E, sobre tudo, potente. O musical no tolerava vozes fracas. Educou-se e formou-se como uma das Trigmeas OHurley. E quando cantava em bares e clubes de m acstica
e pobres aparelhos de som, desenvolvia-se bons pulmes.
No dia seguinte comearia a ensaiar com os outros atores, depois de uma aula de jazz e antes de seu ensaio de dana. A interpretao era o que a inquietava um pouco.
Chantel era a verdadeira atriz da famlia, e Abby tinha a melhor voz. Ela, em troca, sempre tinha vivido para a dana. Tinha que ser assim. No havia nada mais intenso,
mais exigente, mais extenuante. Tinha-lhe cativado o corpo, a mente e a alma, no instante em que seu pai lhe ensinou os primeiros passos de dana em uma pequena
e modesta sala da Pensilvnia. me olhe agora, papai, pensou enquanto fechava o registro do chuveiro. Estou na Broadway.
Secou-se rapidamente para evitar um resfriado e se vestiu com a roupa informal que trouxera em sua bolsa esportiva. A grande sala reverberava de ecos. O compositor
e o letrista estavam trabalhando sobre uma melodia. No dia seguinte haveria mudanas. Mudanas que Maddy e os outros vocalistas teriam que aprender. Aquilo no era
nada novo; Macke realizaria ao menos uma dzia de alteraes no nmero da dana que acabava de ensaiar.
Ouviu o som de uns sapatos de dana no cho de madeira. O mesmo ritmo se repetia uma e outra vez. Algum do grupo estava cantando. Pendurando a bolsa no ombro desceu
as escadas que levavam para a rua com um nico pensamento na cabea: comida. A energia e as calorias que tinha perdido depois de todo um dia de exerccio tinham
que ser substitudas. Aquela tarde j tinha o menu decidido: iogurte com fruta fresca e um grande prato de sopa de cevada com salada de espinafres.
Na porta se deteve um momento e ficou novamente escutando. A vocalista ainda estava fazendo escalas e a msica do piano ressonava ao longe. O sapateado continuava
com o mesmo ritmo. Aqueles sons formavam parte de seu ser tanto como o batimento do corao de seu corao. Deus abenoe Reed Valentine, disse-se enquanto saa
 rua.
No tinha dado nem dois passos quando um violento puxo em sua bolsa esportiva a fez girar-se sob si mesma. E se encontrou frente a um menino, um rapazinho de uns
dezesseis ou dezessete anos. Impressionou-lhe a expresso de desesperado, quase alucinado, de seus olhos.
- Deveria estar no colgio - disse, aborrecida, enquanto mantinha firmemente a bolsa de uma ala.
Maddy devia ter lhe parecido uma presa fcil para aquele trombadinha, mas por muito que lhe tivesse surpreso sua fora e resistncia, no se intimidou. A fraca luz
da entrada do velho edifcio, ningum tinha sido testemunha daquela resistncia. Maddy pensou primeiro em gritar, mas depois, ao ver o quanto era jovem, tentou raciocinar
com ele.
- Sabe o que levo aqui dentro? - perguntou - Uma malha e uma toalha mida. E minhas sapatilhas de dana.
Ao lembrar-se delas, segurou a bolsa ainda com mais fora. Um ladro profissional teria renunciado imediatamente para sair em busca de uma presa menos problemtica.
Aquele menino tinha comeado a insult-la, de puro nervosismo, mas ela o ignorou.
- As sapatilhas esto quase novas, mas no lhe serviro de nada - continuou, com o mesmo tom razovel - Eu preciso delas muito mais que voc... Olhe, se soltar a
bolsa poderei lhe dar a metade do dinheiro tenho comigo. As sapatilhas no posso lhe dar j que preciso delas amanh e no teria tempo pra conseguir outras to rpido.
De acordo, darei todo o meu dinheiro - cedeu quando ouviu que a bolsa comeava a romper-se pelas costuras - Acredito que devo ter uns trinta dlares...
Mas naquele instante o menino deu um puxo to forte que Maddy perdeu o equilbrio. O ladro no pde, entretanto, cantar vitria: ouviu um forte grito, assustou-se
e soltou a bolsa, que caiu no cho como uma pedra. Como se abrira pelo esforo, seu contedo se esparramou pelo cho. O ladro no perdeu nem tempo nem flego para
soltar nem sequer uma maldio, logo saia correndo como um foguete e desapareceu atrs de uma esquina. Resmungando, Maddy se agachou para recuperar seus pertences.
- Voc est bem?
Estava recolhendo uma de suas meias de l quando viu elegantes sapatos italianos, impecavelmente limpos. Conforme foi subindo o olhar, viu calas de cor cinza plida,
de corte perfeito, com um cinturo de fivela de ouro. Usava a jaqueta aberta, revelando um torso amplo, de cintura estreita, com uma camisa azul cu e uma gravata
de um tom mais escuro. Tudo de seda. Maddy adorava a seda.
Olhou a mo que ele tinha estendido para ajud-la. Era morena, de longos e finos. No pulso usava um relgio de ouro de aspecto to caro como prtico. Quando a aceitou
para levantar-se, percebeu nela calor, fora e, conforme lhe pareceu, uma certa impacincia.
- Obrigado - pronunciou antes de olh-lo no rosto.
Pelo rpido exame que lhe tinha feito, - era alto e magro. E com o mesmo interesse com que tinha observado seu corpo, examinou seu rosto. Estava muito bem barbeado.
Tinha as faces ligeiramente afundadas, que suavizava a dureza e severidade de seu aspecto, lhe dando inclusive um ligeiro ar potico. Naquele momento sua boca era
uma fina linha, revelando uma bvia desaprovao pelo acontecido. Tinha o queixo fendido e um nariz reto, aristocrtico. Os olhos eram de uma cor cinza escura, e
pareciam lanar a inequvoca mensagem de que no gostava absolutamente de perder o tempo resgatando donzelas em apuros.
Mas o detalhe que o tinha feito, apesar de no gostar, no conseguiu comove-la nenhum um pouco. Viu que passava os dedos por seu cabelo cor loiro dourado e a olhava
fixamente, como temendo que a qualquer momento fosse sofrer os efeitos de um choque.
- Sente-se - disse com a voz de um homem acostumado a mandar e a ser obedecido. Imediatamente.
- Estou bem - pronunciou, sorrindo.
O desconhecido percebeu pela primeira vez que no estava ruborizada nem plida, e que seus olhos no refletiam nenhum temor.
- Alegro-me que tenha aparecido to oportunamente - acrescentou Maddy - Esse menino no estava raciocinando.
Voltou a agachar-se para continuar recolhendo suas coisas. O homem disse a si mesmo que deveria partir e deix-la ali, mas em lugar disso respirou profundamente,
consultou seu relgio e, depois, agachou-se tambm para ajud-la.
- Sempre tenta conversar com os ladres?
- Aprendiz de ladro, melhor dizendo.
- Realmente acredita que valeria a pena negociar com ele? - perguntou enquanto lhe estendia sua velha malha.
-  obvio que sim - tomou o objeto, e enrolou cuidadosamente e a guardou na bolsa.
- Poderia ter se ferido.
- Poderia ter ficado sem sapatilhas - replicou Maddy enquanto recolhia suas sapatilhas do cho e acariciava a tenra superfcie de couro - Teriam servido de bem pouco,
e no faz nem trs semanas que as comprei. Importaria-se de me entregar essa touca?
O homem assim o fez, e esboou uma careta. Era o lado que ficava na frente. Ainda estava mida de suor.
- Toma banho com isto aposto!
Rindo, Maddy a recolheu e a guardou com o resto de pertences.
- No, mas suo muito com ela. Sinto muito - mas no havia desculpa alguma em seus olhos, mas sim um brilho de humor.
- Sabe? Voc no reage como uma mulher que esteve a ponto de perder uma malha, umas velhas meias-calas, uma toalha puda, umas sapatilhas e cinco pares de chaves.
- Hey, a toalha no est to velha - satisfeita por ter encontrado tudo, fechou a bolsa - E, em qualquer caso, no perdi nada.
- A maior parte das mulheres que conheo no tentaria negociar com um ladro.
Interessada, estudou-o atentamente de novo.
- O que teriam feito essas mulheres que voc conhece?
- Gritado por socorro, imagino.
- Se eu tivesse feito isso, agora ele teria minha bolsa e eu teria ficado sem flego - desprezou esse pensamento com um dar de ombros - De toda forma, obrigado -
estendeu a mo. Uma mo fina e delicada, sem adorno ou anel algum - Eu adoro cavalheiros andantes como voc.
O cu j estava escurecendo naquele momento. Seu natural instinto de no dar ateno a algo que no fosse importante batalhava contra sua conscincia. Por fim, sua
resoluo tomou forma de aborrecimento.
- No deveria andar sozinha por este bairro e a estas horas.
Maddy se ps a rir novamente. Era uma risada encantadora, rica em matizes, sincera.
- Este  meu bairro. Moro muito perto daqui. J lhe disse que o menino no era mais que um aprendiz. Nenhum ladro que apreciasse a si mesmo atacaria uma danarina.
Mas voc... - retrocedeu um passo e lhe lanou outro olhar - Voc  outra coisa. Vestido assim, seria melhor que escondesse o relgio e a carteira.
- Anotarei isso.
Decidindo que aquele homem merecia que o compensassem de alguma forma, Maddy lhe perguntou:
- Quer que eu lhe indique alguma rua? Tenho a impresso de que, ao contrrio que eu, no conhece nada deste bairro.
- No, obrigado. Vou entrar aqui mesmo.
- Aqui? - Maddy se voltou para olhar o velho edifcio que albergava a sala de ensaios-. Voc no  bailarino - afirmou, segura de si mesmo - Nem ator - decidiu ao
cabo de uns segundos de reflexo - E juraria que tampouco  msico, apesar das mos que tem.
- Ah, e por que no?
- Voc tem um aspecto muito conservador. Muito... Certinho. No se ofenda, mas quero dizer que est vestido como um advogado, um banqueiro ou... - de repente compreendeu.
Viu tudo claro como um cristal. E acrescentou, com expresso radiante-: Um anjo.
- Est vendo minhas asas? - inquiriu, arqueando uma sobrancelha.
- No precisa delas. Sim, um verdadeiro anjo - repetiu - No  voc o patrocinador? Da Discos Valentine?
Novamente Maddy lhe estendeu a mo. E ele a estreitou.
- Est certa. Reed Valentine.
- Eu sou Maddy.
- Perdo? -franziu o cenho.
-A bailarina protagonista - explicou, e viu que entreabria as plpebras - A protagonista de Deixe-o, a obra que voc est patrocinando - deleitada, cobriu-lhe
a mo com a outra que tinha livre - Maddy OHurley.
Aquela garota era Maddy OHurley? Aquela pequena marota era a mesma bailarina que tinha visto no parque de Suzannah? Naquela obra tinha uma brilhante uma grande
peruca, e um vestido de poca, mas mesmo assim... Lembrava como tinha ressonado sua voz no teatro. Tinha danado com verdadeiro frenesi, com uma energia febril que
no o deixara menos que impressionado.
- Madeline OHurley?
-  isso o que est no contrato.
- J a vi atuar, senhorita OHurley. No a tinha reconhecido.
- J sabe: os focos, o vesturio, a maquiagem - Maddy encolheu os ombros. Valorizava o anonimato, e por isso se sentia satisfeita de ter um fsico pouco impressionante.
Das trs irms, Chantel era a mais formosa, Abby a mais encantadora, e ela simplesmente era atraente. Apenas isso - Ora, parece que ficou um pouco decepcionado -acrescentou,
sorrindo.
- Eu nunca diria isto...
- Oh, no precisa dizer. Voc  muito educado. No se preocupe, senhor Valentine. No falharei. Qualquer uma das OHurley  um inteligente investimento - riu daquela
brincadeira que somente ela compreendia -. Bom, no quero entret-lo. Suponho que ir a alguma reunio.
- H dez minutos.
- Voc  o chefe, e suponho que no importa que se atrase - antes de se retirar, deu-lhe um tapinha no brao - Escuta, se vai andar por aqui, passe pelos ensaios
- afastou-se alguns passos, voltou-se e continuou andando de costas, sorrindo - Assim me ver em ao. Sou boa, senhor Valentine. Muito boa - e depois de fazer uma
pirueta, partiu.
Apesar de sua pressa, Reed ficou olhando at que desapareceu em uma esquina. Depois sacudiu a cabea e comeou a subir as escadas.
Foi ento que descobriu no cho uma pequena escova redonda. No princpio experimentou a tentao de deix-la ali, mas finalmente a curiosidade ganhou. Cheirava levemente
a xampu; um aroma fresco, perfumado com limo. Guardou-a em um bolso da jaqueta.
Disse-se que estava destinado a voltar a ver o Maddy OHurley. E no lamentava o fato absolutamente.


Captulo 2

Transcorreu cerca de uma semana antes que Reed pudesse programar outra visita  sala de ensaios. Dificilmente podia justificar aquela ida por motivos de negcios.
Nunca tivera a inteno de implicar-se de uma forma to pessoal naquela obra. As reunies com o produtor e com os contadores teriam bastado para mant-lo informado.
Reed compreendia melhor as folhas de balanos e os grficos econmicos que o ruidoso ambiente daquele velho edifcio. Apesar de tudo, no faria mal controlar ainda
mais de perto aquele investimento... Inclusive se esse investimento implicasse certa estranha jovem de radiante sorriso.
Ali se sentia fora de lugar. Estava a apenas vinte minutos de txi de seu escritrio, mas mesmo assim, vestido com seu terno de trs peas, naquela sala se sentia
to deslocado como na mais remota ilha do Pacfico.
Enquanto subia as escadas, disse a si mesmo que tinha sido apenas por uma curiosidade natural. Isso, mais o simples fato de desejar proteger seus interesses. Discos
Valentine tinha investido um bom capital em Deixe-o, e ele era o maior responsvel pela empresa. Mesmo assim, pela ensima vez enfiou a mo no bolso de seu casaco
e tocou a escova de Maddy. Sim. Na verdade, mesmo no querendo confessar, estava indo contra todas as suas inclinaes naturais.
Em uma sala inteiramente forrada de espelhos, encontrou os bailarinos. No era o espetacular corpo cheio de glamour pelo qual as pessoas pagavam para ver nos cenrios
da Broadway, e sim um grupo cansado e suado de homens e mulheres, vestidos com velhas malhas. Para Reed, aquilo era uma catica mistura de roupas e cores sem a mnima
uniformidade que teria sido de esperar em profissionais. Encontravam-se de p, a maior parte deles com as mos nos quadris, olhando o homem magro e pequeno que Reed
j tinha reconhecido como o coregrafo.
- Ter que suar um pouco mais, meninos - dizia-lhes Macke - Isto  um espetculo musical, no uma quadrilha. Temos que vender sensualidade e alegria. Wanda, mais
movimento nos quadris. Maddy, tem que melhorar esse shimmy. Tem que se inclinar mais - e fez uma demonstrao sob seu atento olhar.
- Macke, vi o desenho do vestido que vou usar - sorriu - Se me inclinar tanto, os rapazes da primeira fila recebero uma lio de anatomia grtis.
- No caso, no acredito que seja para tanto.
O grupo riu e Maddy acolheu com bom humor aquela rplica. Voltaram para seus postos e continuaram danando.
Reed os observava com crescente assombro. Sobre aquelas malhas gastas e brilhantes de suor, os bailarinos pareciam reviver, desdobrar toda sua glria. Homens e mulheres
encontravam seus respectivos casais naquele catico matagal de membros. Saltavam, levantavam-se uns aos outros, corriam. De onde estava podia ver a intensidade de
seu esforo, a respirao profunda e controlada. Logo Maddy fez sua apario, ento esqueceu todo o resto.
A malha se ajustava a cada curva de seu corpo, destacando sua figura esbelta e musculosa. Lentamente ao princpio, com as mos nos quadris, movia-se para a fronte,
depois  direita, e  esquerda, sempre seguindo a rotao de seus quadris. Fez um movimento ondulante com um brao, como se estivesse livrando-se de uma pea de
roupa imaginria. Levantou uma perna por cima da cabea. Depois, lenta, eroticamente, deslizou as pontas dos dedos pela coxa enquanto baixava a perna.
Pouco a pouco foi aumentando o ritmo e rapidez de seus passos. Movia-se como um leopardo, girando, voltando, e tudo isso sem aparente esforo. Depois, enquanto outros
bailarinos se uniam em uma verdadeira orgia de movimento, ela se inclinou para frente agitando os ombros sem cessar. Um homem se destacou do grupo e a agarrou por
uma mo.
Quando a msica terminou, Maddy se encontrava entre seus braos. E com uma mo do bailarino plantada em seu traseiro.
- Melhor - decidiu Macke
Os bailarinos simplesmente deixaram cair seus corpos no cho ou se apoiaram nas paredes, exaustos. Maddy e seu par no estavam menos cansados.
- Vigia essa mo, Jack - brincou.
- No se preocupe. No a perco de vista.
Maddy riu antes de se retirar. Foi nesse preciso momento que viu Reed de p na soleira. Continuava tendo aquele aspecto de executivo impecvel. Sorriu.
- Vamos comer - anunciou Macke enquanto acendia um cigarro - Quero Maddy, a Wanda e Terry aqui dentro de uma hora. E o resto do grupo na sala B para a uma e meia,
na sesso de canto.
A sala j estava se esvaziando. Maddy recolheu a toalha e enterrou o rosto nela ao mesmo tempo em que se dirigia para Reed.
- Ol - saudou-o - Assistiu tudo?
- Tudo?
- O nmero todo.
- Sim.
- E? - perguntou rindo. Com a toalha no pescoo, agarrando as duas extremidades, apoiou-se na parede.
- Impressionante - pensou que naquele momento s parecia uma mulher que acabava de fazer um extenuante exerccio fsico. Nada mais - Voc tem... Uma grande energia
fsica, senhorita OHurley.
- Veio para outra reunio?
- No - sentindo meio estpido, pegou a escova - Acho que isto  seu.
- Ah, sim - recebeu-o, contente - J a tinha dado por perdida. Foi muito amvel. Espere um momento - afastou-se para guardar a escova e a toalha na bolsa, e a pendurou
no ombro-. O que acha de almoarmos juntos? -perguntou quando voltou a se reunir com ele.
- Sinto muito. Tenho um compromisso - disse a si mesmo que tinha sido um pedido to inocente, e ao mesmo tempo to tentador, que estivera a ponto de aceitar.
- E para jantar?
Reed arqueou uma sobrancelha. Ela olhava com um sorriso nos lbios e um brilho de alegria nos olhos. As mulheres que conhecia nunca teriam tomado quela iniciativa.
Teria deixado isso com ele.
- Est me convidando para um encontro?
Maddy comeou a rir novamente.
- Pode se dizer quem sim, senhor Valentine.  carnvoro?
- Perdo?
- Come carne? - explicou - Conheo muita gente que no come.
- Ah, eu aprecio sim.
- Estupendo. Vou lhe prepara um fil. Tem uma caneta?
No sabendo se sentia divertido ou simplesmente desconcertado, Reed tirou uma do bolso interno do casaco.
Maddy disse rapidamente seu endereo.
- Nos vemos as sete - disse. A seguir gritou para que algum a esperasse no corredor e saiu correndo, antes que ele pudesse aceitar ou rejeitar o convite.
Reed abandonou o edifcio sem chegar a escrever no papel as direes que ela havia lhe dado. J as tinha na memria.

Maddy sempre fazia tudo por impulso. Ao menos isso era o que se dizia para justificar o fato de haver pedido a Reed Valentine que jantasse com ela, quando apenas
o conhecia e tinha to pouca comida em casa. Era um homem interessante, refletiu. Assim, antes de chegar a sua casa, e ao final de uma jornada extenuante de umas
dez horas, passou pelo mercado para fazer algumas compras.
No cozinhava freqentemente. E no porque no soubesse, e sim porque era mais fcil comer fora, ou ingerir comidas preparadas. Ao chegar ao edifcio onde se situava
seu apartamento, ouviu os Gianelli brigando, no primeiro andar. Os insultos em italiano ressonavam pelo corredor da escada. Maddy se lembrou de recolheras cartas
de seu escaninho. Com um postal de seus pais e algumas faturas na mo, comeou a subir os degraus.
No patamar do segundo piso, a recm chegada do 242 estava estudando um livro de textos.
- Que tal vai em literatura inglesa? -perguntou Maddy.
- Muito bem. Acredito que conseguirei o diploma em agosto.
- Fantstico - exclamou. Entretanto, ao perceber que parecia muito sozinha, deteve-se um momento para conversar com ela-. Como est Tony?
- Superou as provas para essa obra da Broadway - quando sorria, o rosto lhe iluminava-. Se ingressar no corpo, pode ser que tenha que parar de trabalhar como garom
durante as noites. Diz que o xito est prximo.
- Isso  maravilhoso, Angie - no acrescentou que, para os ciganos, esse xito sempre estava prximo. O que acontecia era que o caminho era longo - Tenho que me
apressar. Hoje tenho um convidado para jantar.
No terceiro piso ouviu o eco de uma melodia de rock e o rudo de algum danando. A rainha da discoteca est praticando mais uma vez, disse-se em pensamento enquanto
continuava subindo as escadas. Procurou rapidamente as chaves e entrou. Tinha somente uma hora.
Ligou o equipamento estreo a caminho da cozinha. Cortou duas batatas, meteu-as no forno e dedicou-se a lavar a verdura para a salada. Pensou em limpar e arrumar
um pouco o apartamento. No tinha tirado o p desde que... No se lembrava quando tinha sido a ltima vez. Em qualquer caso, havia bobagens o suficiente nas mesas
para que no se notasse muito.
A maior parte de sua moblia e decorao eram refugos das obras da Broadway. Quando uma obra terminava, jogavam muitas matrias valiosas no lixo. As cortinas vermelhas,
por exemplo, procediam do melhor bordel do Texas. O sof tinha era parte de um conjunto dos cenrios do My fair lady. Nenhuma das mesas combinava umas com as outras.
E o mesmo acontecia com as cadeiras. Tudo era uma mixrdia de estilos e cores, um contraste de funcionalidade e pretenciosidade que ela adorava.
As paredes estavam cheias de psteres de obras nas quais tinha participado, ou nas quais no tinha passado do primeiro teste. Ao lado de uma janela tinha sua nica
planta, que parecia debater-se entre a vida e a morte. Era a ltima sobrevivente de uma longa srie.
Mas sua posse mais apreciada era um pster de non cor rosa, que ostentava seu nome com letras artsticas, e elaboradas. Era a lembrana de quando conseguiu seu
primeiro contrato em um grupo da Broadway. Seu nome em non. Maddy o iluminou como habitualmente estava acostumada a fazer, antes de sacudir o p de duas cadeiras
e recolher as revistas e a correspondncia aberta. Mais pesada, entretanto, foi  tarefa de lavar sua roupa de dana.
Para isso, encheu a banheira de gua quente e sabo e colocou ali as malhas, as meias e as meias-calas que tinha vestido aquela manh. Logo, ajoelhada, deu comeo
ao montono trabalho de lavar e esfregar. Para estender a roupa, usava uma esponja que tinha sobre a banheira.
O banheiro no era maior que um armrio. Quando se ergueu e girou, no pde evitar olhar-se no espelho pendurado sobre o lavabo. Os espelhos formavam uma ntima
parte de seu ser, de sua vida. Havia dias em que danava na frente deles durante oito horas ou mais, observando-se, controlando cada gesto e cada movimento de seu
corpo.
Naquele momento contemplou seu rosto: tinha traos finos, regulares. Essa mistura de um queixo ligeiramente proeminente, olhos grandes e uma pele brilhante era a
responsvel por aquele horrvel jargo de garota Simptica ou Bondosa. Nada impressionante, certamente, mas afinal de contas tampouco era ruim.
Rapidamente abriu a porta do armrio de banho e passou um pouco de maquiagem. Tinha comprado para depois quase no us-la. Na realidade, somente se maquiava quando
tinha que encenar. Durante dez minutos experimentou, fazendo testes, at que ficou mais ou menos satisfeita com o resultado.
De repente se perguntou se deveria gelar o vinho que tinha comprado. Ou possivelmente servi-lo  temperatura ambiente... Que, naqueles momentos, j deveria ter aumentado
em muitos graus...

Reed imaginou que ela devia ter se equivocado quando descreveu seu endereo. No duvidava de sua prpria memria. Muito cedo tinha aprendido a valorar a importncia
de lembrar nomes, fisionomias, dados, cifras, grficos. Depois de anos e anos de prtica, tinha desenvolvido uma memria fabulosa. Edwin Valentine lhe tinha ensinado
que um homem de negcios contratava sempre aos melhores contadores... Para depois acabar sabendo tanto quanto eles.
No tinha esquecido o endereo, nem se confundido, mas comeava a duvidar...
O bairro parecia estar piorando de aspecto a cada momento. Viu uma cadeira torta, quebrada, na calada, e a seu redor um grupo de pessoas discutindo sobre sua propriedade.
Um ancio usando camiseta e calas curtas... Que estava bebendo uma lata de cerveja sentado em um sujo tamborete, ficou contemplando assombrado com o carro de Reed
quando passou ao seu lado.
Como ela podia viver ali? Ou, melhor dizendo, por que tinha escolhido viver ali? Maddy OHurley acabava de terminar um suculento contrato de um ano, pelo qual tinha
sido nomeada para um prmio importante. E, antes disso, tinha trabalhado durante um ano no segundo papel principal com a obra Beije-me, Kate..
E se ele sabia isso, era porque seu ofcio consistia em saber, recordou-se enquanto se detinha ante o edifcio que correspondia com o nmero que Maddy tinha lhe
dado. Uma mulher que estava a ponto de embarcar em sua terceira obra importante da Broadway poderia permitir-se viver em um bairro onde no destroassem os semforos
de noite.
Saiu do carro e se dirigiu para a porta. O nome do Maddy estava em uma das caixas: apartamento 405. No havia elevador. O trajeto das escadas era completado por
uma orquestra de gritos infantis, ensurdecedora msica de jazz e as irritadas vozes dos Gianelli.
Quando soou a campanhia, Maddy tinha as mos afundadas at os pulsos na salada. Tinha estado to certa que ele chegaria com pontualidade como de que ela no estaria
preparada a tempo.
- Espere um momento - gritou, olhando desesperada ao seu redor em busca de um pano para secar mos. Por fim, desistindo de encontr-lo, foi abrir-. Ol - saudou-o,
sorridente. - Espero que no esteja muito faminto. Ainda no terminei.
- No. Eu... -olhou por cima do ombro - A entrada... -comeou a dizer, mas de repente se interrompeu.
-Eu sei. Cheira mal. Guido deve esta cozinhando outra vez. Entre.
Devia ter se preparado para contemplar seu apartamento, mas no foi assim. Reed olhou assombrado o vermelho gritante das cortinas, o azul eltrico do tapete, a cadeira
que parecia proceder de um castelo medieval. E seu nome nas letras brilhantes de non rosa, ressaltando contra a brancura da parede.
- Nossa - murmurou.
- Eu gosto de viver aqui - de repente o teto ressonou com trs estrondos simultneos - Oh, so as alunas de bal do quinto. Gostaria de uma taa de vinho?
- Sim - respondeu Reed, meio incomodado - Claro.
- timo. Eu tambm - voltou para a cozinha, que estava separada da sala por um pequeno biombo - Tenho um saca-rolha em uma dessas gavetas. Por que no vai abrindo
a garrafa enquanto eu termino com isto?
Depois de uma pequena hesitao, Reed comeou a procurar nas gavetas da cozinha de Maddy. Na primeira encontrou uma bola de tnis, vrias chaves soltas e algumas
fotos, mas nenhum saca-rolha. Abriu outra, perguntando-se pelo que encontraria ali. No quinto andar, as bailarinas continuavam dando saltos.
- Como voc gosta do fil?
Reed resgatou o saca-rolha que estava entre um matagal de cabos eltricos de cor negra.
- Ah... Ao ponto.
- Certo - quando Maddy se agachou para tirar uma panela para grelhar do forno, roou a face em sua coxa.
Reed desarrolhou habilmente a garrafa e a deixou de lado.
- Por que me convidou para jantar em sua casa?
Ainda agachada procurando coisas, Maddy ergueu o olhar.
- Por nenhum motivo certo. Ou talvez sim. Possivelmente pela escova - levantou, com uma frigideira na mo - E, alm disso,  muito bonito...
Adorou o brilho de diverso que apareceu nos olhos do Reed.
- Obrigado.
- De nada. E voc... Por que aceitou meu convite?
- No sei.
- Isto se est ficando interessante. Esta  a primeira obra que patrocina, no ?
- Sim.
- Pois esta tambm  a primeira vez que convido um patrocinador para jantar. Assim estamos empatados - deixando de lado a salada, comeou a preparar o fil.
- Voc tem taas?
- Taas? -repetiu Maddy, e olhou a garrafa de vinho - Ah, sim, esto em um dos armrios.
Resignado, Reed deu comeo a outra busca. Encontrou copos, vrios pratos de plstico... E por fim um total de oito taas de vinho, todas diferentes.
- No gosta de uniformidade?
- Na verdade no - ps o fil ao fogo e aceitou a taa que lhe oferecia.
Reed a observou por cima da borda de sua taa. Estava descala. E tinha um aroma fresco, inocente.
- Sabe? No  o que eu tinha esperado.
- E o que tinha esperado?
- No sei, uma pessoa mais tensa. Menos despreocupada. Mais vida.
- Se estar se referindo  fome, os bailarinos sempre esto famintos - comentou ela com um meio sorriso, voltando-se para ralar o queijo sobre as batatas.
- Pensei que tinha me convidado para jantar aqui por uma de duas razes. A primeira era me surrupiar informao sobre o financiamento da obra.
Maddy comeou a rir.
- Reed, tenho que me preocupar com oito nmeros da pea musical, talvez dez, se Macke resolver mudar o nmero como sempre, e seis canes. Problemas de dinheiro
se referem a voc e os produtores. Qual  a segunda razo?
- Me seduzir.
Maddy arqueou as sobrancelhas, mais curiosa que assombrada. Reed a olhava fixamente, sorrindo levemente, com um toque de diverso.  um cnico, pensou ela. Era
verdadeira uma pena. Mas talvez tivesse um bom motivo para s-lo.
- As mulheres geralmente procuram seduzi-lo?
Reed tinha esperado uma reao de vergonha de sua parte, ou de desgosto. Mas, em lugar disso, estava-o olhando com uma leve curiosidade.
- Bom, falaremos de outra coisa, certo?
- Suponho que as mulheres so mais discretas com voc - procurou um garfo para virar o fil - E suponho que voc est um pouco farto disso. Eu nunca tive essa experincia.
Geralmente os homens procuram seduzir minha irm.
- S est fritando um fil.
- Sim, eu sei. O seu.
- Voc no vai comer?
- Oh, sim, mas eu nunca como tanta carne vermelha. Faz mal para meu treinamento. Embora tenha a esperana que me dar um pedacinho de seu. Tome - entregou-lhe a
saladeira - Leve isto para mesa pequena que h ao lado da janela. J est l quase tudo.
O jantar estava realmente bom. Excelente na verdade. Ele, ao princpio, vendo-a cozinhar, tivera suas dvidas. A salada era uma verdadeira sinfonia de mil verduras
distintas, a cada uma mais saborosa que a outra. As batatas estavam recheadas com tiras de bacon e queijo, e o fil estava no ponto que mais gostava. E o vinho era
forte o suficiente. Maddy ainda no tinha acabado sua primeira taa. Comia apenas uma frao do que para Reed teria parecido normal, e parecia desfrutar de cada
bocado, mastigando-o muito lentamente.
- Come um pouco mais de fil - ofereceu-lhe, mas ela negou com a cabea. Em vez disso, serviu mais salada - Para mim, algum com um trabalho como o seu deveria comer
bastante para compensar tanto desgaste fsico.
-  prefervel que os bailarinos mantenham um peso mais abaixo do normal. No fundo, e mais um problema de comer as coisas adequadas. E isso  algo que odeio - sorriu
enquanto picava uma folha de alface com alfafa - No  que odeie a comida saudvel. Eu gosto de comida, e ponto. Em vrias ocasies posso chegar a colocar milhares
de calorias no corpo. Mas me asseguro de faz-lo sempre e quando queira celebrar algo.
- Quando?
- Por exemplo, quando sai o sol depois de vrios dias chuvosos. Essa ocasio merece alguns biscoitos de chocolate - serviu-se outra meia taa de vinho - Voc no
gosta de biscoitos de chocolate?
- Nunca os associei com nenhuma celebrao.
-  que voc nunca viveu uma vida anormal.
- Considera sua vida anormal?
- Eu no, mas milhares de pessoas sim - apoiou os cotovelos na mesa e juntou as mos debaixo do queixo. Quando a conversa era interessante, sempre se esquecia de
comer - Diga-me, como  sua vida?
A luz do crepsculo que entrava pela janela estava desaparecendo a cada minuto. E o pouco que ficava dela parecia concentrar-se em seus cabelos, castanho com reflexos
avermelhados. Seus olhos, que lhe tinham parecido to francos e inocentes, brilhavam naquele instante como os de um gato: ardilosos e lnguidos, pensativos.
- No sei como responder isso.
- Bom, vou tentar adivinhar. Possui um apartamento, provavelmente com vista para um parque - seguiu picando a salada, sem deixar de observ-lo - Porcelanas Ming,
figuras de Dresde, esse tipo de decorao. Passa mais tempo em seu escritrio do que em casa. Muito responsvel com seu negcio, dedicado por inteiro a seu trabalho.
Mantm relaes superficiais com garotas, porque no tem nem tempo nem desejo de manter uma relao mais profunda. Se tivesse tempo, freqentaria mais os museus
e veria de vez em quando algum filme europeu. Prefere os restaurantes franceses, discretos e elegantes.
Reed sabia que no estava zombando dele. Mas, decididamente, parecia mais divertida que impressionada. Um brilho de desgosto apareceu em seus olhos, nem tanto porque
tivesse se aborrecido com sua descrio, mas sim pela facilidade com que tinha adivinhado aquelas caractersticas e costumes de seu carter.
- Muito precisa.
- Perdoe-me - disse Maddy rapidamente com uma seriedade que fez desaparecer por completo o desgosto que Reed poderia ter sentido - Tenho o costume de observar s
pessoas e rotul-las. Eu ficaria furiosa se algum fizesse isso mesmo comigo - de repente mordeu o lbio inferior - Aproximei-me?
Era muito difcil Reed resistir a seu bom humor.
- O suficiente.
Maddy soltou uma gargalhada, agitando seus cabelos, e encolheu as pernas at ficar sentada na posio do ltus.
- Posso perguntar por que quis patrocinar um musical que tem uma artista do strip-tease como protagonista?
- Posso perguntar a voc por que quis representar o papel de uma danarina de strip-tease?
- Certo, responderei primeiro.  uma obra magnfica. A msica  estupenda, e o texto tambm. Eu adoro o personagem de Mary. Teve que endurecer-se para sobreviver,
esforando-se ao mximo. Quer mais, e o consegue porque merece. Seu nico problema  que se apaixonou por esse rapaz. E realmente chega a perder a cabea por ele.
Depois disso, nada importa: nem o dinheiro, nem a posio, nem nada. Em todo caso, no final tudo termina bem. Gosto disso.
- E foram felizes para sempre.
- Voc no acredita nos finais felizes?
Algo pareceu se fechar em sua expresso, rapidamente, de repente.
- Em um musical, sim.
- Acredito que deveria conversar com minha irm.
- A que tem tanto sucesso com os homens?
- No, minha outra irm. Quer bolo de sobremesa? Comprei um, e se voc comer poder me oferecer um pouco. Seria uma descortesia de minha parte rechaar esse oferecimento
Reed praguejou em seus pensamentos: sua atrao por aquela mulher estava crescendo a cada segundos. E isso por que ela no era nem seu tipo e muito menos seu estilo.
- Eu adoraria - sorriu.
Maddy foi para cozinha e voltou com um grande bolo de chocolate.
- Minha irm Abby esteve casada com Chuck Rockwell, o piloto de carros. Ouviu falar dele?
- Sim - Reed nunca tinha sido um apaixonado por corridas de carros, mas aquele nome era familiar - Morreu a alguns anos em um acidente.
- Seu casamento no funcionava. Foi uma experincia horrvel para o Abby. Teve que criar seus dois filhos sozinha, em sua fazenda na Virginia. H alguns meses deu
autorizao a um escritor para fazer uma biografia do Rockwell. E o escritor se apresentou na fazenda - mostrou o bolo - Vai me oferecer um pouco?
Reed cortou obediente um pedao e o deu.
- O que aconteceu com sua irm?
- Casou-se com o escritor faz um ms e meio - quando sorriu de novo, seu rosto se iluminou de alegria - V? Os finais felizes no somente tm lugar nos musicais.
- O que a faz pensar que o segundo matrimnio de sua irm funcionar?
- Desta vez no se enganou - inclinou-se para frente, olhando-o fixamente nos olhos - Minhas irms e eu somos trigmeas, assim nos conhecemos bem. Quando Abby se
casou com o Chuck, fiquei triste. Por dentro eu sentia que aquilo no era adequado, que nunca poderia funcionar. Somente podia esperar que estivesse enganada. Mas
quando se casou com o Dylan, experimentei uma sensao completamente diferente.
- Dylan Crosby?
- Sim, conhece-o?
- Escreveu um livro sobre o Richard Bailey. Richard trabalhou para a Discos Valentine durante vinte anos. Cheguei a conhec-lo bem enquanto fazia sua investigao.
- O mundo  pequeno.
- Sim - estava escurecendo e o cu tinha adquirido uma cor avermelhada, quase violeta. Os bailarinos do piso superior tinham deixado de praticar. Do outro lado do
corredor, ouvia-se um beb chorando - Me diga, por que vive aqui?
- Aqui? -repetiu, desconcertada - E por que no?
- Com tanto rudo, tanto bulcio...
- E?
- Poderia se mudar para um bairro residencial.
- Para que? Conheo este bairro. Moro h sete anos aqui. Est perto da Broadway, e me serve muito bem para os ensaios e as aulas. E, provavelmente, perto da metade
dos inquilinos do edifico so ciganos- ao ver sua expresso de surpresa, apressou-se em explicar-: Bailarinos ciganos, quero dizer -levantou-se, rindo, e comeou
a brincar com as folhas da planta que tinha ao lado da janela-. Bailarinos que vo de musical em musical,  espera de sua grande oportunidade, de triunfar. Eu tive
sorte. O que no significa que tenha deixado de ser um desses ciganos - olhou-o, perguntando-se por que se importava que a compreendesse - No se pode mudar o
que algum , Reed. Ou, ao menos, no se deveria mudar.
Reed pensava o mesmo. Sempre tinha sido essa sua opinio. Era filho do Edwin Valentine, um dos grandes pioneiros da indstria do disco. Ele era um produto do xito,
da riqueza e da sobrevivncia. Estava, como bem tinha adivinhado Maddy, absolutamente dedicado a seu negcio, porque sempre tinha formado parte de sua vida. Era
impaciente, s vezes implacvel, e no perdia jamais o tempo. Por isso no tinha sentido que estivesse ali naquele instante, naquele escuro apartamento, com uma
mulher de olhos de gato e sorriso malicioso.
- Acredito que est matando essa planta - murmurou.
- Sei. Sempre o fao - para sua prpria surpresa, deu-se conta de que estava emocionada. Havia algo estranho na forma em que a estava olhando naquele preciso momento.
Algo no tom de sua voz, na postura de seu corpo. Podia se enganar na hora de interpretar uma expresso, mas nunca um gesto corporal. Reed estava tenso, e ela tambm
- Continuo comprando outra planta, e continuo matando-as.
- Muito sol - no tinha tido inteno de faz-lo. Em um impulso, roou o dorso de uma mo com os dedos - E muita gua. Pode-se matar as mudas tanto com a falta de
cuidados quanto com um cuidado excessivo.
- Ah, eu no tinha me dado conta disso - pronunciou distrada, pensando no estranho calafrio que atravessava seu brao e continuava depois ao longo de suas costas
- Bom, posso lhe oferecer um caf. Ch no tenho.
- No importa, tenho que ir - era mentira: no tinha compromisso algum. Mas Reed era um homem experiente nesses assuntos, e sabia quando devia se retirar - Encantou-me
o jantar, Maddy. E a companhia.
- Alegro-me - suspirou - Logo repetiremos em alguma ocasio.
Foi um impulso. Maddy sempre funcionava por meio de impulsos. No pensou duas vezes. Com deliciosa ternura, posou as mos sobre seus ombros e roou os lbios com
os seus. O beijo durou menos de um segundo. Mas vibrou com a fora de um furaco.
Por um instante Reed sentiu que seus lbios se curvavam em um sorriso. Ali estava outra vez aquele aroma to dele, to sedutor. Quando ela se afastou, ouviu seu
leve suspiro de surpresa e viu em seus olhos o mesmo assombro que devia refletir-se nos seus.
Maddy se sentia aturdida. Nunca tinha experiente nada parecido. Queria mais, mas dominou seu desejo.
- Fico feliz que tenha vindo - disse, ainda mais surpreendida pelo tremor de sua voz.
- Eu tambm - Reed no estava muito acostumado a dominar-se. Mas nessa ocasio teve que faz-lo - Boa noite, Maddy.
- Boa noite - ficou onde estava enquanto ele abandonava o apartamento. Depois, fazendo caso do que lhe pedia seu prprio corpo, sentou-se. Seu olhar se desviou para
a planta da janela, que j tinha comeado a amarelar.
Era estranho. Mas o certo era que, at naquele momento, no tinha se dado conta de que tinha estado vivendo na escurido. Ao contrrio da planta.


Captulo 3

Maddy podia sentir seus msculos esquentando enquanto se estirava na barra com o resto dos bailarinos. O instrutor de bal clssico ia ditando as posies: pli,
tendu, attitude. As pernas, os torsos, os braos respondiam em uma repetio interminvel.
A aula da manh era precisamente isso: repetio. Um contnuo aviso para o corpo de que podia efetuar movimentos que lhe eram antinaturais, e faz-lo maneira contnua,
at grav-los. No era necessrio concentrar-se muito. Maddy tinha um corpo modelado na disciplina. Sua mente viajava at outro lugar, divagava, sem por isso deixar
de obedecer s ordens que ia ouvindo.
Grand pil. Dobravam-se os joelhos, seu corpo descia lentamente at encostar-se a seus calcanhares. Os msculos tremiam, at aceitar a postura. Perguntou-se se Reed
j estaria em seu escritrio, embora faltasse ainda muito para as nove. O que pensaria dela?
Attitude em avant. Elevou uma perna, mantendo-a em um ngulo de noventa graus. Provavelmente Reed no pensaria nada dela. Sua mente estaria to ocupada com entrevistas
e compromissos que no teria tempo nem para lhe dedicar um simples pensamento.
Battement fondu. Levou o outro p para trs da perna sobre a qual se apoiava, dobrando-se ao mesmo tempo. Gradual, lentamente, foi erguendo-se, sentindo-a resistncia.
No, no teria tempo para pensar nela naqueles momentos. Mais tarde possivelmente, a caminho de sua casa. Talvez enquanto descansava tomando alguma bebida, lembraria-se
dela. Sim. Que se lembrasse dela.
Terminou a srie e foi para o centro da sala. Os exerccios que acabava de praticar na barra seriam repetidos de novo. A um sinal, colocou-se na quinta posio e
comeou. Um, dois, trs, quatro. Dois, dois, trs, quatro.
L fora estava chovendo. Podia ver como se embaavam os vidros das janelas enquanto se inclinava e esticava. Uma chuva clida, pensou. Lembrava-se que tinha feito
calor quando entrara nas aulas aquela manh. Esperava que estivesse chovendo quando ela sasse.
Quando menina, no tinha tido muito tempo para passear sob a chuva, para desfrutar daquela sensao. Embora no se arrependesse de nada, no deixava de ser certo
que sua famlia e ela tinham passado mais tempo em salas de ensaios e estaes de trem do que em parques e balanos. Mas seus pais a tinham compensado, a ela e a
suas irms, com o presente de sua imaginao, de contos e de jogos, de histrias maravilhosas que, em si, eram verdadeiros tesouros. Quando tinham dois pais irlandeses
to criativos, o cu era o limite.
Tinham aprendido tanto deles... A geografia aprendera na estrada, viajando. Ver o Mississipi fora muito melhor que ler sobre ele. A gramtica, a lngua, a literatura
foram aprendidas nos livros e romances preferidos que eles tinham passado para cada uma delas. A matemtica tinha sido um problema mais de sobrevivncia. Sua educao
tinha sido to pouco convencional como sua maneira de desfrutar do cio, mas mesmo assim Maddy se considerava melhor formada e educada do que a maioria das pessoas
que conhecia.
Maddy no tinha sentido falta dos parques, ou dos balanos. Sua infncia tinha constitudo seu prprio carrossel. Mas agora, adulta, raramente desperdiava a oportunidade
de passear sob a chuva.
Tinha certeza que Reed no gostava de caminhar sob a chuva. Maddy duvidava inclusive que lhe ocorria fazer algo assim. Os dois eram como dois mundos separados: por
nascimento, por escolha, por inclinaes. Seu p direito passou ao movimento de chass, para trs, para frente, ao lado. Repetir. Repetir. Reed era um homem lgico,
sensato, algo inflexvel. De outra maneira, no era possvel alcanar tanto xito no mundo dos negcios. Mas ningum poderia considerar lgico estirar o corpo at
alcanar posies antinaturais dia aps dia. E ningum tampouco poderia considerar sensato dedicar-se de corpo e alma ao mundo dos musicais e submeter sua vida aos
caprichos do pblico. Quanto  inflexibilidade, possivelmente no havia nada mais inflexvel que as exigncias que impunha a seu prprio corpo.
Mas por que no podia deixar de pensar em Reed? No podia deixar de lembrar o reflexo do sol do entardecer em seu cabelo, ou a maneira que tinha sido cuidadoso,
to direto, intrigado e cnico. Acaso no era uma loucura que uma otimista como ela se visse to atrada por um cnico como ele? Claro que sim. Mas Maddy tinha cometido
mais de uma loucura.
Tinham compartilhado um nico beijo. Nada mais. Reed nem sequer a tinha abraado. Suas bocas no tinham chegado a fundir-se com paixo. E, mesmo assim, Maddy evocava
aquele mgico instante vrias vezes. Tinha a suspeita, na verdade a certeza, de que no tinha sido indiferente a aquele contato. Esforou-se para reviver aquela
mgica sensao, para voltar a experiment-la. E ao faz-lo, sentiu um calor que nada tinha a ver com o exerccio que estava fazendo. Seu pulso, acelerado j pelo
esforo fsico, aumentou sua velocidade.
Era assombroso que a lembrana de uma simples sensao pudesse desencadear um efeito semelhante. Fazendo uma srie de pirouettes, recuperou-se e procurou concentrar-se
em suas aulas.

Com o cabelo ainda mido pela ducha, Maddy vestiu uma malha de cor amarela, com remendos de cores. As duchas da sala de ensaios estavam cheias de vapor e do aroma
a colnia e talco. Uma mulher alta, nua de cintura para acima, estava sentada em um canto dando massagem em um tornozelo.
- Agradeo-a por me recomendar essas aulas - Wanda, resplandecente com uns jeans e um suter que parecia adaptar-se a seu corpo como uma segunda pele, estava-se
prendendo o cabelo em um coque - So mais duras que as outras que estava recebendo. E cinco dlares mais barata.
- A professora tem uma fraqueza especial pelos ciganos - Maddy estava sentada esparramada em um banco, secando os cabelos.
-  um doce. No  todo mundo que chega em sua posio to amvel e generosa com pessoas como ns.
- Vamos, Wanda...
Wanda colocou o ltimo grampo enquanto olhava para Maddy no espelho.
- Voc , e no negue que  agradvel sentir que os novatos chegam cheios de dedos...
- Serve de estmulo. Onde conseguiu esses brincos?
Wanda terminou de prender seus longos cabelos de cor vermelha brilhante, que quase chegavam a seus ombros.
- Em uma loja da Village. Custaram-me cinco e setenta e cinco.
Maddy levantou do banco e se aproximou de Wanda.
- Tinham azul?
- Provavelmente. Voc gostou?
- Eu adorei.
- Eu troco por aquela passadeira que vi com voc cheia de miangas.
- Trato feito - aceitou Maddy imediatamente - A levarei ao ensaio.
- Genial. Sabe? Parece feliz.
- E estou.
- Quero dizer que parece feliz por um homem.
Arqueando uma sobrancelha, Maddy se olhou no espelho. Sem, maquiagem, sua pele brilhava transbordante de sade e frescura. Tinha os lbios cheios, delicadamente
contornados sem necessidade de batom algum. Era uma pena que no tivesse as pestanas to longas como sua irm Chantel.
- Feliz por um homem - repetiu Maddy, como saboreando a expresso - A verdade  que conheci um.
- Sabia.  bonito?
- Maravilhosamente bonito. Tem uns olhos cinzas incrveis. Cinzas de verdade.
- Falemos de seu corpo.
Maddy gargalhou enquanto rodeava os ombros de Wanda com um brao. Pensou que as duas estavam se transformando em boas amigas. Rapidamente.
- Esbelto, ombros largos. Suponho que tem bons msculos.
- Supe?
- No o vi nu.
- Bom, querida, e a que est esperando?
- S jantamos juntos. Acredito que estava interessado. Discretamente interessado.
- No  um bailarino, no ?
- No.
- Melhor - Wanda comeou a tirar os brincos - Os bailarinos sempre so pssimos maridos. Sei por experincia.
- Bom, eu no estou pensando em me casar com ele... - pronunciou Maddy, e de repente abriu muito os olhos - Foi casada com um bailarino?
- H cinco anos. Estivemos juntos no corpo do Pippin - entregou-lhe os brincos - O problema foi que, antes que terminasse a obra, esqueceu-se de seus votos matrimoniais.
E de que usava uma aliana no dedo.
- Sinto muito, Wanda.
- Ora, foi uma lio - respondeu, encolhendo os ombros - Nunca tenha pressa em se comprometer com um homem bonito e sedutor. A no ser que esteja forrado de dinheiro.
O seu est forrado?
- Oh... Suponho que sim.
- Ento no o deixe escapar. Se a coisa no funcionar, sempre poder compensar o desgosto com uma boa fatia.
- Sabe? No acredito que seja to cnica como voc gosta de aparentar - Maddy lhe deu uns tapinhas no ombro - Sofreu muito?
- Bastante - Wanda achava estranho, mas aquilo era algo que jamais antes tinha reconhecido ante ningum que no fosse ela mesma - Digamos que aprendi que nenhum
matrimnio funciona, a no ser que os dois joguem sob as mesmas regras. E se tomarmos o caf da manh juntas?
- No posso - baixou o olhar para a planta de sua casa, que estava sob o banco. Estava murchando - Tenho que entregar algo.
- Refere a essa planta? -sorriu Wanda-. Parece que precisa de um enterro decente.
- O que precisa - corrigiu-a Maddy enquanto ficava seus novos brincos -  uma dose equilibrada de cuidados.

Reed no parava de pensar nela. Estava acostumado a que absolutamente nada interferisse em sua agenda de atividades... Especialmente uma bailarina amalucada e excntrica
que tinha pendurado em sua casa um letreiro de non rosa com seu nome. No tinham nada em comum. Repetia isso em sua mente na noite anterior, quando tinha sido incapaz
de dormir. Maddy no tinha nada que pudesse atra-lo. Exceto aqueles olhos dourados, da cor do mel. Ou aquela risada que seguia ressonando durante horas em sua mente...
Preferia as mulheres sofisticadas, elegantes. As mulheres com que estava acostumado a sair no picavam a comida de seu prato. Iam ver musicais, no atuavam neles.
Mas por que, depois de ter visto Maddy OHurley to somente trs vezes, as mulheres com as quais estava acostumado a sair pareciam mortalmente aborrecidas? Esforou-se
para se concentrar nos dados de vendas que tinha diante de si. Nunca tinha sado com uma mulher simplesmente por sua aparncia. Desejava e procurava conversas inteligentes,
interesses comuns, humor, estilo... Mulheres com as quais pudesse comentar durante um jantar a ltima exposio de pintura do Metropolitan, por exemplo.
E o que evitava escrupulosamente era relacionar-se com mulheres do mundo do espetculo. Respeitava-as e admirava seu trabalho, mas socialmente guardava distncia.
Como o maior responsvel pelos Discos Valentine relacionava-se constantemente com cantores, msicos, agentes e representantes. Discos Valentine no era um negcio
qualquer. E para seu pai tampouco o tinha sido. Era uma organizao que produzia a melhor em msica, desde o Bach at rock, marcada com o selo do talento e a qualidade.
Reed tinha freqentado os musicais desde que era um menino. Acreditava compreender suas necessidades, suas ambies, seus pontos vulnerveis. Por isso, em seu tempo
livre, preferia a companhia de pessoas menos complicadas. Suas prprias ambies j eram o suficientemente intensas. Discos Valentine se encontrava na cpula do
xito, e Reed estava empenhado que seguisse ali. No s por seu pai, mas sim por ele mesmo. E se, como acontecia freqentemente, tinha que trabalhar dez horas ao
dia com e para as pessoas do espetculo, preferia passar seu tempo livre com outro tipo de gente.
Mas, mesmo assim, no podia deixar de pensar em Maddy. Deixou de lado suas contas e se voltou para contemplar a panormica da cidade que se divisava de sua janela.
A chuva havia coberto todo com um vu cinza. Maddy OHurley no parecia ter desenvolvido o escudo protetor, de puro cinismo, que sua profisso geralmente requeria.
Estava alcanando o xito, mas no parecia nada envaidecida. Seria realmente to fresca e inocente como aparentava?
Entretanto... O que podia importar isso a ele?
Tinha jantado com ela... Um curto e simples jantar. Tinham mantido uma conversa interessante, e em certo sentido ntima. Tinham compartilhado um breve e amistoso
beijo... Que o excitara de um modo que nunca sentira.
Sentia-se atrado. No era imune aos encantos de uma mulher. Era natural que sentisse curiosidade pelos de Maddy, com sua estranha filosofia e sua original forma
de vida. No havia mal algum em desejar v-la de novo. Sim, pegaria o telefone e a chamaria. Poderiam voltar a jantar... Mas nessa ocasio segundo seus termos. Antes
que acabasse o encontro, descobriria o que tanto lhe atraa dela.
De repente algum abriu a porta. E Reed esboou um clido e sincero sorriso.
- Chove muito para uma partida de golfe, no?
- Certamente - grande como um urso, Edwin Valentine entrou no escritrio e se deixou cair em uma cadeira - De todas as formas, o golfe pode chegar a me aborrecer
mortalmente. E j sabe que se no me deixo de aparecer por aqui de vez em quando, comeo a me sentir velho...
- Sei. Compreendo-o perfeitamente - Reed se recostou em sua poltrona e estudou os traos duros e fortes de seu pai.
Durante quase vinte anos, a companhia tinha estado em mos de Edwin. At ento, todas as decises tinham sido dele. E, entretanto, no sentia o menor arrependimento
ou inveja ao ver seu filho sentado atrs de sua mesinha. Porque era precisamente para isso tinha trabalhado durante tantos anos.
- Sabe? Fala-se muito dessa garota. Eu gostaria que Dorsey produzisse seu primeiro lbum conosco.
Reed sorriu. A intuio de seu pai era, como sempre, infalvel.
- J conversamos. Continuo pensando que deveria abrir um escritrio aqui - ergueu uma mo antes que seu pai pudesse replicar - Mas no quero dizer com isso que tenha
que se amarra a um horrio regular, como antes.
- Nunca em toda minha vida tive um horrio regular - assinalou Edwin.
- Bom, pois irregular ento. Acredito que Discos Valentine deveria seguir contando com Edwin Valentine.
- Obrigado, mas j conta com voc - entrelaou os dedos sobre seu colo, lanando a seu filho um olhar direto e tranquilo. Comunicavam-se perfeitamente sem palavras
- No  por que eu no ache que deve ouvi um conselho desse velho de tempo em tempo. O que acontece  que agora  voc quem est no comando. E o navio navega com
rumo firme e constante.
- J sabe que jamais falharia.
- Sou muito consciente disso, Reed.  consciente de que no posso estar mais orgulhoso de voc.
- Papai... - pronunciou, emocionado.
Mas antes de que pudesse terminar, ou mas bem comear, apareceu sua secretria com uma bandeja de caf e petiscos.
-Ol, Hannah. Me alegro em v-la.
-O mesmo digo, senhor Valentine. Ah, vejo que perdeu alguns quilos. Est timo.
Hannah deu uma rpida piscada de cumplicidade para Reed. Depois de doze anos trabalhando na empresa, era a nica pessoa da equipe que se atrevia a brincar com seu
pai.
-  uma malvada. Na realidade ganhei mais de dois - de qualquer jeito aquilo no parecia preocup-lo, porque se serviu de vrios pasteizinhos da bandeja.
- Pois lhe assentaram muito bem, senhor Valentine - e se dirigiu a Reed, ao mesmo tempo em que deixava uma xcara na mesa - s onze e meia tem uma entrevista com
o Mckenzie no departamento de Vendas. Quer que a programe para outra hora?
- Por mim no - apressou-se Edwin.
Reed olhou seu relgio e fez um rpido clculo mental.
- De acordo, verei-o s onze e meia, Hannah. Obrigado.
- Diabo de mulher - exclamou Edwin com a boca cheia, uma vez que a secretria se partiu - Fez bem ao contrat-la como sua secretria quando me aposentei.
- Duvido que Discos Valentine pudesse funcionar sem Hannah -Reed desviou o olhar para a janela, pensando em outra mulher.
- O que tem na cabea, Reed?
- Mmm? - voltando para a realidade, levantou sua xcara de caf - Os dados de vendas parecem bons. Acredito que ter uma agradvel surpresa quando vir o balano
de fim de ano.
Edwin no tinha nenhuma dvida. Reed era um produto de sua mente, de seu corao. Por isso sabia que lhe acontecia algo.
- Tenho a impresso de que no so precisamente dados de vendas o que tem no crebro.
Reed assentiu com a cabea, decidindo responder a sua pergunta, mas evitando-a ao mesmo tempo.
- Estive pensando bastante no musical que decidimos patrocinar.
- Est nervoso?
- No, absolutamente. Mantive vrias reunies com o produtor e o diretor. Inclusive assisti a alguns ensaios. Tenho o pressentimento de que ser um grande xito.
Agora estamos trabalhando na produo e em uma pesquisa de mercado para a sada do lbum.
- Se no se importar, eu gostaria que me mantivesse a par dos detalhes.
- Sabe que no precisa me pedir isso.
- Sim, precisa - corrigiu-o-. Porque voc est no comando. Acontece que tenho certo interesse nesta obra.
- Ainda no me explicou por que.
Edwin sorriu antes de morder outro pastelzinho.
-  uma velha histria. J conhece Maddy OHurley?
Reed arqueou as sobrancelhas, surpreso. Como seu pai podia ter adivinhado seus pensamentos daquela maneira?
- Bom, de fato... - de repente soou o boto do intercomunicador - Sim, Hannah?
- Sinto incomod-lo, senhor Valentine, mas uma jovem veio para v-lo. Diz que quer lhe entregar algo.
- Cuide disso, por favor, Hannah.
- Ela prefere entregar pessoalmente. Chama-se... Maddy.
- Maddy? Faa-a entrar.
Ensopada de chuva, com uma planta em uma mo e uma mochila na outra, Maddy entrou na sala.
- Sinto incomod-lo, Reed.  que estive pensando no que me disse e decidi lhe dar a planta de presente antes de assassin-la. Sempre sinto uma culpa enorme quando
mato outra planta, e pensei que voc poderia me economizar o desgosto...
Edwin se levantou o v-la, e Maddy interrompeu sua confusa explicao.
- Ol -sorriu -. J sei que estou interrompendo, mas a verdade  que  um assunto de vida ou morte - deixou a planta molhada sobre a mesa de carvalho de Reed - Se
morrer no me diga, certo? Mas, se sobreviver, me faa saber. Obrigado - e com um ltimo e radiante sorriso, virou-se para partir.
- Maddy - agora que j tinha lhe dado  oportunidade de dizer algo, Reed tambm se levantou - Eu gostaria de apresent-la ao meu pai. Edwin Valentine, Maddy OHurley.
- Oh - seu primeiro impulso foi estender a mo, mas logo se arrependeu - Estou molhada - desculpou-se, sorrindo - Prazer em conhec-lo.
- Encantado - exclamou Edwin - Sente-se.
- Oh no posso, de verdade. Estou toda molhada.
Mas antes que pudesse protestar, Edwin a pegou pelo brao e a fez sentar em uma das cmodas cadeiras que havia ao lado da mesa.
- J a vi atuar. Admiro muito seu trabalho.
- Obrigado - no se sentia absolutamente inibida, apesar de achar-se na presena de um dos homens mais ricos e influentes do pas. Ainda era muito atraente com seu
rosto de traos duros, e embora se esforasse, no conseguiu achar semelhana com o de seu filho.
- Gosta de um caf, Maddy? - Reed perguntou.
- Oh, j no tomo caf. Preferiria um ch com mel, se tiver.
- Aceita um biscoito - ofereceu Edwin.
- Obrigado. Sabe? Estvamos perguntando se gostaria de alguma vez visitar os ensaios, senhor Valentine.
- J tinha pensado nisso. Na verdade Reed e eu estvamos falando da obra. Acredita que ser um xito. O que voc pensa?
- Acredito que traria m sorte dizer isso, assim prefiro me conter no momento - mordeu um pastelzinho, e olhou agradecida para Hannah quando entrou para lhe servir
um ch - Porque se fracassar, temo ter que voltar para meu antigo trabalho de garonete.
- Aprecio sua opinio - comentou Edwin, dando um tapinha em sua mo - Segundo meu ponto de vista, se um OHurley no sabe quando um nmero tem ou no xito, ento
ningum mais sabe - ao ver seu sorriso de surpreso, inclinou-se para ela-. Eu conheci seus pais.
- Srio? -o rosto do Maddy se iluminou de prazer, esquecendo o salgadinho - No me lembro deles falando-me sobre isso.
- Foi h muito tempo. Eu acabava de comear no negcio, e estava em busca de talentos e de dinheiro. Conheci seus pais aqui mesmo, em Nova Iorque. Eram minhas primeiras
tentativas, os mais difceis momentos. E eles me deixaram dormir em um colcho, no quarto de hotel em que se hospedavam. Nunca esqueci.
Maddy lanou um eloquente olhar ao seu redor.
- Bem, pois acabou triunfando, senhor Valentine.
Edwin riu.
- Sabe? Sempre quis devolver o favor de alguma forma. Prometi a eles que o faria. Isso foi a uns vinte e cinco anos atrs. Suas irms e voc ainda usavam fraldas.
Acho que at troquei alguma fralda. Ah, e tambm me lembro que tinha um irmo. Um diabinho irlands.
- Segue sendo.
- Cantava como um anjo. O que aconteceu com ele?
- Para o tremendo desgosto de meu pai, Risque decidiu dedicar-se a viajar. Optou por seguir um caminho diferente.
- Suas irms e voc tinham um grupo, no?
Maddy no sabia se ria ou se envergonhava daquela lembrana.
- Sim... As trigmeas OHurley.
- Na poca eu quis oferecer um contrato - informou-a Edwin, e viu que seus olhos arregalaram surpreendidos -  verdade. Mas Abby se casou.
Um contrato com Discos Valentine? Maddy lembrou-se daqueles tempos e pensou na alegria que viviam. Seus sonhos se tornando reais.
- Papai sabia?
- Sim. Falei com ele.
- Meu Deus - sacudiu a cabea - Deve ter ficado arrasado em desperdiar a oportunidade... Mas jamais nos disse nada. Pobre papai.
- Estava to orgulhoso de vocs...
- Voc  um grande homem, senhor Valentine. Ento, patrocinar a obra...  uma maneira de pagar o favor que meus pais lhe fizeram ao emprestar um simples colcho?
- Sim. Uma compensao que proporcionar a minha empresa bons benefcios. Eu gostaria de voltar a ver seus pais, Maddy.
- Eu me encarregarei disso - levantou-se, consciente de que no podia chegar tarde aos ensaios - No queria monopolizar a visita com seu pai, Reed, mas...
- No se desculpe. Foi extremamente ilustrativo. E enriquecedor.
Maddy o observou. Parecia to formal assim, atrs da mesa, naquele escritrio to luxuoso...
- Lembre-se que  a segunda vez que terminamos reconhecendo que o mundo  muito pequeno.
-  verdade.
- Levar a plantinha, no?
Reed a olhou. Tinha um aspecto lamentvel.
- Farei o que puder, mas no posso prometer nada.
- Melhor, porque as promessas me deixam nervosa. Quando as fazemos, sempre temos que cumpri-las - suspirou profundamente, sabendo que deveria se despedir e sair,
mas ainda hesitava - Sabe? Seu escritrio  como eu o tinha imaginado. De uma elegncia... Organizada. Um bom dia para voc. Obrigado pelo ch. At logo.
Queria toc-la. Ele se surpreendeu com a vontade que tinha de rodear a mesa e abra-la.
- Quando quiser.
- O que acha da sexta-feira? -perguntou Maddy, sem poder evitar.
- Na sexta-feira?
- Na sexta-feira estou livre - agora que j tinha se decidido, procurou no arrepender-se - Depois do ensaio.
Reed esteve a ponto de negar com a cabea. Naquele instante no lembrava dos compromissos que tinha para esse dia. Nem sabia o que responder a uma mulher que tinha
lhe feito uma proposta semelhante com tanta inocncia. De qualquer maneira estava contente que a tivesse feito.
- Onde?
- No Centro Rockefeller - esboou um sorriso radiante-. s sete. E agora vou, pois no quero chegar tarde - voltou-se para o Edwin-. Fiquei feliz em conhec-lo -
com sua doura habitual, plantou dois beijos nas bochechas do homem-. Adeus.
- Adeus, Maddy - Edwin esperou que partisse antes de dirigir-se a seu filho. Eram raras as vezes que tinha o privilgio de ver essa expresso de atordoamento no
rosto de seu filho - O homem que decidir cavalgar sobre um furaco como esse, pode fazer uma das duas coisas: ou fugir como um covarde ou desfrutar da maravilha
- sorrindo, pegou o ltimo biscoito-. Que me crucifiquem se eu no aproveitaria como um condenado.


Captulo 4

Reed se perguntou se Maddy o teria enfeitiado. Maddy OHurley no parecia ser o que a maioria das pessoas entendia por uma feiticeira, mas essa era a explicao
mais razovel para o fato de que estivesse rondando pelos arredores do Centro Rockefeller naquela mida e calorosa tarde de sexta-feira. Sobre tudo quando naquele
preciso instante deveria estar jantando tranqilamente em sua casa antes de concentrar-se nos papis que ainda levava em sua maleta.
O trfico era especialmente denso na Quinta Avenida. Os pedestres caminhavam apressados, como nmades desorientados  busca de um osis. Reed observou distrado
como uns meninos tentavam vender aos transeuntes cravos a dlar. Mas embora algumas palavras da conversa chegassem at eles no lhes dava ateno. Estava perdido
demais em seus prprios pensamentos.
Por que tinha aceitado encontrar-se com ela? A resposta a essa pergunta era bvia. Tinha querido v-la. Negar no tinha sentido. Maddy excitava sua... Curiosidade,
refletiu Reed, incapaz de encontrar um termo mais adequado. Uma mulher como ela no podia menos que excitar a curiosidade de qualquer um. Era uma mulher que tinha
alcanado o xito, embora no se vangloriasse disso. Era atraente, embora raramente usasse deste recurso. Tinha um olhar sincero. Sim, Maddy era em si uma curiosidade,
uma raridade.
Mas por que diabos no tivera reflexos mais rpidos para lhe sugerir que escolhesse um lugar mais... Conveniente?
Um grupo de adolescentes passou a seu lado, rindo. Uma delas se voltou para olh-lo e sussurrou algo para sua companheira. Ergue-se outro coro de risadas antes que
se perdessem na multido. Um vendedor de sorvetes fez um bom negcio com um grupo de empregados de escritrio que acusavam os efeitos do forte calor que reinava.
A um quarteiro de distncia dali, ressonou a sirene de uma ambulncia, mas ningum se incomodou em olhar. Reed podia sentir como o suor comeava a umedecer a gola
de sua camisa. Seu relgio marcava sete e vinte.
Quase j tinha perdido a pacincia quando a viu. Por que parecia se destacar tanto entre as pessoas que a rodeavam? Era estranho. Caminhava com uma graa especial.
Rpida, mas era como se o fizesse lentamente.
- Sinto muito - disse rpido ao v-lo - Parece que sempre estou me desculpando por chegar tarde. Perdi o nibus, mas depois pensei que era melhor ir para casa a
me trocar depois do ensaio, porque imaginei que estaria de terno - olhou-o com um radiante e satisfeito sorriso - E tinha razo.
Usava um vestido de saia ampla, com um verdadeiro arco ris de cores que lhe dava um ar de cigana. A seu redor, todo mundo parecia usar tons cinza.
- Podia ter tomado um txi - murmurou Reed.
- Oh, nunca tive esse costume - com toda naturalidade, agarrou seu brao e se ps a andar - Estou certa que esta morrendo de fome com tanta espera. Conheo uma estupenda
pizzaria...
Mas Reed a interrompeu enquanto abriam passo entre a multido.
- Eu convido. Estou certo que poderemos jantar algo melhor que uma pizza.
Maddy ficou impressionada ao v-lo fazer um txi parar na primeira tentativa. No discutiu quando ouviu que dava ao condutor um endereo no Park Avenue, em uma zona
muito luxuosa da cidade.
- Bem - disse-lhe enquanto se sentava a seu lado - Simpatizei muito com seu pai.
- Asseguro-a que o sentimento  mtuo.
- No  uma maravilhosa casualidade que conhecesse meus pais? Que estranho que papai nunca tenha nos falado de Edwin.
- Possivelmente se esqueceu dele...
- No acredito - respondeu Maddy, soltando uma gargalhada - Meu pai tem uma memria prodigiosa. Mas bem o surpreendente  que seu pai se lembrasse ainda daquele
detalhe, no acha?
Reed estava de acordo. Edwin tinha conhecido centenas e centenas de pessoas. Por que teria que lembrar-se com tanta exatido de dois artistas que tinham lhe dado
teto por apenas uma noite?
- O certo  que seus pais causaram uma grande impresso nele - pronunciou Reed, pensando em voz alta.
- So estupendos. Hey! - exclamou quando o txi se deteve na porta de um seleto restaurante francs - Eu no estou acostumada a frequentar esta regio.
- Por qu? No est longe de sua casa.
- Tudo o que preciso est concentrado em uma rea muito pequena - teria sado do txi por seu prprio p se Reed no tivesse pegado sua mo para ajud-la galantemente
a descer - Geralmente no tenho tempo para sair com homens. E quando fao,  com homens cujo francs se limita s posturas do bal.
Deteve-se em seco enquanto Reed lhe abria a porta.
- Bah. Temo que esse comentrio tenha sido de mau gosto, no?
- Acho que sim - respondeu ele, uma vez l dentro - Mas suspeito que falaria de qualquer modo.
- No sei se vou tomar isso como um insulto. Em qualquer caso, pensarei nisso mais tarde. Os insultos me deixam de mau humor, e no quero atrapalhar meu prprio
jantar - brincou Maddy.
- Ah, monsieur Valentine.
- Jean-Paul - Reed saudou cordialmente o maitre - No reservei mesa. Espero que tenha lugar para ns.
-  obvio que sim. Sigam-me, por favor.
Era precisamente o tipo de restaurante que Maddy tinha esperado que Reed freqentasse. De uma sbria elegncia, absolutamente ostentosa. Os quadros em tons pastis
davam um ar tranqilo e relaxante ao ambiente.
- Champanhe, senhor Valentine?
- Maddy? - inquiriu recebendo a lista de vinhos, mas deixando a deciso para ela.
- Sempre  difcil rejeitar um champanhe -respondeu, lanando ao maitre um encantador sorriso.
- Obrigado, Jean Paul - disse Reed, lhe devolvendo a lista depois de escolher.
- Que bonito - comentou Maddy, olhando a seu redor - Sabe? No esperava que fosses me trazer a um lugar como este.
- O que esperava?
- No sei.  por isso eu gosto de v-lo. Porque nunca sei o que esperar. Estava me perguntando se voltaria a assistir a algum ensaio.
Reed no queria admitir que houvesse se sentido tentado, mas que tinha dominado o desejo, pois aquele no era seu terreno.
- No acredito que seja necessrio. Eu no tenho nada a contribuir com a obra. Meu objetivo so os resultados econmicos.
- Entendo - respondeu muito sria, e comeou a traar um desenho imaginrio na toalha de linho - Discos Valentine precisa que a obra seja um sucesso para poder amortizar
seu investimento. E um sucesso vende mais lbuns.
- Naturalmente. E estamos convencidos de que a obra se encontra em boas mos.
- Est bem, isso deveria me reconfortar...
O champanhe chegou naquele momento, e Maddy observou em silncio todo o ritual. A amostra da etiqueta, o rpido e hbil desarrolhar da garrafa, a primeira prova...
At que o garom servisse o borbulhante vinho nas duas taas de cabo comprido. Depois de brindar, tomou um pequeno gole, saboreando-o a prazer.
- Maravilhoso. A ltima vez que tomei champanhe foi na festa que organizaram quando deixei O parque do Suzannah, mas o certo  que no era to bom como este.
- Por que o fez?
- O que?
- Deixar a obra.
Antes de responder, bebeu outro sorvo.
- Entreguei tudo o que pude a esse papel, e o esgotei - encolheu os ombros - Tinha chegado  hora de mudar. Eu sou uma pessoa inquieta, Reed.
- Voc no gosta da segurana?
- Acho que vem de meus antepassados, a segurana no se encontra em minha lista de prioridades. Alm disso, nos encontramos dentro de ns. No interior de nosso ser.
Reed conhecia muito bem s pessoas inquietas que se movimentavam pelo mundo. Homens e mulheres que mudavam constantemente de lugar, sem alcanar nunca a satisfao.
- Algum poderia achar que essa inquietao fosse pelo fato de se aborrecer rapidamente com as coisas.
Algo em seu tom de voz a fez ficar na defensiva, mas no teve mais remdio a no ser responder com a sinceridade que a caracterizava.
- Eu nunca me aborreo. Como poderia me aborrecer? H tantas coisas das quais aproveitar...
Sem saber por que, teve o pressentimento de que Reed a estava testando. Ou talvez estivesse testando a si mesmo...
- No posso pensar em nada no que tenha perdido todo interesse. No, minto. Sim, aquela enorme almofada em forma de gato, muito cara; achava que eu a amava, mas
quando a comprei e levei para minha casa descobri que era horrvel. Embora suponha que no se refere a isso, no ?
- No - observou-a enquanto tomava um gole de champanha-. No me referia a isso.
- Eu acredito que , mas um problema de diferentes enfoques - deslizou um dedo pela borda de sua taa - Um homem como voc organiza sua prpria rotina, e logo tem
que viver de acordo com ela todos os dias porque h muita gente que depende de sua responsabilidade. Eu tambm tenho que organizar uma rotina, a um nvel bsico,
mas o resto tem que mudar, flutuar constantemente, para eu no ficar louca. Voc, que sempre trabalhou no mundo dos artistas, deveria compreender isso.
- Claro que compreendo - sorriu enquanto levantava sua taa.
- Voc gosta dos artistas?
- Em alguns aspectos, sim - admitiu Reed, de boa vontade - Em outros me desenquadram e desconcertam, mas isso no quer dizer que no os admire.
- J. Ou seja que, em sua opinio, todos so um pouco loucos.
- Absolutamente - respondeu, com um brilho de diverso nos olhos.
- Eu gosto, Reed - ps uma mo sobre a sua, com gesto fraternal - Mas  uma pena que no tenha mais iluses.
No perguntou o que tinha querido dizer. No estava muito seguro de desejar sab-lo. A conversao cessou quando o garom lhes entregou os menus.
- Ah. Isto sim que  um problema - murmurou Maddy uma vez que voltaram a ficar sozinhos.
- Voc no gosta da comida francesa?
- Est brincando? Eu adoro. Eu adoro a comida italiana, a Armnia, a ndia... Esse  o problema.
- Antes estava disposta a comer uma pizza - a lembrou -. E nem se lembrava das colorias que ia ingerir.
- Oh, apenas por que pretendia comer um pedao e desfrutar do aroma do resto - mordeu o lbio inferior - Bem, tenho duas opes. Posso pedir somente uma salada e
frustrar a mim mesma. Ou posso encarar este momento como uma celebrao e me esquecer da dieta.
- Eu posso recomendar as cotelettes de saumon.
- Srio? - baixou a carta para olh-lo com toda seriedade.
- Absolutamente.
- Reed, sou uma mulher adulta e independente. No que se refere  comida, entretanto, frequentemente tenho um apetite to voraz como o de uma menina de doze anos
em uma confeitaria. Assim vou me colocar em suas mos - fechou a carta e a deixou de lado - Com a condio de que entenda que somente posso comer assim algumas vezes
por ano, se no quero rodar pelo cenrio como uma almndega.
- Entendido - aceitou Reed, e por razes nas que nem sequer ele quis aprofundar, a presenteou com o jantar mais magnfico e suculento de toda a sua vida.
No ficou decepcionado com ela. Maddy comeu lentamente, saboreando tudo, com um prazer sensual que Reed tinha esquecido que podia ser encontrar na comida.
- Simplesmente esplndida - exclamou Maddy em um determinado momento, erguendo sua taa - Felicito-o por sua escolha.
Desejosa de compartilhar seu prazer com ele, aproximou o garfo de sua boca. Reed ficou tenso de repente. Estivera desfrutando do prazer de observ-la, mas de repente
acabava de descobrir que o que realmente desejava era prov-la, lentamente, com o mesmo prazer com que estava saboreando os mltiplos e deliciosos sabores de seu
prato.
Reed abriu a boca. Enquanto saboreava aquele bocado, olhou-a nos olhos. E descobriu neles um brilho de inteligncia, misturado com uma curiosidade intensamente ertica.
- Est muito gostoso.
- Os bailarinos pensam muito na comida. Isso  um verdadeiro problema.
- Uma vez me disse que sempre tinham fome.
Na realidade, Reed no estava falando de comida. Maddy tomou um gole de champanha.
- Comeamos a nos disciplinar desde meninos. Renunciamos com freqncia a sadas, s festas, a ver a televiso, inclusive s aulas. E assim chegamos  idade adulta.
- Muitos sacrifcios.
- Os que sejam necessrios.
- E vale a pena?
- Sim - sorriu, j mais cmoda uma vez passado aquele momento de especial excitao - Inclusive os piores sacrifcios valem  pena.
Reed se recostou em sua cadeira, como se quisesse se distanciar o mximo possvel dela. Maddy percebeu, perguntando-se se teria percebido a tenso que acabava de
reverbar entre os dois.
- O que significa o sucesso para voc?
- Quando tinha dezesseis anos, resumia-se em uma s palavra: Broadway - suspirou - E, de alguma forma, isso continua sendo assim.
- Ento j conseguiu.
No compreendia. Mas tampouco Maddy tinha esperado que o fizesse.
- Sinto-me uma vencedora porque digo a mim mesma que a obra vai ser um grande sucesso. Nunca me permito desanimar.  como usar culos de lentes cor de rosas o tempo
todo. Voc, em troca,  realista. Acho que  disso que gosto em voc. Eu prefiro fingir.
- No pode manter em um trabalho baseado em iluses.
- O que me diz de sua vida pessoal?
- Com isso tampouco.
Interessada, inclinou-se para ele.
- Por que no?
- Porque s se pode sobreviver e fazer que as coisas funcionem se sabe diferenciar o que  real do que no .
- Eu gosto de pensar que posso transformar qualquer coisa na realidade.
- Valentine!
Com o cenho franzido, Reed ergueu o olhar e viu um homem alto e desajeitado, vestido com uma chamativa jaqueta amarela e uma gravata verde, avanando para ele.
- Shelby. Como est?
- Muito bem - o recm-chegado lanou ao Maddy um longo olhar-. Acho que estou interrompendo. No  para utilizar um truque to velho, mas... No nos vimos antes?
-perguntou a Maddy.
- No - respondeu enquanto estendia a mo, com a simpatia que a caracterizava.
- Maddy OHurley, Allen Shelby -apresentou-os Reed.
- Maddy OHurley?  um verdadeiro prazer - exclamou Shelby encantado, lhe estreitando a mo. Vi duas vezes O parque do Suzannah.
O contato de sua mo no lhe produziu boas vibraes, mas tentou sobrepor-se a essa sensao. Detestava julgar com precipitao s pessoas.
- Ouvi que Valentine est mergulhando na Broadway, Reed.
- No momento somente est rondando um pouco - Reed serviu a Maddy o resto do champanhe - Allen est  frente de Discos Galloway.
- Somos cordiais competidores - assegurou Shelby, e Maddy teve a ntida impresso que aquele sujeito no hesitaria em cortar a garganta de Reed a menor oportunidade
- Pensou na possibilidade de editar um lbum solo, Maddy?
- Esta  uma confisso muito pouco apropriada para se fazer diante de um produtor de discos, mas a vai: cantar nunca foi meu forte.
- Se Reed no lhe convencer do contrrio, me procure.
Colocou uma mo em seu ombro enquanto falava com Reed. Maddy voltou a dizer-se que no gostava daquelas mos. No podia evitar.
- Queria poder ficar um momento para conversar com voc - continuou Shelby, ignorando o fato evidente de que no o haviam convidado-, mas um cliente est me esperando
para jantar. Mande um al de minha parte para seu pai, Reed - dirigiu-se depois para Maddy - E pense, por favor, no lbum - depois lhe deu uma piscada, afastou-se
para sua mesa.
Maddy esperou uns segundos e bebeu o resto de seu champanha.
- Por que a maioria dos produtores de discos se vestem como se fossem saladas andantes?
Reed a olhou fixamente e riu.
- Shelby responde a esse patro, certamente. Mas espero que me inclua na minoria.
- Sabe? Suspeito que no gosta dele.
- Bom, somos rivais nos negcios.
- No - Maddy negou com a cabea - Refiro-me no plano pessoal.
Reed se interessou, tinha a reputao de dissimular escrupulosamente suas emoes.
- Por que diz isso?
- Porque o olhava com tanta frieza... - involuntariamente, estremeceu-se - Eu no gostaria que ningum me olhasse dessa maneira. De qualquer modo, e dado que claramente
no gosta de sua presena neste restaurante... Por que no vamos embora?
Quando saram, o sufocante calor j tinha se atenuado. O trfego estava menos intenso. Maddy segurou seu brao, sorridente.
- Poderamos passear um pouco?
Caminharam pela calada. A maior parte das lojas estavam fechadas.
- Sabe? Shelby tem razo. Poderia editar um bom lbum solo.
Maddy encolheu os ombros. Aquilo nunca tinha formado parte de seus sonhos, embora tampouco pudesse descart-lo completamente.
- Possivelmente algum dia... - murmurou e elevou a vista ao cu - Vem-se poucas estrelas. Em noites como esta invejo Abby, em sua casa no campo...
-  difcil sentar-se de noite no balano da varanda e seguir atuando na Broadway, n?
- Exato. Mas sigo tendo a esperana de desfrutar de umas longas e maravilhosas frias. Na casa de Abby, ou em uma cabana nas montanhas, onde possa dormir at tarde
e deixar que o canto dos pssaros me desperte. O problema : o que aconteceria com minhas aulas de dana? - comeou a rir - Ento, o que voc gosta de fazer em seu
tempo livre, Reed?
Fazia dois anos desde sua ultima frias. Uns poucos e raros dias.  Os dois anos que estava  frente de Discos Valentine.
- Temos uma casa em St. Thomas. Ali posso me sentar no terrao e esquecer que existe Manhattan.
- Deve ser maravilhoso. Uma dessas casas grandes, com um jardim cheio de flores. Estou imaginando isso. Mas vai ter um telefone ali, isso  certo. Um homem como
voc nunca pode se isolar do mundo.
- Tudo tem um preo.
- Oh, olhe - Maddy se deteve de repente ante uma vitrines, com o olhar fixo em conjunto de lingerie de seda azul que estava exposta em um manequim - Chantel adoraria.
- Como?
- Chantel adoraria este conjunto. Confortvel e sexy - tirou uma caneta da bolsa para anotar o nome da loja - A enviarei. S faltam uns meses para nosso aniversrio.
- Chantel OHurley - Reed sacudiu a cabea, maravilhado -  estranho, mas nunca tinha me ocorrido lhes relacionar.  sua irm.
- No  to estranho. Fisicamente somos muito diferentes.
A imagem do Chantel era como um smbolo do glamour de Hollywood. Exoticamente sensual. A sensualidade de Maddy, em contrapartida, no era to ostentosa, mas era
tangvel. Perigosamente tangvel.
- Diga-me, sente falta de suas irms?
- Oh, claro que sim. E de papai, e da mame, e de Risque. Durante muito tempo vivemos juntos, trabalhamos juntos... Gritando uns com os outros - ria-. Lembro-me
do dia em que Risque foi embora. A princpio foi uma sensao terrvel, como se tivssemos perdido um brao. Papai nunca superou. Logo Abby se foi, e Chantel, e
eu. Nunca pensei em quanto seria duro para meus pais, porque tinham um ao outro. Suponho que voc tenha uma boa relao com os seus.
Imediatamente a expresso do Reed se tomou fria, fechada.
- S tenho meu pai.
- Sinto muito - por nada do mundo desejava reabrir velhas feridas, mas sua inata curiosidade era muito forte-. Eu nunca perdi um parente prximo, mas posso imaginar
quanto isso pode ser difcil.
- Minha me no morreu - explicou Reed. No aceitava a compaixo de ningum. De fato, a detestava.
Ocorreram milhares de perguntas a Maddy, mas no se atreveu a formular nenhuma.
- Seu pai  um homem maravilhoso. Tem um olhar to clido. Sabe? Sempre gostei disso em meu pai: a maneira com que seus olhos me diziam: confie em mim, e voc
sabia que sempre podia faz-lo, que nunca lhe faltaria. Minha me fugiu com ele. Foi algo to romntico... Conheceram-se quando ela tinha apenas dezessete anos,
embora j levasse vrios anos trabalhando no mundo do espetculo. Meu pai prometeu a lua em uma bandeja de prata. No sei se ela chegou a acreditar, mas de todas
as formas fugiu com ele. Quando ramos pequenas, minhas irms e eu sonhvamos que algum dia apareceria um homem e nos ofereceria a lua...
-  isso o que quer?
- A lua? -riu de novo -  obvio. E as estrelas. E possivelmente tambm um homem.
Deteve-se de repente e se voltou para olh-la, sob a luz do poste. Maddy sentiu que seu corao subia  garganta.
- Uma sonhadora, suponho - Reed se atreveu, por fim, a acariciar os cabelo macios. Tinha ansiado por isto, mas tinha conseguido se conter at naquele instante. Era
como seda derretida entre seus dedos - Como voc.
- Se deixar de sonhar, deixa de viver.
- Eu deixei de sonhar faz muito tempo - acariciou os lbios com os seus. Foi um contato fugaz, como a primeira vez - E continuo vivo.
- Por que deixou de faz-lo?
- Prefiro a realidade.
E naquele instante, quando voltou a beij-la, j no houve vacilao alguma: fez o que h dias queria fazer. Sentia o contato quente de seus lbios contra os seus,
tentando-o. Maddy ergueu uma mo e a deslizou por seu pescoo para aproxim-lo mais de si, aceitando desejosa aquele novo passo que ele se atreveu a dar.
Estavam sozinhos, banhados pela luz do poste. Encerrada no crculo de seus braos, Maddy estremecia de prazer. Seu instinto de sobrevivncia gritava que se retirasse,
mas seu corpo se negava a responder.
Reed sabia. Do primeiro momento em que a viu, tinha-o sabido. Mas, mesmo assim, continuara em frente, em sua direo, em vez de afastar-se.
No era o homem adequado para Maddy, e ela podia ser uma catstrofe para ele. Era impossvel estabelecer entre eles uma relao, mas uma estranha fora os aproximava
cada vez mais, consumindo-os lentamente em um mesmo fogo.
Podia saborear sua sincera rendio. Podia ouvir sua entrega em seus dbeis suspiros, aceitando-o. Com seu corpo estreitamente apertado contra o seu, podia sentir
a intensidade de seu recproco desejo, crescendo incomparvel. Mas no queria isso. E mesmo assim, desejava-a mais do que tinha desejado a nenhuma mulher antes.
Por fim se afastou. Depois, antes que pudesse evitar, envolveu seu rosto entre as mos e a beijou de novo. Queria saciar sua vontade dela, encher-se completamente
com seu ser. Mas quanto mais tomava, quanto mais saboreava, mais ansiava.
Uma mulher como Maddy poderia destruir um homem. Sua vida sempre tinha estado fundamentada sobre uma premissa: a de no permitir jamais que uma mulher adquirisse
suficiente importncia em sua vida para poder lhe magoar. E Maddy no era uma exceo. No podia s-lo.
Quando ele afastou-se novamente, Maddy sentiu que as pernas fraquejavam. Somente podia olh-lo aos olhos, e o que via neles no era paixo, nem desejo. Era fria.
Estava desconcertada.
- Vou levar voc para casa.
-Espera um momento - precisava recuperar o flego, voltar a sentir a firmeza do cho sob seus ps.
Reed a soltou, e Maddy retrocedeu at apoiar-se no poste. A luz incidia diretamente sobre ela, deixando-o em sombras.
- Tenho a impresso de que est aborrecido pelo que acaba de acontecer.
No respondeu. Enquanto o observava, Maddy percebeu que seus olhos podiam chegar a adquirir a dureza da pedra. Aquilo doa, tanto por ele como por ela mesma.
- Dado que eu no estou, no vejo outra alternativa do que me sentir como uma estpida - podia chorar com tanta facilidade quanto podia rir, mas se esforou para
conter as lgrimas. De seus pais tinha herdado, alm de sua emotividade, uma boa quantidade de orgulho - Eu vou sozinha para casa, obrigado.
- J disse que a levo.
Maddy sentiu que recuperava as foras. Talvez fosse um efeito da fria que continuava detectando em sua voz.
- Sou uma mulher adulta, Reed. Adeus.
Afastou-se e parou um txi na esquina. Subiu no veculo sem olhar atrs.
Reed ficou onde estava, contemplando-a at que desapareceu. Disse a si mesmo que tinha feito a ambos um favor. E continuou dizendo-se isso uma e outra vez enquanto
evocava sua imagem, to terna e frgil, ali, sob a luz artificial.
Voltando-se, ps-se a andar. J era tarde quando chegou a sua casa.


Captulo 5

Maddy estava praticando um dos dilogos da obra com Wanda. No havia audincia, embora o teatro no estivesse vazio. Outros bailarinos as observavam, com Macke 
frente, atento a cada um de seus movimentos. Tambm se achavam presentes o diretor de cena, o de iluminao, seus respectivos ajudantes, o compositor e, por ltimo,
o diretor.
- Escuta, querida - comeou Wanda, que representava o papel de Maureen Core, uma danarina de striptease companheira de Maddy - Esse sujeito  como um sonho para
voc. Vai met-las em problemas.
- Ele  a resposta - replicou Maddy, aproximando-se de um balco imaginrio situado do lado do cenrio. Sorrindo, serve-se uma tambm imaginria bebida -  o bilhete
para o cu que esperei por toda minha vida.
- J pode se preparar, porque quando se inteirar de sua profisso, vai abandon-la antes que...
- No saber. No saber nunca. J lhe disse isso, Maureen. Tenho uma oportunidade. Pela primeira vez em minha vida, tenho uma oportunidade.
- Maddy - interrompeu-a de repente o diretor, mais conhecido por seu talento que por sua pacincia - Est dando somente cinquenta por cento de sua capacidade. E
eu preciso de mais que cem.
- Ter - esfregou os tensos msculos do pescoo - D-me um minuto antes, por favor?
- Darei cinco.
Maddy saiu do cenrio e caiu em uma caixa que estava de barriga para baixo.
- Problemas? - Wanda se sentou a seu lado.
- Detesto atrapalhar um ensaio.
- Sigo sempre a norma de no me meter nos assuntos de outros, mas...
- Sempre h um mas.
- H uma semana trabalha pela metade, tensa, distrada tambm. Precisa desabafar um pouco.
No podia neg-lo. Nem sequer tentou.
- Por que os homens so to estpidos?
Wanda refletiu por um instante.
- Pela mesma razo pela que o cu  azul, querida. Deus os fez assim.
Em qualquer outra ocasio, Maddy teria rido. Mas naquele momento se limitou a assentir com a cabea, sombria.
- Suponho que  mais inteligente no tentar entende-los.
- Isso  muito mais inteligente - concordou Wanda - No muito divertido, mas muitssimo mais inteligente. Seu homem est dando problemas?
- No  meu homem - suspirou Maddy, franzindo o cenho - Mas sim est dando problemas. O que  o que faz voc quando um homem a beija com paixo desenfreada, para
depois a ignorar olimpicamente?
- Bom, pode se esquecer dele. Ou pode lhe dar outra oportunidade para que continue beijando com essa paixo... E terminar predendo-o.
- Eu no quero me prender a ningum.
- Mas voc esta presa - replicou Wanda - Enganchada e pendurada dele.
- Eu sei - a depresso era algo completamente estranho para Maddy. Tentou det-la, mas fracassou - O problema  que acho que ele tambm sabe, e que no quer tomar
parte disso.
- Ento eu acho que devia pensar primeiro no que voc quer. Quer esse sujeito?
- Talvez.
- Olhe, s por esta vez, faa como Mary, a sua personagem. V atrs do que acha que  bom para voc.
Maddy pensou que aquilo parecia muito fcil de dizer. Mas faz-lo era algo completamente diferente.
- Sabe qual  o problema dos bailarinos, Wanda?
- Poderia citar pelo menos uns cem, mas me diga voc.
- Nunca temos tempo para aprender a ser simplesmente uma pessoa. Quando nossas amigas comeavam a sair  noite com seus namorados, ns tnhamos que nos deitar para
nos levantar cedo na manh seguinte para treinar. Sinceramente eu no sei o que fazer com ele.
- Libere a corda.
- Liberar a corda?
- Exato. Libere a corda e ele terminara se enrolando nela sozinho.
Rindo, Maddy acariciou o queixo.
- Acha que ele no vai resistir?
- Nunca saber se no tentar.
- Tem razo - levantou-se da caixa, assentindo com a cabea - Absolutamente toda a razo. Vamos. Acredito que j estou preparada para dar esse cem por cem de mim
mesma, e algo mais, que me pede o diretor.
Voltaram a ensaiar o dilogo, mas dessa vez Maddy se forou muito mais. E na cano se empregou a fundo, entregando-se por completo.
No desceu do cenrio quando entraram em ao os bailarinos do coro, e continuou danando com eles. Sem cessar, incansvel. At a ltima nota da cano.
Algum lhe jogou uma toalha.
Repetiram a cena vrias vezes, realizando algumas mudanas. O diretor de iluminao e o de cena se reuniram para comentar algo; aparentemente satisfeitos, passaram
para outra cena. Maddy descanso rapidamente e aproveitou para beber um suco antes de voltar para trabalho.
Quando deixou o teatro, o sol j estava se pondo. Um grupo de bailarinos se dirigia a um restaurante do bairro. Maddy teria se reunido de boa vontade a eles, mas
essa noite tinha duas opes, ou ao menos isso era o que achava. Podia voltar para casa e relaxar com um bom banho quente, ou ir procurar Reed.
A primeira opo era a mais sensata. Os ensaios daquele dia a tinham deixado absolutamente esgotada. Em qualquer caso, uma mulher que andava detrs de um homem indiferente
demonstrava uma notvel carncia de senso comum.
A maioria das pessoas que conhecia, pessoas com seus prprios interesses e metas na vida, teria procurado um companheiro muito menos complicado. Mas Maddy no. Entrou
em uma cabine telefnica que tinha lista telefnica e comeou a procurar o nome de Reed. Pensou que provavelmente moraria no distrito residencial da cidade, longe
de ali, assim teria que deixar sua impulsiva visita para outro momento, quando no estivesse to cansada. De repente encontrou seu endereo. Sim, vivia onde tinha
imaginado. Central Park West, a uns cinqenta quarteires de distncia.
Central Park West era um lugar to diferente de seu bairro... Reed e ela no tinham nada em comum, e era uma loucura insistir no contrrio. Comeou a caminhar, dizendo
a si mesma que deveria ir para sua casa para tomar um bom banho e se meter na cama com um livro. Lembrou-se que, de todas as formas, no queria colocar a um homem
em sua vida. Os homens tinham expectativas, complicavam tudo. E ela tinha a cabea muito ocupada no musical para pensar em uma relao.
Desceu do metro, misturando-se com a multido.
Quinze minutos depois voltava a sair muito perto do grande edifcio onde Reed vivia, dizendo-se que teria sido melhor telefonar antes. Poderia no estar ali. Ou,
pior ainda, poderia estar acompanhado.
Era um bairro muito luxuoso, onde ela se sentia absolutamente fora de lugar. Olhou os jeans e as velhas sapatilhas que usava. Ao menos devia ter ido para casa se
trocar primeiro.
Inspirando profundamente, empurrou as portas de vidro e entrou no elegante vestbulo. Forando um radiante sorriso, jogou para trs o exuberante cabelo e se dirigiu
ao empregado uniformizado que se encontrava atrs do balco.
- Ol, Reed est? Reed Valentine?
- Sinto muito, senhorita. Ainda no chegou.
- Oh - procurou dissimular sua decepo - Que pena.
- Quer que lhe transmita algum recado, senhorita...? - quando a olhou atentamente, abriu muito os olhos, assombrado - Voc  Maddy OHurley!
Maddy no estava menos surpreendida. Raramente a reconhecessem fora do teatro.
- Sim - automaticamente estendeu a mo - Como voc est?
- Oh, que alegria! - o homem, eufrico, a estreitou entre as suas. No era muito mais alto que Maddy e duas vezes mais largo - Quando minha esposa quis celebrar
nosso aniversrio de casamento, os meninos conseguiram duas entradas para O parque do Suzannah. Que tarde mais estupenda passamos.
- Fico contente - Maddy olhou o nome que aparecia escrito em seu crach - Deve voc de ter filhos maravilhosos, Johnny.
- Sim, no so ruins. Os seis - sorriu - Senhorita OHurley, no pode fazer idia de quanto gostamos de sua obra. Foi algo emocionante.
- Muito obrigado. Sabe? Atualmente estou trabalhando em outro musical que estrear dentro de um ms e meio.
- No me diga! Minha mulher e eu no perderemos isso, prometo.
Maddy pegou uma caneta do balco e escreveu em um papel o nome do teatro e o do ajudante do diretor de cena.
- Telefone para este nmero, pergunte pelo Fred e lhe d meu nome. Tentarei conseguir duas entradas para a noite da estria para voc e sua esposa.
- A noite da estria... - repetiu o homem com uma expresso de assombrado prazer que a comoveu profundamente-. Minha mulher no vai acreditar. No sei como agradecer,
senhorita OHurley.
- Me aplaudindo quando chegar o momento - respondeu-lhe, sorridente.
- Pode contar com isso. Bom... Oh, boa noite, senhor Valentine.
Maddy se separou do balco como uma mola, sentindo-se culpada por alguma estranha razo que no conseguia adivinhar.
- Ol, Reed.
- Maddy - tinha chegado a algum momento durante aquele breve dilogo, sem que nenhum dos dois se desse conta.
Como ficou olhando-a sem dizer nada, Maddy limpou a garganta e decidiu explicar-se.
- Estava passando por aqui e resolvi d um Ol. Ol.
Reed acabava de chegar de uma longa e difcil reunio no qual no conseguira se concentrar por culpa dela. No estava muito feliz em v-la. Mas ansiava toc-la.
Tomando-a pelo brao, despediu-se de Jimmy com um movimento de cabea e a levou em direo aos elevadores.
- Sempre  to simptica com os desconhecidos? -perguntou enquanto entravam em um deles.
- Oh - encolheu os ombros - Suponho que sim. Parece um pouco cansado - e maravilhoso, acrescentou em silncio. Simplesmente maravilhoso.
- Foi um longo dia.
- Para mim tambm. Hoje tivemos nosso primeiro ensaio completo. Foi horrvel - riu, afundando nervosa as mos nos bolsos da cala - Embora ache que no deveria contar
todas essas coisas ao homem que financia o musical...
Com um murmrio ininteligvel, conduziu-a pelo corredor. Maddy decidiu ento que o silncio era a melhor ttica. Reed abriu a porta e a fez entrar.
Estava esperando um apartamento imenso, elegante, decorado com delicioso gosto. Mas era tudo isso e muito mais. As paredes, de cores frias, estavam decoradas com
vistosas pinturas impressionistas, e atravs de trs altas janelas podia contemplar uma espetacular vista do parque e da cidade. O tapete fazia um esplndido contraste
com o amplo sof de cor coral. Dois grandes ficus se elevavam em um canto, perto de dois pequenos armrios que albergavam as cermicas da poca Ming que Maddy tinha
adivinhado que teria. Uma escada de caracol, em ferro forjado, levava ao andar superior.
-  lindo, Reed - aproximou-se das janelas para admirar a vista. Pensou que naquela casa estava to distante, to afastado da cidade na qual realmente vivia, dos
sons, dos aromas, da humanidade da que fazia parte... - Alguma vez, enquanto contemplava a cidade daqui, deteve-se para pensar em tudo o que acontece?
- O que est acontecendo onde?
- L abaixo,  obvio - voltou-se para ele, convidando-o tacitamente para que a acompanhasse. Quando o fez, continuou admirando a vista - Veja as pessoas que neste
momento esto discutindo, rindo, ou fazendo o amor. Outras esto passeando a noite no parque, e garotos estaro nascendo... Este  um lugar verdadeiramente incrvel,
no ?
- No so todas as pessoas do mundo que tm a mesma forma de olhar que voc.
- Sabe? Eu sempre quis viver em Nova Iorque.  estranho como as trs, refiro a minhas irms e eu, acabamos seguir o caminho que nos ditava o instinto. As trs escolhemos
lugares completamente distintos para viver. Abby em sua rural Virginia, Chantel em seu reino da fantasia, e eu aqui.
Reed, comovido, teve que se conter para no lhe acariciar o cabelo. Sempre aparecia em seus olhos aquela expresso de nostalgia quando falava de suas irms... Ele,
todavia, nunca tinha tido uma verdadeira famlia. Somente seu pai.
- Gostaria de uma bebida?
No passou despercebida a distncia, a frieza de seu tom. Esforou-se por no sentir-se magoada.
- Eu gostaria de tomar uma gua mineral, obrigado.
Quando Reed se dirigiu ao luxuoso mvel de bano, ela se afastou das janelas. No podia continuar ali, pensando em toda aquela gente, quando se sentia to longe
do homem quer viera ver.
Foi ento que viu a planta. Sua planta. Estava sobre um tamborete, onde podia receber a luz indireta da janela. A terra, quando a tocou com o polegar, estava mida,
mas no empapada. Sorriu. Sim, lhe importava, embora Reed fingisse o contrrio.
- Parece que j est melhor - comentou Maddy enquanto pegava a taa que ele oferecia.
- Voc acredita?
- Sim, claro. Agradeo muito.
- Estava-a afogando. Por que no se senta, Maddy? Assim poder me contar para que veio.
- S queria v-lo - pela primeira vez, desejou ter o mesmo encanto que Chantel tinha com os homens - Olhe, sou pssima em relao a esse tipo de coisa - incapaz
de permanecer sentada, levantou para caminhar de um lado para o outro do apartamento-. J sei que no  muito elegante, nem muito discreto, mas simplesmente queria
v-lo - sentou em um brao do sof-. Assim vim.
Reed se surpreendeu que seu comportamento pudesse diverti-lo tanto, quando sentia aquele n de desejo nas vsceras.
-Entendo - sentou-se tambm, mas a uma distancia prudente dela - Veio para me fazer uma proposta indecorosa?
Um brilho de fria relampejou nos olhos dela, para desaparecer quase imediatamente.
- Bah, vejo que os bailarinos no so os nicos possuem um ego descomunal. Suponho que as mulheres s que est acostumado precisam apenas ouvir o estalar de seus
dedos para que se deitarem com voc.
- As mulheres s que estou acostumado no se parecem em nada com voc, Maddy. O problema  que no sei o que fazer com voc.
- Fazer comigo? - levantou-se como uma mola, irada - No tem que fazer nada comigo. Alm disso, que diabos estou fazendo aqui? Foi uma estupidez. Maldita seja, passei
essa semana toda me deprimindo. E no estou acostumada a isso - virou-se para ele, com expresso acusadora - Meu trabalho anda pssimo por que eu s fico pensando
em voc.
- Srio? -Reed levantou-se, embora tivesse se prometido que no o faria. Sem poder evitar, aproximou-se dela e acariciou sua face com o polegar.
- Sim - de repente, o desejo parecia estar impondo-se  fria. Agarrou-lhe o pulso antes que pudesse retirar a mo - E queria que pensasse em mim tambm.
- Provavelmente eu tambm estive pensando em voc - respondeu, ansiando estreit-la entre seus braos - Provavelmente me surpreendi muitas vezes olhando por essa
janela... E me perguntando pelo que estaria fazendo.
Maddy ficou nas pontas dos ps para beij-lo nos lbios. Uma tormenta o estava aoitando por dentro; podia sentir. Ela tambm albergava sua prpria tormenta em seu
interior, mas sabia que a sua se devia a diferentes raciocnios e teria diferentes resultados. Era to necessrio compreender quando se sentia to bem assim, estando
simplesmente com ele? A ela, certamente, bastava. Mas certamente no a Reed.
- Reed...
- No - atraiu-a para si - No fale agora.
Necessitava tudo o que ela pudesse lhe dar, com sua boca, com suas mos, com o movimento de seu corpo contra o seu. Sua casa nunca lhe tinha parecido vazia at que
Maddy entrou em sua vida. Agora que j estava ali, com ele, j no queria pensar em voltar a ficar sozinho.
Sua boca era suave como o veludo, clida, excitante.
Um beijo sempre tinha sido para o Maddy algo singelo, que no uma estranha complicao. Um meio de demonstrar afeto a algum. Entretanto, com Reed, aquela simplicidade
no existia. Aquilo era complexo, enlouquecedor, um contato que a abrasava por dentro. A paixo no era nova para ela: tinha-a experimentado de maneira cotidiana
em seu trabalho. Tinha suspeitado que fosse distinta quando implicava um homem e uma mulher, mas jamais tinha podido imaginar que poderia transformar seus msculos
em gelatina e nublar seu crebro daquela forma.
Reed acariciou seu cabelo com deliciosa ternura. Maddy ansiava sentir aquelas mos por todo seu corpo, aquele corpo excitado que o reclamava a gritos. Desejava-a;
estava segura disso. E, entretanto no fazia nada mais que estreit-la com fora contra seu peito...
Faa amor comigo, gritava-lhe sua mente, mas Reed voltou a beij-la antes que ela pudesse chegar a pronunciar essas palavras. Podia imaginar-se na cama,  luz
das velas, com os corpos entrelaados...
- Reed, voc me deseja?
Enquanto deslizava os lbios por seu rosto, Maddy pde sentir sua repentina tenso.
- Sim.
Foi  maneira em que o disse o que lhe esfriou o sangue. Em seu tom tinha detectado relutncia, inclusive desgosto. Maddy se afastou lentamente.
- Tem algum problema com isso?
Por que tudo no podia ser simples com ela como era com as outras mulheres? Perguntou-se Reed. Uma diverso recproca, que ao final ningum saa prejudicado. Mas,
desde do primeiro momento em que a tocou, soube que nada seria simples com o Maddy.
- Sim - pegou de novo sua taa de brandy - Tenho um problema com isso.
Maddy chegou  concluso de que estava indo muito rpido. Tinha a mania de acelerar ao mximo sem fixar-se nos obstculos da estrada.
- Quer compartilh-lo comigo?
- Desejo-a. Quis me deitar com voc desde a primeira vez que a vi, ajoelhada na calada, recolhendo o que te tinha cado de sua bolsa.
Maddy deu um passo para ele. Sabia que isso era precisamente o que tanto tinha ansiado escutar, ento porque se sentia to amedrontada?
- Ento, por que se portou daquele jeito aquela noite?
- Isto no ser bom para voc, Maddy.
- Espera um momento, quero ter certeza do que est falando... No quis continuar para meu prprio bem?
Reed se serviu de mais brandy. O qual no o ajudou absolutamente.
- Sim,  isto.
- Reed, podemos obrigar uma criana a se agasalhar no inverno para seu prprio bem. Mas quando passa para uma determinada idade, j  uma pessoa adulta e independente.
- No me parece o tipo de mulher interessada somente em uma aventura fugaz.
- Certamente que no - o sorriso que tinha esboado gelou nos lbios.
- Ento lhe fiz um favor - tomou outro gole de brandy, porque estava comeando a sentir asco de si mesmo.
- Acho que deveria agradecer - Maddy pegou sua bolsa de bal, mas imediatamente voltou a solt-la. No era prprio de uma OHurley ceder com tanta facilidade - Quero
saber por que est to seguro que o nosso no teria sido mais que uma fugaz aventura.
- Eu no estou interessado em uma relao a longo prazo.
Maddy assentiu. Aquilo lhe parecia razovel.
- Mas h uma grande diferencia entre uma aventura de uma s noite e uma relao a longo prazo. Tenho a impresso de que teme que queira fech-lo em uma jaula.
- Maddy, por que no aceitamos o fato evidente de que voc e eu no temos nada em comum?
- J pensei nisso. At certo ponto  certo, mas quando reflete verdadeiramente sobre isso, vai ver que temos muitssimas coisas em comum. Ambos vivemos em Nova Iorque.
-  obvio. Mas isso no  grande coisa.
-  um comeo - animou-se sobremaneira ao detectar um brilho de diverso em seus olhos. No momento, isso bastava - E ambos, neste momento, temos um grande interesse
por certo musical - sorriu, com seu irresistvel encanto - Outra coisa que temos em comum: eu ponho meias trs-quartos antes de calar os sapatos, e imagino que
voc tambm.
- Maddy...
- Toma banho de p?
- No vejo que...
- Sem evasivas. Toma banho de p ou no?
Aquilo era intil. No conseguiu fazer nada mais que sorrir.
- Sim.
- Assombroso. Eu tambm. J leu O vento levou?
- Sim.
- Ah. Interesses comuns na literatura.
- Que sentido tem isto, Maddy?
- O sentido que tem  que eu gosto de voc, Reed -colocou as mos sobre seus braos, ansiando poder aliviar sua tenso e atrasar o momento que aquele sorriso desaparecesse
de seus olhos - Acredito que se relaxar um pouco, poderamos chegar a ser amigos. Sinto-me atrada por voc. E acredito que, com o tempo, tambm poderamos chegar
a ser amantes.
Aquilo era um engano,  obvio. Reed sabia, mas ela tinha aquela expresso to intensa, to sincera e espontnea.
- ... - murmurou enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo -... nica.
- Espero que sim - com um sorriso, ficou nas pontas dos ps e o beijou - Trato feito?
- Pode se arrepender deste trato.
- Isso ser problema meu. Amigos? -tendeu-lhe a mo solenemente, mas com um brilho de desafio, malicioso, no olhar.
- Amigos - aceitou por fim Reed, esperando que fosse ele, e no ela, quem tivesse que se arrepender ao final.
- timo. Olha, estou morrendo de fome. Tem ao menos um sobra de ensopado em casa, ou algo parecido?


Captulo 6

Aparentemente, tudo era to simples como Maddy havia dito que seria.
Foram ao cinema juntos. Sempre que permitiam seus respectivos horrios de trabalho, comeram ao ar livre no West Park. Passaram uma tranqila tarde de domingo visitando
um museu. Se Reed no se conhecesse, teria pensado que estava a ponto de se apaixonar. Mas no acreditava no amor.
Para seu pai, o amor tinha se convertido em uma traio, uma traio com a qual Reed convivia cotidianamente. E se Edwin tinha superado, ele no. No podia. A fidelidade,
para a maioria das pessoas com as quais trabalhava, era algo to flexvel como relativo. As pessoas tinham aventuras, e as tinha antes, durante e depois de seu matrimnio,
assim o matrimnio era um conceito muito discutvel. Nada durava, e especialmente as relaes entre homens e mulheres.
Mas Reed pensava em Maddy quando estava com ela e tambm quando no estava. Amigos. De alguma forma se transformaram em amigos, apesar de suas diferenas de critrio
e ambiente. E uma vez que j eram amigos... O que mais podiam ser?
Amantes. Parecia inevitvel que terminassem se transformando em amantes. A paixo que flutuava sob a superfcie a cada instante que estavam juntos terminaria por
explodir. Ambos sabiam e cada um, a sua maneira, aceitava. O que o preocupava Reed era que, uma vez que se deitassem, como tanto ansiavam, pudessem perder a cmoda
relao amistosa que tinham conseguido alcanar.
O sexo mudaria tudo. Era inevitvel. A intimidade fsica destroaria a intimidade emocional que ambos tinham comeado a desenvolver. Por mais que precisasse ao Maddy
na cama, perguntou-se se poderia permitir-se arriscar a Maddy que conhecia fora dessa cama. Era como um cabo de guerra que sabia que jamais poderia ganhar.
Mas no se resignava. Com um clculo suficientemente racional, deveria ser capaz de encontrar uma soluo para ambas as coisas, satisfazer ambos os desejos.
No momento, entretanto, no encontrava a resposta. Em seu lugar, assaltou sua mente a imagem de Maddy tal e como a tinha visto umas poucas tardes antes, rindo e
dando comida s pombas do West Park.
Quando soou o timbre do intercomunicador em seu escritrio, deu-se conta de que tinha passado outros dez minutos sonhando acordado.
- Sim, Hannah.
- Seu pai na linha um, senhor Valentine.
- Obrigado - Reed apertou o boto e fez a conexo - Papai?
- Reed, corre o rumor de que Shelby realizou uma grande operao de absoro... Sabe algo disso?
Reed j tinha em suas mos um relatrio preliminar sobre essa operao, que tinha integrado a vrias promotoras independentes no selo Galloway.
- Bah, parece que lhe informam muito bem no campo de golfe. Est certo. As principais emissoras receberam certas presses para acrescentar alguns ttulos mais a
sua lista de sucessos. Nada novo sob o sol.
- Shelby  um diabo muito ardiloso. Bom, j me contar mais coisas. Na verdade eu estava pensando em passar pelo ensaio da obra hoje. Quer me acompanhar?
- Quando? -perguntou Reed, consultando sua agenda.
- Dentro de uma hora. Eu gosto de surpresas.
Reed viu que tinha duas entrevistas para essa manh e se disps a rechaar o convite, mas por final cedeu a um impulso e decidiu adi-las.
- O verei no teatro as onze.
- Depois poderemos comer juntos. Convite de seu velho.
Reed se deu conta de que seu pai se sentia sozinho. Edwin Valentine tinha seu clube, seus amigos e dinheiro o suficiente para pagar um cruzeiro e passar o resto
de sua vida dando a voltas ao redor do mundo, mas se sentia sozinho.

Edwin entrou no teatro sigilosamente, como um menino sem bilhete entrando sorrateiramente.
- Sentaremos atrs e veremos se vale a pena pagar o que estamos pagando.
Reed seguiu seu pai, mas seu olhar estava fixo no cenrio, onde Maddy se deixava abraar por um dos atores. Sentiu uma pontada de cimes to surpreendentemente violenta
que se deteve em seco, no meio do corredor.
Naquele instante Maddy erguia o olhar para aquele homem, com expresso radiante, rodeando seu pescoo com os braos.
- Foi maravilhoso, Jonathan. Poderamos continuar danando para sempre.
- Falas como se tudo tivesse terminado. Ainda temos vrias horas - o ator lhe deu um beijo na face - Venha para minha casa.
- Sua casa? -inclusive  distncia que se encontrava, Reed pde perceber o tremor de alarme que percorreu o corpo de Maddy-. OH, Jonathan, claro que eu gostaria,
mas... -afastou-se, somente um pouco, mas reteve suas mos-. No posso. Tenho que... Tenho que entrar cedo no trabalho. Sim, isso. E tambm tem a minha me - deu-lhe
as costas, fazendo rodar os olhos para que a audincia pudesse se dar conta da falsidade de sua resposta-. J sabe que no se encontra bem, e tenho que estar ali
se por acaso precisar de algo.
-  uma pessoa maravilhosa, Mary.
- Oh, no - exclamou com uma mescla de culpa e desconcerto - No, Jonathan. No sou no.
- No diga isso - atraiu-a novamente a seus braos - Porque acredito que estou me apaixonando por voc.
Voltou a beij-la. E mesmo sabendo que era somente uma atuao, Reed sentiu outra forte pontada de cimes.
- Tenho que ir - protestou, apressada-. Tenho que ir mesmo.
- Quando voltarei a v-la?
Maddy se deteve, como batalhando consigo mesma.
- Amanh. Esteja na biblioteca s seis. Nos veremos ali.
- Mary... -quis aproximar-se, mas ela ergueu as mos.
- Amanh - pronunciou, e saiu correndo do cenrio.
- Muito bem - trovejou a voz do diretor - A partir deste momento disporemos de quinze segundos para trocar de roupa. Wanda, Rose, a cena. Luzes. Adiante, Maddy.
Maddy voltou a entrar em cena, onde j se encontrava Wanda recostada em uma cadeira e Rose ajeitando o cabelo de frente a um espelho.
- Chegou tarde - observou Wanda, indolente.
- Parece um relgio - a voz do Maddy endureceu, e seus movimentos eram mais enrgicos.
- Jackie a estava procurando.
- O que lhe disse? - perguntou Maddy, detendo-se quando se dispunha a ajeitar sobre sua cabea uma peruca de cor vermelha fogo.
- Que no estava procurando-a no lugar certo. Calma, Mary. No a tra.
- O que esperava? -interveio Rose sem deixar de olhar-se no espelho, portando com um atrevido vestido cor de rosa e laranja.
- Obrigado - Maddy desabotoou a saia e, sentando-se ao lado de Rose, comeou a maquiar o rosto.
- No di agradecer - replicou Wanda - Sabe de uma coisa? Acredito que est louca.
- Sei perfeitamente o que estou fazendo - escondendo-se detrs de um biombo, tirou a blusa. - Posso cuidar disso sozinha.
- Pois ento se assegure de cuidar de Jackie tambm. Imagina se ele souber do lindo rapaz com quem est saindo?
- No vai saber de nada - saiu de trs do biombo vestida com um sedutor vestido de seda com lentejoulas - J estou preparada.
- O pblico est muito quente esta noite.
- Bom - sorriu para Wanda -  assim que gosto - e voltou a sair do cenrio.
- Agora os focos da esquerda - gritou o diretor - A entrada para o Terry.
Um bailarino, que Reed reconheceu do outro ensaio que tinha assistido, apareceu em cena. Usava o cabelo penteado para trs, engomado, e luzia um fino bigode. Ao
ver Maddy a agarrou por um brao.
- Onde diabos esteve?
- Por a - respondeu, sacudindo sua cabeleira vermelha, com uma mo apoiada no quadril - O que aconteceu?
Naquele instante, Edwin se aproximou de seu filho para lhe sussurrar no ouvido:
- Parece-se em nada com a jovenzinha que entrou no outro dia em seu escritrio com uma planta meio morta nas mos.
- Certamente - murmurou Reed.
- Essa garota chegar longe, Reed. Muito, muito longe.
Reed experimentou duas reaes de uma vez, uma de orgulho e outra de alarme. No pde explicar-se nenhuma das duas.
- Eu tambm acredito.
- Olhe, encanto - Maddy deu a seu par uns tapinhas na face - Quer que eu me dispa j ou que fique aqui a enquanto ler seu jornal?
- Dispa-se - ordenou-lhe Jackie.
- Sim.  o que melhor sei fazer.
- Luzes - gritou o diretor de cena - Msica.
Maddy agarrou uma boa slung de plumas vermelhas e avanou, rebolando, para o centro do cenrio. Quando comeou a cantar, o fez com uma voz to sedutora e excitante
como seus movimentos. Em um determinado instante lanou a boa slung ao pblico.
- Nunca antes o tinha levado a um espetculo de striptease, no, Reed?
Reed no conseguiu evitar o sorriso, enquanto Maddy despia suas luvas, que chegavam at o meio brao.
- No, nunca.
Quando tirou a saia do vestido, alguns dos tcnicos comearam a assobiar. Maddy esboou um leve sorriso e continuou atuando. Segundos depois sentava-se na beira
do palco arqueando o corpo para trs, apenas coberta com contas e lantejoulas. Para sua surpresa e prazer, um aplauso se elevou ao final do auditrio. Esgotada,
apoiou-se sobre um cotovelo, sorrindo.
No demorou para correr a voz, de ajudante a ajudante at chegar ao diretor: os patrocinadores estavam no teatro. Dom se aproximou para saud-los.
- Oh, senhor Valentine. Reed - estreitou-lhes a mo - Que surpresa.
- Essa era nossa inteno - comentou Reed, mas seu olhar retornou ao cenrio. Maddy continuava sentada, j envolta em uma toalha - Impressionante.
- Ainda temos que ensaiar muito, mas acredito que a estria na Filadlfia ser um completo sucesso.
- No tenho nenhuma dvida - Edwin lhe deu um tapinha no ombro.
- Se querem ficar mais tempo, agora vamos ensaiar a primeira cena do segundo ato. Por favor, sentem-se na primeira fila.
- O que diz, Reed?
Se aceitava, teria que trabalhar durante duas horas a mais para recuperar o tempo perdido. Mas no perderia aquele ensaio por nada do mundo.
- Vamos l.
A seguinte cena era eminentemente cmica. Reed no entendia muito de comdias, mas pde ver que Maddy se sentia to  vontade naquele terreno quanto um peixe na
gua. Sem lugar a dvidas, ganharia completamente  audincia.
Havia algo mgico nela, algo convincente e comovedor mesmo em seu papel como a cnica e endurecida danarina de striptease. Reed a viu representar com perfeio
os dois papis, contribuindo com a inocncia necessria para persuadir o honesto Jonathan de que sua Mary era uma diligente bibliotecria que se desvelava para atender
sua me doente. Ele mesmo teria acreditado naquela farsa, se a tivesse representado na realidade. E aquela era uma habilidade que no podia menos que preocup-lo.
-  uma atriz fantstica - comentou Edwin a seu filho, aproveitando que o diretor estava falando com seus ajudantes.
- Sim .
- Eu sei que no  meu assunto, mas... O que  que h entre vocs?
Reed se voltou para olh-lo, inexpressivo.
- O que o faz pensar que h algo?
- Meu infalvel olfato.
- Somos... Amigos - declarou Reed.
- Sabe? Uma das coisas que sempre quis para voc era que encontrasse a uma mulher como Maddy OHurley - suspirou - Uma mulher boa e bonita que pudesse faz-lo feliz.
- J sou feliz.
- Continua amargurado.
- Contigo no - replicou imediatamente Reed.
- Sua me...
- Deixe isso, por favor. Isto no tem nada que ver com ela.
Tem todo a ver, pensou Edwin enquanto Maddy voltava a sair do cenrio. Mas conhecia bem seu filho, e guardou silncio.
Edwin no podia fazer o tempo retroceder e apagar a traio de sua vida. E mesmo que pudesse faz-lo, no o teria feito. Pois se assim fosse no teria Reed ali a
seu lado. Como podia ensinar ao seu filho que tudo era questo de aceitar, e no de perdoar? Como poderia ensin-lo a confiar nas pessoas quando ele tinha nascido
de uma mentira? Olhou para Maddy. Possivelmente fosse ela a mulher que Reed sempre precisara, a resposta que sempre procurara sem saber. Possivelmente, com Maddy,
Edwin poderia curar de vez aquelas feridas.

Enquanto cantava e praticava os movimentos, parte da ateno de Maddy estava centrada em Reed. Estava-a observando com tanta intensidade... Era como se estivesse
tentando discernir sua verdadeira personalidade atravs de seu papel. Acaso no entendia que seu trabalho precisamente consistia em esquecer-se de si mesmo?Em deixar
de ser Maddy para converter-se em Mary?
Acreditou perceber desaprovao, inclusive desgosto em seu olhar. Ansiava desesperadamente correr para ele para reconfort-lo de alguma forma. Mas Reed no queria
nada dela. Ao menos ainda no. No momento queria que tudo entre eles fosse natural, leve, quase superficial. Nada de laos, nem de promessas, nem de expectativas
para o futuro.
Confundiu-se com uma frase do roteiro, e amaldioou entre dentes. Tiveram que comear desde o comeo.
No podia confessar a Reed o que sentia. Para uma mulher de uma natureza to sincera como a sua, inclusive o silncio representava uma farsa, um engano. Mas no
podia lhe dizer nada. Ele no queria escutar de seus lbios que o amava, que tinha comeado a am-lo do momento em que a abordou aquela primeira vez na calada.
Ficaria furioso, porque no queria deixar-se arrastar, nem apanhar pelos sentimentos. Jamais compreenderia que ela vivia simplesmente para isso: para os sentimentos,
para a emotividade.
Se dissesse, provavelmente Reed pensaria que tinha por costume entregar seu amor com muita facilidade s pessoas. E era certo, mas no aquele tipo de amor. O que
sentia por ele era mais complexo que qualquer outro, e ela sempre acreditara que o amor era um sentimento simples. Doa, quando Maddy sempre o tinha associado com
a alegria e prazer. A paixo sempre estava abaixo, reverberando. Enchia-a de inquietao, de uma expectativa nervosa, quando ela sempre se conformou vivendo no presente.
Tinha-o convidado para entrar em sua vida. Isso era algo que no podia esquecer. Pior ainda, o convencera a entrar em sua vida quando ele j estava resolvido sair
dela. Amava-o. Mas no podia confessar.
- Hora de comer. Todos de volta as duas, para praticar as duas cenas finais - gritou de repente o diretor.
- Ento aquele  nosso anjo da guarda... - murmurou Wanda ao ouvido do Maddy - Aquele da primeira fila.
- O que  que tem ele? - Maddy se inclinou para frente, estirando e relaxando os msculos.
-  ele, certo? O homem que ps esse brilho sonhador em seus olhos.
- Eu no tenho nenhum brilho sonhador - ao menos esperava que no.
- Sei... - com um satisfeito sorriso, Wanda se afastou.
Resmungando, Maddy desceu do cenrio. E forou um sorriso quando foi saudar Reed.
- Fico feliz que tenha aparecido - o beijou na face, como tinha por costume saud-lo - Ol, senhor Valentine. Que alegria v-lo por aqui.
- Encantou-me sua atuao - tomou uma mo entre as suas -  um verdadeiro prazer v-la trabalhar. Aquele homem disse que deviam comer, no? Gostaria de nos fazer
companhia?
Como Reed no dizia nada, a primeira reao foi procurar uma desculpa.
- Bom, eu...
- Hey, no vai me decepcionar - interrompeu-a Edwin - Tenho certeza que conhece algum bom restaurante por aqui.
- H um restaurante grego do outro lado da rua.
- Perfeito. O que acha, Reed?
- Eu digo que vamos para l. Bem, acho que Maddy deve se trocar primeiro - e finalmente sorriu.
Maddy baixou o olhar a sua escassa vestimenta: um curto top e calas curtas cor de rosa intenso.
- Em cinco minutos estarei preparada - prometeu, e saiu imediatamente.

Foi fiel a sua palavra. Em cinco minutos j usava um vestido amarelo e cruzava a rua em companhia de Reed e de seu pai. Os aromas do restaurante grego eram maravilhosos.
Carne picante, caf puro. Um enorme ventilador girava sobre suas cabeas. A maior parte dos danarinos j estavam ali.
O dono, um grego alto e forte, saudou-a com um amplo sorriso.
- Uma OHurley especial?
- Certamente.
E lhe serviu uma grande e saborosa salada, com generosas pores de queijo e iogurte.
- Pode comer tudo isso? -perguntou Edwin, atrs dela.
Maddy ria enquanto recebia a terrina de salada.
- Engulo.
- Eu prefiro carne - Edwin pediu um pastrami, acompanhado de uma boa guarnio.
- Vou procurar uma mesa - ofereceu-se Maddy, servindo uma xcara de ch para acompanhar a salada. Dirigiu-se para o fundo do salo, onde no se ouvia tanto a msica.
- Comendo com os chefes, n, Maddy? - comentou Terry, com o cabelo ainda cheio de goma, detendo-se seu lado - Pode interceder por mim? - inquiriu, brincando.
- Verei o que posso fazer.
Ainda estava rindo quando Reed e seu pai se reuniram com ela.
- Assistir  estria da obra, senhor Valentine? - perguntou a Edwin, sentados j os trs em uma mesa.
- Tentarei. J no viajo tanto como antes. Houve uma poca em que passava tanto tempo fora como dentro de meu escritrio. Hotis, reunies, congressos... - encolheu
os ombros - Sempre sentindo falta do meu filho - lanou a Reed um olhar carregado de nostalgia e tambm de tristeza-. E aquelas partidas de beisebol que tanto me
aborrecia em perder. Reed era o melhor lanador da equipe de sua universidade.
-Jogava beisebol? -perguntou Maddy-. Nunca me contou isso - depois de fazer aquele comentrio, deu-se conta de que havia muitos outros detalhes de sua vida dos quais
no havia falado uma s palavra-. Eu nunca entendi o beisebol at que me mudei para Nova Iorque e vi uma partida dos Yankees.
- Reed era magnfico. Mas queria trabalhar no negcio.
- De certa maneira, isso tambm era jogar nas grandes liga, no? - disse Maddy - A maior parte de ns apenas vemos o produto terminado: o lbum ou o disco compacto
que escutamos em nosso estreo. Mas suponho que entre a pura msica e o disco existe um longo e complexo processo.
- Quando tiver alguns dias livres - riu Eddy - lhe mostrarei tudo.
- Eu gostaria muito - tomou um gole de seu ch com mel - Quando gravamos o lbum do parque do Suzannah, eu adorei. O estdio  to distinto do cenrio... To, bom,
to... Restringido. Sinto muito - deu-se conta de que no dito a palavra correta.
-No sinta.
- Um estdio tem certas restries - assinalou Reed - Por outro lado, tambm conta com suas vantagens. Podemos pegar, por exemplo, este homem - assinalou com a cabea
o dono do restaurante, lev-lo a um estudo e convert-lo em um Caruso.
- Mas isso  enganar...
-  marketing - corrigiu-a Reed - E muitos o fazem.
- Valentine tambm?
Reed a olhou diretamente nos olhos.
- No. Valentine se fundou com um olho posto na qualidade, no na quantidade.
Maddy lanou um malicioso olhar para Edwin.
- Mas voc tinha inteno de oferecer um contrato s Trigmeas OHurley, conforme me contou.
- Acaso vocs no tinham uma alta qualidade? - replicou Edwin.
- Estvamos... Um pouco acima da mediocridade.
- Nem pensar. Seu nvel era muito mais alto.
- Obrigado.
- Maddy, de modo que trabalha, no sobra muito tempo para uma sada, no?
- Est me propondo um encontro? - perguntou, divertida.
- Quem me dera vinte anos a menos - exclamou Edwin - Vale seu peso em ouro - deu carinhosos tapinhas na mo de Maddy, mas olhava para seu filho.
- Claro que vale - confirmou Reed.
- Sabem de uma coisa? Estou pensando em organizar uma festa - declarou em um impulso - O que acha, Maddy?
- Acho que  uma grande idia. Estou convidada?
- Com a condio de me reservar uma dana.
- Quantas quiser.
- Com voc, no acredito que possa agentar mais de uma.
Maddy riu. Quando levava a xcara de ch aos lbios, percebeu que Reed a estava observando atentamente de novo, com certa distncia. E percebeu sua desaprovao
- Eu... Tenho que ir. Quero fazer umas coisas antes dos ensaios desta tarde.
- Acompanhe-a ao teatro, Reed. Suas pernas so mais jovens que as minhas.
- Oh, no precisa - Maddy j se levantava - No preciso...
- Sim, acompanho-a - Reed segurou-a pelo cotovelo.
Disse a si mesma que no valia a pena montar uma cena. Em vez disso, despediu-se de Edwin beijando-o em cada lado da face.
- Obrigado pela comida.
Uma vez na porta do restaurante, replicou a Reed:
- Sou perfeitamente capaz de atravessar a rua sozinha. Volte para seu pai.
- Tem algum problema?
- E se eu tiver um problema? -afastou-se bruscamente - Oh, no suporto que se dirija a mim com esse tom to srio e to distante - comeou a cruzar a rua, acelerando
o passo.
- Para que tanta pressa? Ainda dispe de vinte minutos - agarrou-a pelo brao.
- J disse que tinha coisas a fazer.
- Mentia.
No meio da rua, quando o semforo acabava de mudar para amarelo, voltou-se de novo para ele.
- Ento digamos que tenho coisas melhores a fazer do que esperar que me analise com seu microscpio mental. Que diabos acontece com voc? Voc no gosta que eu aproveite
da companhia de seu pai? Acha que vou querer seduzi-lo?
- Espere - agarrou-a quando os carros que antes tinham estado esperando comearam a se mover.
- Vi que quando estava no cenrio voc ficava me observando com esse olhar to frio, to analtico. Como se voc estivesse me olhando e no a atriz que estava atuando.
Como se me confundisse com ela. Como se tivesse acreditado em meu papel.
-  ridculo - replicou Reed, embora soubesse que tinha razo.
- No, no  - continuou falando enquanto terminavam de cruzar a rua, dirigindo-se para a porta do teatro - No sei o que  o que o corri por dentro, Reed, mas
seja o que for, lamento-o por voc. Tentei no me deixar afetar por isso, no deixar que um monto de coisas me afetassem. Mas isto  muito.
- O que  o que  muito? - a deteve.
- Vi sua expresso quando seu pai estava falando dessa festa, quando disse que queria me convidar. Bom, pois no tem que se preocupar, no irei. Inventarei uma desculpa.
- Do que est falando?
- No sabia que se envergonhava tanto de seu apresentar comigo nessa festa.
- Maddy.
- Mas  compreensvel, no  verdade? Eu sou apenas Maddy OHurley, nada mais, sem ttulo nem pedigree algum. E meus pais descendem de camponeses irlandeses...
Reed a interrompeu, agarrando seu queixo.
- Insisto: no tenho a menor idia do que est falando.
- Estou falando de ns! - gritou - Embora no sei por que o estou fazendo, porque no existe nenhum ns. Voc no quer que exista um ns, assim...
Frustrado, decidiu interromp-la com um beijo nos lbios.
- Pare de falar - advertiu-lhe quando viu que ela comeava a protestar novamente - Por favor, pare de falar um momento - se soubesse a impotncia com que a tinha
observado no teatro, seduzindo um auditrio quase deserto, incapaz de toc-la! Uma violenta fria corria por suas veias - J est mais tranquila? Bem. Olhe, no
sei o que estava pensando quando a vi no cenrio. O simples fato de pensar est se transformando em um problema quando a vejo.
- Por qu?
- No sei. Quanto ao resto do que me disse,  simplesmente ridculo. No me importa sua origem nem seu ambiente. Entendeu?
- Sinto muito - desculpou-se Maddy com a face banhada em lgrimas - Sinto de verdade. Detesto isto. Sempre choro quando estou furiosa, e no posso evitar...
- No - enxugou as lgrimas com deliciosa ternura - No fui muito justo com voc. Precisamos esclarecer nossa situao.
- Muito bem. Quando?
- Possivelmente quando no tiver aulas de bal de manh.
- No domingo - pronunciou, tirando um leno da bolsa.
- No domingo ento. Quer vir a minha casa? - acariciou sua face com o polegar. Disse a si mesmo que Maddy estava sendo razovel, muito razovel, quando ele sabia
que no podia lhe prometer a mesma coisa - Por favor.
- Sim. Irei. Reed, Juro que no tinha inteno de montar uma cena.
- Eu tampouco. Maddy... - duvidou por um instante, at que decidiu comear a esclarecer coisas - Quero explicar sobre meu pai. No tem nada a ver com a festa que
est planejando, nem com o fato de voc est l ou no.
- Do que se trata ento? - perguntou, ansiando acreditar em suas palavras.
- Fazia muito tempo que no o via to... To encantado pela companhia de algum. Ele queria ter uma casa cheia de meninos, e nunca chegou a t-los. Se ele tivesse
tido uma filha, acredito que teria gostado que fosse como voc.
- Reed, sinto muito. Mas no sei o que quer que eu faa.
- Simplesmente no lhe faa mal. No quero v-lo sofrer outra vez - depois de acariciar meigamente a lateral de sua face, empurrou a porta do teatro e a convidou
a passar primeiro.


Captulo 7

Enquanto Maddy se dirigia para seu apartamento, continuava pensando em Reed. No era de se surpreender. Aquele dia Reed a tinha obcecado at o ponto de que tivera
que fazer um grande esforo para se concentrar no papel de Mary Howard. Faltavam somente trs semanas para a estria da obra na Filadlfia. No podia se permitir
distrair-se com o presente e o futuro de sua relao com Reed Valentine.
Mas o que aconteceria na sbado? O que lhe diria ento? Como deveria comportar-se? No mesmo instante em que introduziu a chave na fechadura, disse-se que era uma
estpida. Mas continuou pensando nele
As luzes estavam acesas. Que estranho. Ultimamente estava muito distrada, mas no se lembrava de ter deixado as luzes acesas. Tinha contrado o hbito de economizar
sempre energia e dinheiro nas faturas, desde seus difceis tempos de principiante.
Mas seu assombro cresceu ainda mais quando acreditou reconhecer aroma de caf. De caf recm feito. Ao se dirigir para cozinha, ouviu um rudo procedente do dormitrio.
Com o corao acelerado, lenta e sigilosamente se dirigiu para l. Contendo o flego, girou a maaneta da porta. E tanto ela como sua irm soltaram simultneos gritos
de alarme.
- Deus! - Chantel levou uma mo ao corao - Eu tambm me alegro em v-la.
- Chantel! - abraou-a deleitada - O que est fazendo aqui, em Nova Iorque? Devia ter me avisado que vinha.
- Querida, escrevi a semana passada.
- Oh - Maddy lembrou do mao de correspondncia que ainda no tinha aberto - Ainda no revisei minhas cartas.
- Tpico.
- J sei - olhou atentamente para sua irm. Tinha um rosto que nunca se cansava de admirar, com olhos de uma cor azul profunda, emoldurado por um impressionante
cabelo loiro - Oh, Chantel, est maravilhosa. Estou feliz em v-la.
- Voc tambm est maravilhosa. Ou so as vitaminas que est tomando ou est apaixonada.
- As duas coisas.
- Ah, sim? - arqueou uma fina sobrancelha - E por que no fala sobre isso?
- Vos nos sentar e tomar algo - disse Maddy, pegando-a pelo brao - Oh, eu gostaria que Abby tambm estivesse aqui. Quanto tempo pensa em ficar na cidade?
- S alguns dias - explicou Chantel enquanto entravam a sala - Na sexta-feira  noite apresento um concurso de moda. Meus publicitrios pensaram que seria interessante.
- E voc no - sugeriu Maddy, distrada procurando um par de taas nos armrios.
Chantel lanou um olhar pela janela. Estava escurecendo.
- J sabe que Nova Iorque no  minha cidade, querida.  muito...
- Real?
- Perigosa - na rua, duas sirenes pareciam competir em volume - Espero que tome um pouco de vinho, porque caf no tem mais nem uma gota.
- No importa, no tomo mais caf - respondeu Maddy antes de colocar a cabea em outro armrio.
- Deixou de tomar caf? Voc?
- Estava tomando muito. Meu corpo estava se acostumando  cafena. Ultimamente o que mais tomo  ch de ervas - novamente cheirou o penetrante aroma do caf - Ento,
onde o conseguiu?
- Oh, o pedi emprestado ao vizinho do lado.
- No seria Guido... - por fim encontrou uma garrafa de vinho.
- Sim, Guido. Um carinha de bceps e dentes grandes.
- Chantel, h anos vivo a seu lado e jamais lhe daria bom dia sem um guarda armado como escolta.
- Pois comigo foi encantador - apoiando-se na cmoda, afastou o cabelo do rosto - Inclusive me custou convenc-lo de que no me preparasse o caf ele mesmo...
Maddy olhou a sua irm. Com aquele rosto de beleza clssica, aquele corpo impressionante e aqueles olhos azuis que hipnotizavam os homens, isso era algo que no
duvidava absolutamente.
- Imagino - serviu duas taas e lhe estendeu uma - Pelos OHurley.
- Isso. Que Deus abenoe a nossa famlia - murmurou Chantel, e tomou um gole. No demorou para esboar uma careta de desagrado - Maddy, continua comprando o vinho
no supermercado da esquina, verdade?
- No  to mau. Vamos sentar. Sabe algo de Abby?
- Chamei-a antes de sair para que soubesse que estaramos na mesma costa. Por seu tom, no podia estar mais feliz.
- E Dylan?
Chantel se deixou cair no sof, cansada da longa e tediosa viagem.
- Disse-me que estava a ponto de terminar o livro.
- O que opina ela do texto?
- Est contente. E tem plena confiana em Dylan - tomou outro gole de vinho. Pronunciou aquela ltima frase com uma leve sombra de cinismo. Ela mesma, antigamente,
tambm tinha acreditado dessa maneira em um homem - Parece que Abby conseguiu superar sua penosa experincia com Rockwell. Disse que Dylan vai adotar os meninos.
- Isso  timo - exclamou Maddy, emocionada.
- Sim,  justamente o que necessitava. Ele  o homem que precisava. Oh, Abby tambm comentou que recebeu uma toalha bordada de Risque, como presente de casamento.
- Todo mundo esperava que pudesse tirar um tempo e voltar para o casamento, mas no pde. Sabe onde est agora?
- Na Bretanha, acredito - respondeu Chantel - Desculpou-se, como sempre.
- Alguma vez se perguntou no que ele trabalha?
- Decidi deixar de me perguntar isso no caso de se tratar de algo ilegal. Mame e papai iro  estria de sua obra na Filadlfia?
- Espero que sim. Acho que voc no poder fazer outra viagem  costa...
- No, e com toda a dor de meu corao - Chantel tomou uma mo - Tivemos que adiar a filmagem de Estranhos, devido alguns problemas com a localizao. Deveramos
ter comeado h duas semanas. Sabe que viria se pudesse.
- Sei. Ests entusiasmada. Tem um papel maravilhoso.
- Sim - respondeu Chantel, mas de repente desviou o olhar, franzindo o cenho.
- O que h?
Chantel vacilou, a ponto de revelar a irm as cartas annimas que estava recebendo. E as chamadas telefnicas. Ao final, entretanto, desprezou a idia.
- No sei. Nervos, suponho. Nunca tinha trabalhado em mini-sries. No  nem cinema nem televiso.
- Vamos, Chantel, no me engana. Est falando com a Maddy.
- No  nada - decidiu no falar pois no final, com toda certeza, no seria mais que um desagradvel episdio sem importncia. Quando retornasse a Califrnia, provavelmente
aquele assunto teria se evaporado - Simplesmente uns quantos cabos soltos que tenho que atar. Hey, pelo que quero falar agora mesmo  do homem no que est pensando
- sorriu - Vamos, Maddy. Conte-me tudo.
- No sei se h muito que contar. Lembra-se se alguma vez papai nos falou do Edwin Valentine?
- Edwin Valentine? - entreabrindo as plpebras, Chantel tentou puxar na memria. Uma das razes de seu rpido xito em Hollywood era sua prodigiosa memria: jamais
se esquecia de um roteiro, um nome ou um rosto - No, no me lembro desse nome.
-  o Valentine da Discos Valentine. Uma das maiores empresas do mundo discogrfico, possivelmente a maior de todas. Bom, o caso  que conheceu nossos pais quando
ns ramos bebs. Ele estava comeando, e eles deram abrigo no quarto de hotel que estvamos ocupando.
- Muito prprio deles - respondeu Chantel, descalando-se para ficar mais a vontade - Que mais?
- Discos Valentine  o patrocinador da obra.
- Interessante, mas... Maddy, no se envolveu com ele, n? Deve ter da idade de papai. Olhe, no  que pense que a idade seja um fator fundamental em uma relao,
mas tratando-se de minha irmzinha...
- Espera um momento - riu Maddy - Deve ter mais de sessenta anos. E, em qualquer caso, somos apenas amigos. Trata-se de seu filho.
- Seu filho? -inquiriu Chantel, j mais tranquila - Assim Edwin Valentine tem um filho. Bailarino?
- No - respondeu, sorrindo - Tomou as rdeas da companhia. Suponho que  o que usualmente se chama um magnata.
- Deus! Isto se est ficando interessante.
- Chantel, a verdade  que no sei o que estou fazendo - confessou Maddy, e levantou-se para caminhar pela sala - A maior parte do tempo penso que devo estar ficando
louca.  um homem muito bonito, milionrio, de gostos conservadores. Freqenta os restaurantes franceses.
- Os melhores. Deitou-se com ele?
- No.
- Mas pensa nisso.
- Acho que no sou capaz de pensar em nada que no seja ele.
Chantel pegou a garrafa para servir outra taa.
- E o que ele sente por voc?
- Aqui  onde comea a dificuldade.  amvel, carinhoso e compreensivo. Mas tem uma espcie de rede de segurana no que se refere s mulheres. Ele me abraa com
paixo, e chego a pensar que  justamente isso que procurei durante toda minha vida... E no momento seguinte se torna frio, distante, como se fssemos dois desconhecidos.
- Sabe o que voc sente por ele?
- Temo que sim. No me atrevo a dizer. Ele deixou muito claro que no est interessado no que denomina relaes a longo prazo.
Chantel experimentou uma sensao de alarme:
- E voc est pensando em termo como para sempre?
- Poderia passar o resto de minha vida com ele - de repente Maddy olhou para sua irm com expresso sria, quase vulnervel - Chantel, eu poderia faz-lo feliz.
- Maddy, essas coisas tm que funcionar nas duas direes - sabia por experincia prpria - Ele pode faz-la feliz?
- Se me deixasse aproximar o suficiente... Se me deixasse aproximar o suficiente para poder compreender por que tem tanto medo de sentir... Chantel, sei que passou
por algo muito horrvel, que o tornou to desconfiado. Mas no sei o que .
Chantel deixou sua taa sobre a mesa e tomou ambas as mos.
- Voc o ama de verdade, no?
- Sim.
- Ento  um homem muito afortunado. E por mais distante que se mostre, acredito que ao fim acabar cedendo. Porque seu rosto... - ergueu-lhe brandamente a cabea
- ...Fala de sinceridade, de lealdade, de fidelidade.
- Parece que est falando de um co.
- Maddy - Chantel refletiu como era fcil dar um conselho. Que jamais aplicaria a si mesmo - A coisa  simples: se ama esse sujeito, a melhor maneira de conseguir
que ele a ame  ser o que voc .
Decepcionada. Maddy recolheu sua taa.
- Bah. E eu que acreditava que fosse me sugerir alguma tcnica especial para seduzi-lo...
- Acabo de faz-lo. Querida, se contasse meus segredos, ficaria de cabelo em p. Alm disso, voc tem os olhos posto em casamento, no estou certo?
- Suponho que sim
- Ento, e dado que eu no recomendo a sinceridade na maioria das relaes, isto  diferente. Se quer esse homem em sua vida, para seu bem ou para seu mau, ento
deveria enfrent-lo cara a cara. Quando o voltar a ver?
- No antes do sbado.
Chantel franziu o cenho. Teria gostado de conhecer esse tal Valentine, mas na sbado j estaria no avio voando para o Oeste.
- Bom, acredito que no seria mal mudar de aparncia - lanou um olhar s calas de Maddy. Algo sedutor,  obvio. Deixe isso comigo. Sabe? A nica coisa que eu gosto
de Nova Iorque so as lojas. Ir s compras. Falando s compras... Sabe que na geladeira s tem trs cenouras e um pouco de suco?
- Ia comprar algo na loja de comida vegetariana da esquina.
- Hey, no obrigado. Eu no gosto de comer mato.
- Nesta mesma rua h um restaurante italiano que serve espaguetes fabulosos.
- Isso soa melhor. Eu me troco ou voc se troca?
Maddy olhou o elegante traje de seda que sua irm usava, e que tanto contrastava com suas confortveis calas.
- Ser melhor que voc se troque. Trouxe com voc alguma roupa normal?
- No posso trazer o que no tenho. Acredite:  duro manter continuamente esta imagem to sofisticada.
- Tenho algo que poderia cair bem em voc - disse Maddy, levantando-se - Alm disso, ningum a reconheceria no restaurante italiano de Franco'S.
Chantel se levantou tambm, sorrindo.
- Quer apostar?
- No me arriscarei - abraou-a, carinhosa -  nica entre um milho.
Chantel apoiou a face contra a de sua irm. Quem dera se as coisas fossem to maravilhosamente simples como o eram naquele momento.
- No, somos trs entre um milho.

Quando Maddy retornou depois do ensaio de sbado, encontrou o apartamento vazio. Tinha passado quase trs dias com Chantel. Durante aquela breve visita, sua irm
tinha conseguido seduzir o anti-social Guido, cativar todo o grupo do musical e esvaziar a metade das lojas da Quinta Avenida.
E Maddy j sentia sua falta. Se Chantel tivesse podido ficar ao menos um dia mais...
Suspirando, foi tomar um banho. Disse a si mesma que era estpido pensar que precisava de apoio moral para falar com o Reed. No, na realidade no precisaria. Simplesmente
ia falar com ele a respeito da natureza da relao que os unia.
Na ducha, ergueu a cabea para o jorro de gua. Sim, lavaria o cabelo, trocaria-se e logo tomaria o metro para ir a sua casa. Precisavam conversar. No tinha sentido
ficar nervosa por algo que tinham que fazer de qualquer forma.
A obra estava indo muito bem. Poderia dizer isso a Reed. Quando viajassem na semana seguinte para Filadlfia, para ensaiar ali durante os ltimos dias, tudo estaria
ainda melhor. Sentiria falta de Reed? Diria isso a ele?
Recriminando por aqueles temores, saiu da ducha e secou o cabelo. Depois comeou a maquiar-se. Minutos depois, satisfeita com o resultado, entrou no dormitrio.
Ali, desdobrado sobre a cama, estava tudo o que tinha deixado Chantel atrs de si. Em cima havia uma nota, que Maddy se apressou a ler:

Maddy,
Depois de uma exaustiva busca e de uma profunda reflexo, decidi lhe deixar tudo isto. Como presente de aniversrio... Antecipado. Vista-o esta noite para seu Reed.
Ou, melhor ainda, o vista para si mesma. Provavelmente vai pensar que a cor no vai combinar com seu estilo, mas confie em mim. Pensarei em voc. J sabe quanto
te amo. Sorte com o espetculo.
Chantel

Mordendo o lbio para no chorar, Maddy contemplou o presente do Chantel. As elegantes calas de seda eram de um tom rosa forte, atrevido. Exatamente o tipo de cor
que Maddy jamais teria tentado combinar com seu cabelo. A curta blusa de lacinhas era azul jade. Juntas, aqueles dois objetos faziam um contraste de cores que Maddy
jamais teria escolhido. Sorriu. Por ltimo, uma jaqueta tambm de seda, folgada, cmoda, bordada com milhares de contas e lantejoulas de cores.
A primeira vista, Maddy teria pensado que tudo aquilo era muito sofisticado para seu gosto, muito elegante para seu estilo, mas era uma roupa que provocava tanto
sua imaginao como sua admirao.
- De acordo - pronunciou em voz alta - Mos  obra

Por que estava to nervoso? Era a ensima vez que Reed percorria seu imenso apartamento de uma ponta  outra. Era ridculo sentir-se nervoso somente porque iria
ficar aquela tarde com uma mulher em sua casa. Mesmo que essa mulher fosse Maddy. Sobre tudo porque essa mulher era Maddy, corrigiu-se.
Tinham passado outras tardes juntos. Mas essa noite era distinta. Ligou o equipamento estreo, confiando em distrair-se com a msica.
Deliberadamente tinha evitado entrar em contato com Maddy durante toda a semana, para demonstrar que podia viver sem ela. Mas em algum momento da quinta-feira tinha
deixado de contar s vezes que tinha levantado o telefone e digitado seu nmero, somente para desligar imediatamente.
Lembrou-se que somente iriam falar de sua situao. Era imperativo que esclarecessem de uma vez por todas o que queriam um do outro, que estabelecessem as regras
de sua relao. Reed queria fazer o amor com ela. Precisava.
Podiam se transformar em amantes e continuar sendo amigos. Era sobre isso que tinham que conversar, antes de que fosse tarde demais. Sim, sentariam-se e falariam
de suas respectivas necessidades e restries como dois adultos razoveis. Analisariam racionalmente sua situao, discutiriam as conseqncias. Ningum sairia ferido.
Mas no. Reed sabia que acabaria magoando-a. Passou uma mo pelo pescoo, perguntando-se por que estava to certo disso. Ainda podia lembrar a emoo que tinha brilhado
em seus olhos a ltima vez que tinham se encontrado. Aquele olhar magoado e audaz ao mesmo tempo.
Quantas vezes havia dito a si mesmo que aproveitaria aquela mesma noite para romper com ela, para acabar com aquela relao antes que pudesse chegar muito longe?
E quantas vezes tinha terminado reconhecendo que isso seria absolutamente impossvel?
Mas Maddy estava tomando conta de seus pensamentos, e isso ele no podia permitir. A melhor maneira, a nica, que conhecia de pr distncia a essa situao era deixar
bem expostas s regras. Percorreu de novo o apartamento. Estava atrasada. E esse atraso o enlouquecia.
O que Maddy tinha para atra-lo tanto?Perguntou-se. No era uma mulher particularmente bonita. Mas aquela mulher, que a primeira vista passaria despercebida entre
multido, tinha-o agarrado pelo pescoo...
Quando ouviu que batiam na porta, j a estava amaldioando. Esperou alguns segundos para acalma-se. No se apresentaria ante ela irritado, mal-humorado. Tinha que
comear bem. Racionalmente.
Mas quando abriu a porta, todo pensamento racional abandonou seu crebro. Como tinha se enganado tanto? Havia dito a si mesma que no era uma mulher especialmente
bonita, e ali estava, to resplandecente, to bela e to cativante como uma deusa.
- Ol. Como est? - sorriu, beijando-o no rosto. O corao batia a toda velocidade.
- Bem.
Maddy hesitou um instante.
- Disse que queria me ver no sbado de noite, no?
- Sim.
- Ento... Vai me convidar para entrar ou no?
-  obvio. Perdo - fechou a porta a suas costas enquanto se perguntava se no teria cometido o pior engano de sua vida. E da dela - Est... Maravilhosa. Como...
Diferente.
- Srio? - sorriu - Minha irm ficou alguns dias comigo, e foi ela quem me comprou isto -  fantstico, no?
- Sim. Est linda.
- O mrito  da roupa. No voltou aos ensaios.
- No. Gostaria de uma bebida?
- Bom, possivelmente uma - aproximou-se das janelas para admirar a vista da cidade - Tudo est saindo bem, Reed. Acredito que a estria do musical na Filadlfia
ser um sucesso.
- O departamento de contabilidade da empresa ficara satisfeito em saber.
Foi aquele tom to seco o que a fez rir.
- Pode ficar tranqilo, que no perder dinheiro - aceitou a taa que lhe ofereceu. Sabe? Cada vez que saio de cena no papel da Mary, sinto-me mais e mais viva.
- Tanto representa essa obra para voc?
Maddy baixou o olhar a sua taa antes de voltar a contemplar a paisagem.
- Quando estou no cenrio e vejo o teatro cheio de gente, esperando minha atuao... Reed, no sei como lhe explicar isso.
- Tente - incetivou-a, fixando o olhar nela - Quero entender.
- Sinto uma aceitao instantnea. Acredito que me sinto amada. E que posso corresponder a esse amor na dana, com uma cano. Pode parecer pretensioso dizer que
nasci para isto, mas  verdade.
- Bastaria ento se sentir amada por dezenas de desconhecidos?
Maddy lhe lanou um longo e escrutinador olhar, consciente de que ele no podia compreend-la. Ningum alheio ao mundo da atuao podia.
- Bastaria, teria que bastar, se no pudesse ter nada mais nada.
- Voc no precisa de nada estvel, de nenhuma pessoa permanente, em sua vida.
- Eu no disse isso - no deixou de olh-lo nos olhos enquanto negava lentamente com a cabea - O que queria dizer  que eu sempre fui capaz de me adaptar. No tinha
outro remdio. O aplauso enche muitas carncias, Reed. Todas, se entregar a isso de corpo e alma. Imagino que seu trabalho produz em voc o mesmo efeito.
- Sim. J disse isso antes, no tenho nem tempo nem vontade de me comprometer em uma relao a longo prazo.
- Sim, j me disse isso.
- E falava srio, Maddy - tomou um gole de vinho, porque no se sentia confortvel com as palavras que estava se forando a pronunciar. Por que, quando mais se esforava
por ser sincero, mas tinha a sensao de estar mentindo? - J tentamos o que voc props. A amizade.
- Eu acredito que funcionou...
- Mas eu quero mais - de repente enterrou a mo em seu cabelo, atraindo-a para si - E se tomo mais, lhe magoarei.
Isso era certo. Maddy compreendeu, aceitou-o, e em seguida se obrigou a esquecer.
- Eu sou responsvel por mim mesma, Reed. E isso inclui meus sentimentos. Eu tambm quero mais. Acontea o que acontecer, a escolha ser minha.
- Que escolha? -perguntou bruscamente - Que escolha, Maddy? J no  hora de admitir que, at o momento, nenhum dos dois pudemos escolher nada? Eu queria me afastar
de voc, essa era minha escolha. Mas, sem querer, ia me aproximando cada vez mais - deslizou brandamente seu casaco pelos ombros, que caiu ao cho em uma cascata
de cores - Voc no me conhece - murmurou, percebendo seu tremor - No sabe o que tenho dentro de mim. H muitas coisas que voc no gostaria, mais que poderia chegar
a imaginar. Se fosse inteligente, agora mesmo sairia por essa porta.
- Suponho que no sou.
- Eu tambm no - seus dedos se esticaram sobre seus ombros - Porque j aconteceu o momento que eu conseguiria deix-la partir. Me odiar antes que tudo isto termine
- de fato, j estava comeando a arrepender-se.
- Eu no odeio com facilidade. Reed... - ergueu a mo para lhe acariciar o rosto - Confie um pouco em mim.
- A confiana nada tem que ver com isto - por um instante, uma vibrante chama relampejou em seus olhos - Desejo-a, e esse desejo est a semanas me devorando por
dentro. Isso  a nica coisa que posso oferecer.
A dor chegou, tal e como ele tinha profetizado, mas Maddy tentou ignor-la.
- Se isso fosse verdade, duvido que precisasse lutar tanto contra isso.
- Deixei de lutar. Esta noite ficar comigo.
- Sim, ficarei - segurou seu rosto entre as mos-. Porque isso  o que quero.
Reed levou sua mo aos lbios. Era uma promessa, a nica que ele podia lhe dar.
- Venha comigo.
E deixando-se levar por seu corao, Maddy foi com ele.


Captulo 8

O abajur do corredor iluminava parcialmente o dormitrio. Reed tinha deixado ligado o estreo, mas a msica era apenas um leve eco. Maddy tinha ansiado ver seus
olhos assim, intensamente fixos nela e no que queria dela. Sorriu enquanto lhe entregava novamente os lbios.
- Est cometendo um engano... - murmurou ele.
- Ssss. Logo seremos lgicos - sem deixar de olh-lo, comeou a lhe desabotoar a camisa-. Do instante em que o conheci, sempre quis fazer isso - abriu a pea, deslizando
as mos por seu peito-. Nas noites ficava acordada na cama me perguntando quando poderamos estar assim, juntos - e acrescentou enquanto lhe acariciava os ombros,
explorando sua pele, curiosa-: Reed, no tenho medo de voc. E tampouco tenho medo de meus prprios sentimentos.
- Deveria ter.
Maddy jogou a cabea para trs, com um desafio nos olhos.
- Me demonstre por que.
Soltando um gemido, Reed se entregou a ela, a si mesmo, a tudo. Deslizou as mos pela seda que a cobria, at que sentiu que seu corpo comear a estremecer. De medo
ou de excitao? No podia saber. O desejo o rasgava por dentro, implacvel. Ansiava em fazer amor rapidamente, agora, ali onde estavam, vivendo sozinho o momento,
sem laos nem promessas. Isso seria o melhor para ela, e tambm para ele mesmo.
Mas ento Maddy murmurou seu nome com um sussurro to quente e doce como  brisa da tarde. Suas mos se encheram de ternura. No podia evitar. Sua boca tambm se
suavizou. Com toda segurana, algum dia terminaria magoando-a, mas aquela noite era especial. No pensaria em nada que no fosse ela, nem no passado nem no futuro.
Aquela noite daria tudo que podia dar, e tomaria tudo que se atravesse a ter.
Delicadamente deslizou as alas de seus ombros, at que a pea de seda ficou suspensa em instvel equilbrio sobre seus seios. Como se tivesse percebido sua mudana
de humor, Maddy ficou muito quieta. To sensvel era s alteraes de seu nimo? Reed esperava que, por seu prprio bem, tivesse mantido alguma defesa contra ele.
Com uma ternura que o surpreendeu tanto quanto a ela, deslizou os lbios por seus ombros nus, saboreando a textura de sua pele, to delicada quanto  seda, e seu
aroma, igualmente sedutor. De repente Maddy parecia to pequena, to frgil, to jovem... Depois de um instante de hesitao, beijou-a apaixonadamente.
Maddy tinha percebido a mudana que se operou em seu interior. Tinha dado um momento de trgua  batalha que sempre parecia estar lutando. Acariciou-o com delicioso
cuidado, deleitando-se com o contato de seu corpo duro, forte. Com a respirao acelerada de desejo, permitiu-se seduzi-lo com os lbios, roando apenas a boca,
para lhe dar tempo de aceitar o que estava ocorrendo entre eles. Sabia que, Reed estava se deixando levar por seus sentimentos, algo a qual no estava acostumado.
Ansiosos, excitados, no demoraram para carem na cama. Despojou-a da blusa de seda, jogando-a para um lado. Quando Maddy sentiu o contato de seus dedos contra sua
pele nua, concentrou-se em aproveitar daquela deliciosa sensao, suspirando de felicidade. Com os olhos meio fechados, podia vislumbrar o cabelo escuro enquanto
se inclinava sobre ela. Podia sentir o enlouquecido pulsar de seu prprio corao. Depois delineou com a lngua o contorno de um mamilo, e seu corpo se contraiu
com uma nova e embriagadora pontada de prazer.
Movia-se contra ele como se algum lhes tivesse preparado uma coreografia especial, prvia, cuja existncia jamais antes tinha suspeitado. Para o Maddy era algo
to natural, e to fcil, como respirar.
Ali onde seu desejo o tentava a toc-la, onde o arrastavam suas necessidades, ali ele era esperado. Reed jamais tinha experimentado nada parecido. Podia senti-la
vibrar sob seus desejos. Nunca tinha conhecido ningum to aberto ao amor, to livre e desinibido. Quando Maddy se livrou das calas de seda e se apertou contra
ele, o contato de sua pele nua o enlouqueceu. Era como se conhecessem e houvessem se acariciado durante toda sua vida, desde o comeo dos tempos.
O corao do Reed no podia pulsar com maior velocidade. Uma vez que ficou completamente nu, ela o contemplou admirada. E com um sorriso o aproximou para si, abraando-o
com tanta paixo como ternura.
- Beije-me outra vez - murmurou, com os olhos meio fechados - Ansiei tanto que me tocasse assim... - sussurrou contra seus lbios - s vezes imaginava o que seria
sentir suas mos em meu corpo. Aqui - guiou-lhe uma mo - E aqui - arqueou-se sob seu corpo.
Reed era consciente de que algo escapava: o controle com o qual at o momento, tinha contido to ferreamente suas emoes. No podia se permitir entregar o corao,
no podia conferir a ela o poder sobre sua pessoa que ia associado com aquele presente.
Foi se livrando com deliciosa lentido a roupa de baixo. De repente, qualquer pensamento racional se apagou de sua mente. O desejo por ela, por tudo o que significava,
por tudo o que lhe oferecia, consumiu-o por completo. Com toda sua sinceridade e seu entusiasmo pela vida, Maddy tinha iniciado aquela viagem. E ele no seria meramente
um passageiro.
Enquanto lhe devorava os lbios com cru desespero, esqueceu-se completamente da ternura. Suas mos, sempre to cuidadosas, apertaram vezes seguidas seu corpo lhe
arrancando gritos e gemidos. Com cada movimento, com cada suspiro, seus coraes aceleravam um pouco mais, ressonando em seu crebro com um eco que se assemelhava
ao nome de Maddy.
Sem vacilar, quando Maddy enroscou as pernas em torno de sua cintura, entrou nela. Era um contato to quente, to insuportavelmente doce e acolhedor... Esforou-se
para recuperar o controle enquanto o corpo do Maddy comeava a mover-se, com tanta graa e elegncia quanto com selvagem e primitivo erotismo. Apesar do intenso
prazer que contraa os traos, mantinha os olhos bem abertos, fixos nos seus.
Em certo momento ela estremeceu, as mos fechando-se com fora sobre os lenis. Aquilo no se parecia com nada que tivesse experiente antes. Queria continuar ali
para sempre e no voltar nunca para mundo real. Por sculos e sculos.
Foi quando a tormenta estalou em seu interior. Maddy se tencionou violentamente antes que a inundasse ondas de inenarrvel prazer. Sim. Enquanto o abraava com ternura,
compreendeu que seria perfeitamente capaz de esperar a que Reed se entregasse em corpo e alma. Porque, cedo ou tarde, terminaria fazendo-o.

Maddy j tinha partido quando Reed acordou. O outro lado de sua cama estava vazio. Por que se sentia to oco? Tinha passado uma noite excitante com uma mulher excitante,
e depois tudo acabou. Era assim que preferia. Era assim que jogava esse jogo. Durante aquela noite tinham proporcionado mtuo prazer um ao outro, paixo e desejo.
E agora que o sol saia, tudo tinha terminado. Deveria se sentir agradecido por Maddy ter agido com tanta naturalidade e ter ido embora sem se despedir dele.
Mas por que continuava se sentindo to vazio? No podia se permitir lamentar que Maddy no estivesse ali ainda, a seu lado. Era ele, e no ela, quem conhecia perfeitamente
quo fugazes e vazias eram as relaes desse tipo. Deveria inclusive admir-la por sua sinceridade ao reconhecer, ao menos implicitamente, que o que tinha ocorrido
entre eles no tinha sido mais que um recproco alvio fsico.
Mas no. Sentia-se vazio por dentro porque ela partira, e porque ansiava abra-la. Praguejando entre os dentes, levantou-se da cama.
Foi ento que viu as calas de seda. Antes que as recolhesse do cho, ouviu que algum abria a porta do apartamento. Pendurou as calas no respaldo de uma cadeira
e pegou seu robe.
Encontrou-a na cozinha, no momento em que deixava uma bolsa de papel cheia de comida sobre o mostrador.
- Maddy?
- Reed! -exclamou, dando um pulo - Me deu um susto! Achei que ainda estava dormindo.
E ele que tinha pensado que tinha partido... Procurou dissimular sua emoo.
- O que est fazendo?
-Sai para comprar algo para tomar o caf da manh.
Reed j no se sentia absolutamente vazio por dentro. Mas, sim um imenso prazer, no pde evitar sentir um certo receio.
- Achei que tinha ido.
- No seja tolo. No podia partir assim, sem mais nem menos. Por que no volta para a cama? No demorarei nem um momento em preparar isto.
- Maddy - deu um passo para ela. E deslizou lentamente o olhar por seu corpo - O que  o que esta vestindo?
- Voc gosta? - rindo, segurou a beirada da camisa do Reed que vestia, e deu uma volta em torno de si - Tem um gosto excelente. Estou na ltima moda.
A camisa, que lhe chegava at o meio coxa, lhe caia muito bem.
- E essa  uma das minhas gravatas?
Maddy dissimulou um sorriso enquanto brincava com a negra gravata de seda que tinha usado como cinturo.
-  tudo o que pude encontrar. No se preocupe, posso engomar isso.
- Saiu na rua assim?
- Sim, mas no chamei a ateno -assegurou - Olhe, estou morrendo de fome - jogou os braos em seu pescoo para beij-lo com uma paixo que lhe acelerou o pulso
- Volte para a cama, que agora mesmo levo o caf da manh.
Obedeceu, porque necessitava alguns minutos para recuperar-se. No partiu, disse-se enquanto se recostava contra os travesseiros. Estava ali, em sua cozinha, preparando
o caf da manh como se fosse o fato mais natural do mundo. Aquilo lhe agradava. E preocupava.
- H mais creme, se  que gosta - disse-lhe Maddy entrando no quarto com a bandeja.
Reed olhou o caf da manh que tinha preparado, enquanto colocava a bandeja sobre a cama, entre os dois.
- O que  isso?
- Sorvete com creme... - respondeu, afundando um dedo no creme e levando-o  boca. ... E morangos - acrescentou, suspirando de prazer.
- Sorvete de morango com creme e morangos, para tomar no caf da manh?  esta a mesma Maddy OHurley que se preocupa tanto de sua dieta nutritiva?
- O sorvete  um produto muito saudvel - retrucou enquanto lhe oferecia uma colherada - Os morangos so naturais. Que mais precisa?
- Alguns ovos com presunto, talvez?
- Muita colesterol, e, alm disso, no so to deliciosos. De todo o jeito,  uma maneira de celebrar.
- De celebrar o que?
Maddy o olhou os olhos. Como podia no saber? E se no sabia, como poderia explicar...
- Voc  maravilhoso. Eu me sinto maravilhosamente bem.  domingo e  um dia de sol. Acho com isso basta - pegou um morango de seu prato e ofereceu - Vamos. Viva
perigosamente.
Reed fechou os lbios sobre o morango, roando levemente nas pontas dos dedos.
- E eu que acreditava que sobrevivia a base de brotos de alfafa e germe de trigo.
- Isso  o que como a maior parte do tempo. Por isso aproveito cada colherada - saboreou o sorvete, fechando os olhos - Habitualmente saio para correr aos domingos
pela manh.
- Ah, sim?
- Somente uns seis ou sete quilmetros.
- Somente - repetiu, admirado.
- Mas hoje me sinto um tanto... Decadente.
- Srio? - ps uma mo sobre seu joelho, deslizando-a lentamente para cima.
-  obvio. Amanh terei que pagar por isso, mas hoje...
- Planeja ficar em minha casa e continuar assim... Decadente?
- Sim, a no ser que voc prefira que eu saia.
Reed entrelaou os dedos com os seu em um significativo e simples gesto, que o teria surpreendido se tivesse sido consciente.
- No. No quero que v.
Um enorme sorriso iluminou o rosto de Maddy.
- Ento posso ser muito decadente.
- Conto com isso.
Maddy afundou um dedo no creme e comeou a chup-lo com deliciosa lentido.
- Pode ser que eu... O surpreenda...
Quando repetiu o gesto, Reed agarrou seu pulso e lambeu sensualmente o dedo.
- Voc acha? -sentiu a acelerao do pulso. Podemos fazer a prova - retirou a bandeja da cama e a deixou no cho. Quando a olhou de novo, viu que tinha as pupilas
obscurecidas de desejo - Perguntava-me que aspecto teria pela manh.
- E que aspecto tenho? - ela perguntou, inclinando a cabea.
- Fresco -acariciou a lateral de seu rosto meigamente - E delicioso.
- Eu gosto de ter um aspecto delicioso.
- Sabe, Maddy? No chegou a me pedir emprestada a camisa que usou para ir  rua.
Um brilho de humor danou em seus olhos, mas respondeu com a maior seriedade do mundo:
-  verdade. Foi uma grosseria de minha parte.
- Quero que me devolva isso - enganchou um dedo na gola da pea e a aproximou de si - Agora mesmo.
- Agora mesmo? - repetiu, excitada - Imagino que tambm vai querer a gravata.
- obvio.
-Est em seu direito - murmurou. Ajoelhada sobre a cama, tirou a gravata e a entregou. Logo comeou a desabotoar botes da camisa. No desvio o olhar enquanto o
fazia. Sorriu deslizando a pea por seus ombros - Tome.
Mas Reed jogava pea para um lado e se ajoelhou frente a ela, tomando-a pelos ombros.
- Acho que estou me afeioando mais pelo contedo. Tem um corpo incrvel. Duro e suave, compacto, flexvel - pronunciou, admirando-a- - Pergunto-me se... Maddy,
o que  isso que est usando?
- O que? - um pouco confusa, baixou o olhar - Oh,  um tanga. Nunca tinha visto uma?
Observava-a entre divertido e intrigado.
- Na realidade, sim. Embora as pessoas possam comear a se perguntar se no est levando o papel de seu espetculo com muita seriedade...
- Bah. Pois no dizia o mesmo quando me despia diante de si - respondeu, abraando-o pelo pescoo - Descobri as tangas enquanto me preparava para o papel.
- Enquanto se preparava? - tinha comeado a beij-la, e de repente se afastou - Exatamente o que quer dizer isso?
- Assim, tal como sonha. No h como apresentar um bom papel se no se preparar antes.
- Foi ver espetculos de strip-tease - segurou seu queixo, divertido.
- Claro. Tinha que me colocar dentro da pele de Mary, e pensei que a melhor maneira de faz-lo seria falar com as mulheres de sua profisso. Conheci pessoas fascinantes.
- E descobriu as tangas - acariciou o quadril, enganchando um dedo na fina tira que a cruzava.
- So muito confortveis - afirmou antes de mordiscar brandamente o lbulo da orelha masculina.
- Sempre as usa?
- Mmmm.
- Aquele dia que fomos ver a exposio de arquitetura vitoriana... Usava uma tanga debaixo daquelas calas cqui to largas?
- Claro.
- Sabe o que teria acontecido se eu soubesse disso na poca? Ali mesmo, na frente daquela maquete da manso de veraneio da rainha Vitria?
- O que?
- E com aquela famlia numerosa de Nova Pulver atrs de ns?
- Oh, Meu deus - abraou-o, divertida - Talvez possamos voltar l esta mesma tarde.
- Nem sonhe - enterrou o rosto em seu pescoo.
Rodou com ela na cama, rindo a gargalhadas. E a risada, a alegria continuava ali enquanto Maddy se aconchegava contra ele, enquanto o acariciava, enquanto se entregava.
Inclusive mais tarde, muito mais tarde, quando a risada se transformou em suspiros e gemidos de prazer, aquele ntimo jbilo no desapareceu.
Ela sentia tanto amor em seu interior... E quanto mais tempo passava com Reed, mais luminoso, mais feliz parecia. Sim, seus olhos brilhavam quando a olhava. Era
to doce, to tenro, to cuidadoso. Nunca tinha se mostrado to generosa e to disposta com ningum, mas com ele, nada era mais fcil. Conhecia perfeitamente seu
corpo, suas qualidades, suas fraquezas. E, entretanto com Reed estava descobrindo necessidades completamente novas. Quando sua boca se fechava sobre um seio, experimentava
inefveis sensaes de prazer, de dor, de desespero. O simples roar de sua mo em uma coxa a fazia estremecer. Uma carcia de seus lbios no pescoo lhe arrancava
um gemido.
Tocando-o, debilitava-se de desejo. Era dele. Disse a si mesma que no se importava que fosse somente por um instante, por uns minutos. Enquanto estivessem juntos,
nus, pele contra pele, ele era dela.
Precisava dela. Podia sentir na excitao que o percorria, que atravessava seu corpo. Se, embora s por um momento, ele se atrevesse a desatar as correntes com que
ainda dominava suas emoes, poderia chegar a am-la. Estava convencida disso. Havia muito mais que paixo ou desejo em suas carcias. Quando lhe roava apenas os
lbios com os seus, quando aprofundava seus beijos, Maddy sabia que estava a ponto de lhe dar o que to desesperadamente precisava.
Amor. Ansiava confessar o quanto era maravilhoso sentir-se to irrevogavelmente unida a outro ser. Queria lhe oferecer ao menos um suspiro do que significava saber
que podia confiar completamente em outra pessoa. E que essa outra pessoa sempre estaria ali, a seu lado.
Tinha a pele mida de suor, ardendo. Suas mos perdiam a ternura conforme crescia sua excitao. E Maddy estava vida, faminta. Sua energia liberada parecia enlouquec-lo
cada vez mais, arrastando-o fora de todo controle. gil e desesperada, arqueou-se para que entrasse nela.
Mais tarde, quando recuperaram o flego, seus corpos ainda continuavam unidos formando um nico ser.
Saciada, esgotada, radiante, Maddy se inclinou sobre ele. Quando sentiu sua mo lhe acariciando meigamente as costas, fechou os olhos.
- Oh, Reed, amo-o.
Ao princpio estava muito absorta em suas prprias divagaes para perceber sua repentina tenso. Mas, pouco a pouco, seus pensamentos foram se clareando. Manteve
os olhos fechados durante alguns segundos, sabendo que no podia retirar as palavras que acabava de pronunciar.
- Sinto muito - suspirando, ergueu o olhar. E viu que Reed se distanciava dela, apesar de seus corpos ainda permanecerem unidos.
- Maddy, eu no acredito nesses tipos de frases enganosas. Nem na necessidade de diz-las.
- Frases enganosas - sacudiu a cabea, aturdida pelo assombro - Voc acreditava que te amo  uma frase enganosa?
Tomando-a pelos ombros, separou-se dela at que os dois ficaram sentados na cama.
- Maddy, temos algo realmente bom entre ns. No o encubramos com fingimentos.
- Eu no finjo nem minto, Reed - replicou, magoada.
Algo surgiu no interior de Reed. Algo quente, doce. Era uma chama de esperana, mas no quis reconhec-la antes de apag-la.
- Chama-se fantasia em vez de mentira, se preferir.
- Voc no acredita que eu possa am-lo?
- O amor s  uma palavra - girou para a lateral da cama e pegou sua blusa - Certamente, existe: de pais a filhos, entre irmos... Mas quando se trata de uma relao
entre um homem e uma mulher, acontecem coisas como a atrao, a teimosia, at a obsesso. So sentimentos que vm e vo, Maddy.
Por um instante Maddy ficou olhando estupefata, em silncio.
- Voc no acredita realmente nisso.
- No acredito, sei - interrompeu-a - As pessoas se relacionam porque querem coisas umas de outras. E continuam juntas at querer outras coisas de outras pessoas.
Enquanto esto juntas, fazem promessas que na realidade no tm inteno de cumprir e dizem coisas que no sentem de verdade. Porque isso  o que se espera delas.
E eu no tenho esse tipo de expectativas.
Sentindo de repente um intenso frio; Maddy se cobriu com o lenol. Nunca antes tinha parecido a Reed to terrivelmente jovem, pequena e vulnervel.
- Eu nunca tinha dito a um homem que o amava. Imagino que isso tenha alguma importncia.
- Eu no quero palavras, Maddy - afastou-se para a janela, de costas para ela. Por que a estava magoando tanto? Dizia apenas a verdade - E tampouco posso d-las
a voc.
Decidida a no chorar, apertou os olhos com as mos por um instante.
- O que foi que lhe aconteceu para que renunciasse voluntariamente os sentimentos, Reed? - foi erguendo o tom de voz conforme a fria se impunha  dor-. Eu lhe disse
que te amo. No me envergonho disso. No disse aquilo para lhe arrancar algum tipo de declarao.  simplesmente a verdade. Est vendo mentiras onde no h. Acaso
pretende me dizer que no sentiu nada h alguns momentos atrs? Que foi apenas sexo, e nada mais?
Quando Reed se voltou para ela, seu rosto no refletia absolutamente a batalha interior que estava lutando.
- No tenho nada mais a lhe oferecer. Ou tome ou deixe, Maddy.
- Entendo - assentiu com a cabea.
- Preciso de um pouco de caf - de repente deu meia volta e saiu do dormitrio. Suas mos tremiam. Por que se sentia como se tudo o que acabava de dizer tivessem
sido os pensamentos, as palavras de outra pessoa?
Que diabos estava acontecendo com ele? Depois de pr a cafeteira no fogo, apoiou-se no balco. Quando Maddy dissera que o amava, uma parte de seu ser tinha ansiado
por aquela confisso. E tinha acreditado nela.
Com o Maddy, estava perdendo seu equilbrio emocional. Aquilo tinha que terminar. Tinha um exemplo de primeira mo do que acontecia a um homem que confiava em uma
mulher, que lhe dedicava devotamente sua vida. E ele no permitiria que acontecesse o mesmo com ele. Maddy no podia mudar isso. Ele no permitiria.
Talvez acreditasse que o amava, mas no demoraria muito tempo em mudar de opinio. Enquanto isso, seguiriam adiante com cuidado e respeitando escrupulosamente as
regras.
Ouviu que a porta do apartamento se abria e depois fechava. Durante um bom tempo, Reed ficou onde estava, sem mover-se. Nem sequer piscou quando a cafeteira comeou
a assobiar. Sabia que dessa vez Maddy tinha partido de verdade, talvez para sempre. E voltou a se sentir horrivelmente vazio por dentro.


Captulo 9

- Pode at me dizer que hoje vai fazer uma operao de vida ou morte. No dou  mnima. Via na festa comigo esta noite.
- Wanda, por que insiste tanto? - perguntou Maddy, enquanto calava as sapatilhas.
- Mas antes tem que ir at a sua casa para vestir aquele vestido de noite que tem.
- J disse que estou cansada, e que no estou com humor para ir a uma festa.
- E eu digo que est zangada com algo.
- Eu zangada?
- Sim.  perita nisso - replicou Wanda, deixando-se cair no banco, a seu lado - Olhe, se no quer me falar da estupidez de seu homem, adiante. D no mesmo para mim.
- Ele no  meu homem.
- Quem no  seu homem?
- Ele - suspirou, frustrada - Eu no tenho nenhum homem, e tampouco quero ter. Em qualquer caso, quem quer que seja, no pode ser meu.
- Oh-Oh - exclamou Wanda, olhando as unhas - Mas  um estpido.
-Eu no disse que... - sorriu, sem poder evitar - Sim,  um estpido.
- Querida, todos so. O caso  que o senhor Valentine organizou uma bela farra, e que a estrela da obra no pode ficar em sua casa chorando na banheira.
- No vou - declarou Maddy pela ensima vez enquanto amarrava os cordes das sapatilhas. E vou ficar chorando na cama.
- Se no for vou falar com todo mundo que voc est se achando muito superior para nos acompanhar a festa.
- Quem acreditaria uma coisa assim?
- Todo mundo. Porque voc no estar l para desmentir.
Maddy ergueu-se do banco e comeou a escovar o cabelo.
- Olhe, por que no me deixa em paz de uma vez?
- Porque eu gosto de voc.
- Estou muito cansada para ir a essa festa, Isso  tudo.
- Mentirosa. Estou a semanas ensaiando com voc. Voc nunca se cansa.
Maddy deixou a escova sobre a pia, com um golpe. No espelho, olhou Wanda nos olhos.
-Pois esta noite sim. Olhe, eu... No posso ir a essa festa. A verdade  que no acredito que poderia suportar.
A irnica expresso da Wanda foi substituda por outra de preocupao. Wanda levantou para lhe rodear os ombros com um brao.
- Foi muito duro?
- Sim. Muito.
- J chorou?
- No - negou com a cabea, esforando-se por recuperar a compostura - No quero fazer um papel mais ridculo do que j fiz.
- O que  verdadeiramente ridculo  o fato de ainda no ter chorado - replicou Wanda, levando-a de novo para o banco - Anda, sente-se e apia a cabea no ombro
de uma amiga.
- No sabia que se pudesse sofrer tanto - lhe confessou Maddy enquanto as lgrimas comeavam a rolar por seu rosto.
- Isso ningum pode prever. Se soubssemos com antecipao o quanto podemos sofrer, no ficaramos a dez metros dos homens. Mas sempre voltamos para eles. Porque
s vezes o melhor est precisamente ali.
- Ele no merece que eu chore por ele.
- Nenhum homem merece. Exceto,  obvio, o adequado.
- Amo-o, Wanda.
Wanda a afastou delicadamente para olh-la nos olhos.
-De verdade?
-Sim - no se incomodou em enxugar as lgrimas-. Acontece que ele no me ama. Nem sequer deseja que eu o ame. De alguma forma, sempre pensei que quando me apaixonasse
por um homem esse amor seria correspondido, e que tudo seria maravilhoso. Mas Reed no acredita no amor.
- Isso  problema dele.
- No, tambm  meu, porque h dias e dias estou tentando esquec-lo e no posso - suspirou profundamente - Entende agora por que no posso ir a essa festa?
- Diabos, no. Entendo por que tem que ir.
- Wanda...
- Olhe, querida, v para casa, enterra a cabea na areia como um avestruz e amanh voltar a se sentir igual a hoje. O que  o que faz quando se depara com uma audincia
fria, que olha para ns como se fossemos um monto de mmias?
- Me d vontade de me esconder no camarim.
- Certo, mas o que faz?
- Fico no cenrio e me entrego ao trabalho.
- Pois ser isso que far esta noite. E suspeito que ele far a mesma coisa. Eu vi o modo que a olhava quando se apresentou nos ensaios com seu pai. Venha, se mova.
Temos que nos vestir.

Ao ver Reed de novo, Maddy experimentou uma sensao similar a que lhe produzia enfrentar o pblico. Disse a si mesma que conhecia seu papel, seus movimentos, e
que se cometesse alguma falha poderia dissimul-la sem que ningum percebesse. Escolheu um vestido sem alas, justo e sensual, com uma abertura lateral na saia que
chegava at o meio de sua coxa. Se ia fracassar, preferia faz-lo com elegncia.
Uma vez frente  impressionante casa de Edwin Valentine, apertou a campainha da porta. Sim, estava preparada para adotar uma atitude fria e tranqila, para enfrentar
qualquer situao. Com uma s exceo: que o prprio Reed, em pessoa, abrisse a porta.
E isso foi o que aconteceu. Ficou olhando sem piscar, paralisada. A surpresa de Reed no foi menor.
- Ol, Maddy.
- Ol, Reed - no sorriria. Naquele instante, simplesmente seria incapaz de faz-lo. Mas tampouco se rebaixaria ante ele - Espero no ter chegado muito cedo.
- No. De fato, meu pai j estava esperando-a.
- Ento irei saud-lo agora mesmo - ouviu uma msica procedente do corredor - Imagino que a festa esteja acontecendo ali... - e comeou a passar ao seu lado, ignorando
o n de tenso que lhe apertava o estmago.
- Maddy.
- Sim - voltou-se para olh-lo.
- Como esteve esses dias?
- Ocupada -de repente voltou a soar a campainha - E parece que voc tambm. Depois nos vemos - e voltou a andar pelo corredor, piscando energicamente para conter
as lgrimas.
A festa estava em todo seu apogeu. E Maddy tentou relaxar enquanto cumprimentava amigos e conhecidos.
- Estava comeando a pensar que tinha dado para trs - Wanda, que tinha estado falando com um dos msicos, se aproximou ao v-la.
- Isso nem pensar. Ningum poder chamar uma OHurley de covarde.
- Talvez a ajude saber que o jovem Valentine no afastou o olhar da porta durante h ltima meia hora.
- Srio? - quase foi busc-lo com o olhar, mas na mesma hora mudou de idia - No, no importa. Vamos atrs de uma taa. H champanhe?
-  obvio. O senhor Valentine  um doce. Est nos tratando como se fssemos reis. Ah, ali est Phil. Decidi deixar que me convena de que suas intenes em relao
a mim so srias. No necessariamente honorveis - acrescentou com um sorriso - Simplesmente srias.
- Phil? - interessada, Maddy observou o bailarino que fazia o casal de Wanda na obra - E como est indo com ele?
- No sei - serviu-se uma taa de champanhe - A graa est em averigu-lo.
Desejando poder estar de acordo com sua amiga, Maddy se dirigiu  mesa do buf. Come, bebe e se divirta, aconselhou a si mesma. Amanh iremos todos para a Filadlfia.
- Maddy.
Antes de que pudesse escolher entre dois canaps, Edwin se aproximou.
- Oh, senhor Valentine.  uma festa maravilhosa.
- Chame-me de Edwin, por favor. Ter que me levar se for me oferecer  dana que me prometeu.
- De acordo. Ser um prazer - com uma mo sobre seu ombro, comeou a danar com ele uma lenta melodia - Falei com meus pais. Esto em Nova Orleans, mas podero assistir
 estria da obra na Filadlfia. Espero que voc tambm possa ir.
- No me perderia isso por nada do mundo. Sabe, Maddy? Esta obra  a melhor coisa que aconteceu comigo em anos. Achei que j era hora de me aposentar e envelhecer.
- Isso  a coisa mais ridcula que j ouvi em minha vida.
- Acha isso porque ainda  muito jovem. Quando chegar aos sessenta, olhar a seu redor e dir a si mesmo: Certo, j  hora de baixar o ritmo. Merece isso. Agora
relaxe e aproveite dos poucos anos que restam.
- Poucos anos? Ora - exclamou, sorridente.
- Depois de me aposentar, dei conta de que desejava algo mais que passar as quartas-feiras jogando golfe. Precisava da juventude ao meu redor, precisava da sua vitalidade.
Entende? Reed sempre me manteve jovem.  meu filho, mas tambm meu melhor amigo.
- Ama-o muito.
Algo no tom de Maddy o fez baixar o olhar.
- Sim. Eu queria lhe dar uma oportunidade no negcio, lhe deixar a margem suficiente para trabalhar. E o tem feito muito bem. Possivelmente at demais - suspirou
- Reed dedicou sua vida inteira a empresa. Talvez esse seja o erro.
- Ele no pensa o mesmo.
- Em qualquer caso, at essa obra surgir eu no tinha pensado no que fazer. E agora acho que j encontrei.
- Broadway?
- Exato - desde do incio tinha intudo que Maddy o compreenderia. Esperava que tambm pudesse compreender seu filho - Uma vez que a obra triunfe, em Filadlfia
e depois na Broadway, dedicarei  outra. Felizmente, espero contar com uma perita para me assessorar.
Maddy leu a pergunta que brilhava em seus olhos e assentiu com a cabea.
- Eu adoraria.
- Sabia que podia contar com voc. Passei a vida inteira entre pessoas do espetculo. Vivendo deles, na realidade. E essas coisas no podem ser substitudas por
uma simples bola de golfe. Venha, vamos comer algo.
- Aceito a sugesto - suspirando, desviou o olhar para a mesa do bufe.
A orquestra comeou a tocar uma melodia mais animada que a balada anterior: um dos ltimos xitos da Broadway. No demorou muito para que Phil tirasse Wanda para
danar, para representar um nmero de dana, em meio de um clamor de assobios e aplausos. A esse casal seguiu outro. E outro.
- Vamos, Maddy - animou-a Terry a ir, tomando sua mo - Vamos demonstrar o que somos capazes de fazer.
- No  necessrio. J sabem - negou-se Maddy, disposta a provar de novo o pat.
- Nossa reputao exige isso. Lembra-se do nmero do alcance?
- Sim. Foi uma verdadeira bomba.
- Vamos, Maddy - insistiu, sorrindo - Pelos velhos tempos.
Incapaz de resistir, Maddy aceitou. E o casal no demorou para ser envolvido por um grupo de danarinos. Era um nmero lento e sensual, que requeria uma coordenao
motora to perfeita como complexa. Maddy recordou os passos como se apenas no dia anterior os tivesse ensaiado, embora seu ltimo ensaio tivesse sido a mais de quatro
anos.
- Foi estupendo - exclamou Terry, entusiasmado, quando terminaram.
Reed a estava observando. Quando Maddy descobriu seu intenso olhar, estremeceu-se dos ps a cabea. Pensando somente em escapar, virou-se e se dirigiu para o terrao.
Fazia calor. Cansada, apoiou-se no corrimo. No. Sentia falta de Reed, necessitava-o, mas no voltaria atrs. Jamais.
Intuiu sua presena a suas costas antes de ouvi-lo falar. Disse-se que tinha sido um engano pensar em escapar. No podia. Era impossvel.
- Se quiser que eu v, diga-me.
- No vou dizer isso. No tenho direito - respondeu, voltando-se para olh-lo.
- Senti sua falta - aproximou-se da balaustrada, tentando estar o mais perto possvel dela.
- Imaginei.
- Quando a vi danando com meu pai, sabe o que pensei? Que nunca tinha danado comigo.
- Porque nunca me pediu.
- Agora estou pedindo.
Estendeu uma mo para ela. Maddy a aceitou sem pensar duas vezes. Comearam a danar.
- Quando partiu de minha casa a semana passada - acrescentou-, pensei que era melhor.
- Eu tambm.
- Aps, no passou um s dia sem que eu pensasse em voc. Sem que a desejasse - lentamente, a no perceber resistncia de sua parte, deixou de danar e a beijou
nos lbios. Sua boca era to doce e convidativa como sempre. Seu corpo encaixava perfeitamente no seu, como se estivesse destinado a isso desde o comeo dos tempos.
De repente, o desejo que o tinha atravessado durante os ltimos dias se converteu em verdadeiro pnico - Maddy, quero que volte.
- Eu tambm quero - ergueu suas mos at a sua face - Mas no posso.
- Por qu? - segurou-a pelos seus pulsos enquanto o pnico crescia e crescia, sem cessar.
- Porque no posso me ajustar a suas regras, Reed. Eu no posso deixar de am-lo, e voc no quer me amar.
- Maldita seja, Maddy, est me pedindo mais do que posso dar.
- No. Jamais pediria mais do que  capaz de me dar, ou do que eu sou capaz de dar a voc. Amo-o, Reed. Se voltasse, no poderia deixar de lhe dizer isso. E voc
no poderia deixar de se ressentir comigo.
- Quero voc em minha vida - pronunciou, desesperado - No basta?
- Quem dera voc soubesse que no. Quero formar parte de sua vida. Quero que voc forme parte da minha.
- Casamento?  isso que quer? Mas que diabos  o casamento, Maddy?
- Um compromisso emocional entre duas pessoas que prometem fazer todo o possvel por manter e melhorar sua relao.
- Para melhor ou para pior - replicou - A maior parte dos matrimnios no duram. Essa instituio no significa nada.  somente um contrato legal que pode ser quebrado
por outro contrato legal, e que est acostumado a ser moralmente quebrado dzias de vezes na prtica.
Maddy sentiu que uma parte de seu ser se quebrava ao escutar aquelas palavras.
- Reed, no pode generalizar assim.
- Quantos casamentos felizes conhece? Ou, melhor dizendo, esquece o felizes, Quantos conhece que tenham durado realmente?
- Reed, isto  ridculo, eu...
- No lhe ocorre nem sequer um?
- Claro que sim - replicou, repentinamente furiosa - Os... os... Gianelli, do primeiro andar de meu edifcio.
- Sei. Os que gritam constantemente.
- Gostam de gritar - seguiu tentando se lembrar-. Sim, posso dizer mais. Ozzie e Harriet.
- D-me um tempo, Maddy.
- No - olhou-o desafiante, com as mos nos quadris - Jimmy Stewart esteve casado durante mais de cinquenta anos. Rainha Isabel e o prncipe Felipe tampouco esto
para se separar. Meus pais, pelo amor de Deus - continuou - Esto juntos a vida toda. Minha tia av J foi casada durante cinqenta e cinco anos.
De repente Reed saiu das sombras, e o que ela viu em seus olhos foi puro cinismo.
- Teve que se esforar para lembrar. Seria muito mais fcil lembrar dos casamentos que no deram certo.
- Certo, talvez. Mas no tem direito a questionar o matrimnio em sua totalidade s porque as pessoas cometem enganos. Alm disso, eu no o pedi em casamento. Somente
pedi que sinta.
- Vai me dizer que casamento no  o que quer?
- No, no vou lhe dizer isso.
- Eu no posso prometer casamento. Admiro-a, como mulher e como artista. Sinto-me atrado por voc... Preciso de voc.
- Todas essas coisas so importantes, Reed, mas so suficientes apenas para uma pequena aventura. Se no estivesse apaixonada por voc, teramos se conformado com
isso. Mas no acredito que possa suportar muito mais - voltou-se, agarrando-se ao corrimo como se fosse um salva-vidas - Por favor, me deixe.
Reed pensou que no era nada fcil lutar contra ela quando ao mesmo tempo estava lutando contra si mesmo. No vendo outra sada, retrocedeu, disposto a partir.
- Isto no terminou. Por mais que ambos preferissem que fossem ao contrrio.
- Possivelmente no - respondeu ela, suspirando - Mas esta  a ltima vez que fao papel de ridculo com voc. Deixe-me em paz.
No instante em que Reed partiu, Maddy fechou os olhos com fora. No choraria. Depois que se recuperasse um pouco, voltaria para salo, apresentaria suas desculpas
o Edwin e iria a casa. No seria uma fuga. Simplesmente tinha que enfrentar  realidade.
- Maddy.
Voltou-se e viu o Edwin. Com apenas um olhar compreendeu que no o enganaria com um sorriso forado.
- Sinto muito, escutei uma boa parte da discusso. Tem direito a estar zangada comigo. Mas Reed  meu filho e o quero.
- No estou zangada. O que passa  que... Tenho que ir.
- Levo-a para casa.
- No, tem que atender seus convidados. Tomarei um txi.
- Relaxe, no sentiro minha falta - adiantou-se para segurar seu brao - Quero lev-la para casa, Maddy. H algo que tem que saber.
Falaram pouco durante o trajeto  casa de Maddy. Edwin parecia absorto em suas reflexes. Seu nico comentrio, expresso quando subiam para seu apartamento, versou
sobre a falta de segurana do edifcio.
- Sua fama cresce cada vez que sobe ao cenrio, Maddy. E por isso ter sempre que pagar um preo.
No corredor envolto a penumbra, Mal olhou ao seu redor enquanto procurava as chaves em sua bolsa. Ali nunca tinha sentido medo, embora intusse que o tempo que tinha
passado no efmero e bomio mundo dos ciganos estava chegando ao fim.
- Prepararei um ch - convidou-o uma vez l dentro, deixando Edwin na sala.
- Esta casa se encaixa perfeitamente com sua personalidade, Maddy - comentou ele minutos depois -  alegre, acolhedora, sincera - sorriu ao ver o letreiro de non,
enquanto se sentava em uma cadeira - Temo que vou envergonh-la dizendo isto, mas a vai: admiro de verdade o que tem feito com sua vida.
- No me envergonho. E sim me sinto agradecida.
- No basta apenas ter talento. Eu sei bem. Vi muitssimas pessoas com talento cair no esquecimento s porque no tiveram fora ou confiana suficiente para chegar
ao topo. Voc j conseguiu, e  como se no tivesse se dado conta disso.
- No sei se consegui ou no. O que sei  que sou feliz onde estou.
- V? Voc gosta de onde est. Gosta de voc mesma - aceitou a xcara de ch. De repente mudou de tema, pondo uma mo sobre a sua-. Reed precisa de voc.
- Possivelmente em algum aspecto - retraiu-se, porque falar de Reed doa muito - Mas descobri que preciso muito mais do que isso.
- Ele tambm, Maddy. Ele tambm, mas  muito teimoso, e talvez tambm medroso, para admitir.
- No entendo por que. No entendo por que  to... Interrompeu-se - Sinto muito.
- No sinta. Maddy, Alguma vez Reed falou de sua me?
- No.  um dos temas proibidos entre ns.
- Acredito que tenha direito de saber - suspirou e deu um gole no ch - Se no estivesse to seguro de que o ama, e que  a mulher adequada para ele, jamais lhe
contaria isto.
- Edwin, no quero que me diga algo que Reed no queira que eu saiba. Ou que lhe desgoste que eu saiba.
- Vejo que se preocupa por ele. E  por isso mesmo que vou lhe dizer - deixou a xcara sobre a mesa e se inclinou na direo dela-. A me do Reed era uma mulher
impressionantemente bela. Continua sendo, estou certo, embora faa anos que no a vejo.
- E Reed?
- Tampouco. Nega-se a faz-lo.
- Nega-se a ver sua me? Como pode...?
- Uma vez que lhe explique, possivelmente o entenda - pronunciou com tom cansado - Elaine e eu ramos muito jovens quando nos casamos. Eu tinha algum dinheiro de
minha famlia, e ela trabalhava cantando em clubes e locais noturnos da pior qualidade. J sabe ao que me refiro.
- Sim,  obvio.
- Tinha talento. O suficiente para que, com um bom assessoramento, pudesse ganhar vida decentemente nessa profisso. Eu decidi ser seu empresrio. E logo decidi
me casar com ela. Foi algo quase to perfeito como imagina, e sinto diz-lo, porque estava acostumado a conseguir sempre o que queria. Durante um ano ou dois, a
coisa funcionou. Ela era grata pelo que eu tinha feito a sua carreira. E eu por ter uma esposa to bela. Amava-a, e me esforcei muitssimo para lev-la at a fama,
pois era isso que ela ansiava, o que mais queria na vida. Mas, de alguma forma e em algum momento, as coisas comearam a mudar. Elaine comeou a mostrar-se impaciente.
Edwin fez uma pausa, tomando um gole de ch. Tinha dado a sua mulher tudo o possvel, e mesmo assim nunca ficara satisfeita. Maddy o olhava sem atrever-se a interromp-lo.
- Era muito jovem - continuou - Queria os melhores contratos, no bastava os que eu lhe conseguia. E comeou a me ver como um obstculo em sua carreira.
- Possivelmente no o compreendia bem.
- Ou possivelmente ao contrrio. O caso  que eu me sentia muito confuso pelo que estava acontecendo. Nosso matrimnio estava em crise. J tinha aceitado o fato
de que tudo tinha terminado quando me disse que ia ter um filho. Voc  uma mulher moderna, Maddy. E sensvel tambm. Deveria ser capaz de compreender o quanto eu
ansiava ter filhos, j que era o que tinha desejado sempre... Ela no.
Maddy baixou o olhar a sua xcara de ch.
- Entendo.
- Elaine estava desesperada para triunfar. Por fim teve Reed. Eu acabava de lhe conseguir outro pequeno contrato para produzir um disco.
- Por ento, ainda a amava.
- Sim, continuava sentindo algo por ela. E tinha Reed. Quando nasceu, acreditei ter recebido o melhor presente do cu. A partir desse momento, minha vida mudou.
Queria conseguir tudo para ele. Tracei um objetivo na vida. Nada mais me importava. Podia perder um cliente, um contrato, mas meu filho sempre estaria comigo.
- Sim - assentiu Maddy - Uma famlia sempre mantm com os ps bem firmes na terra.
- Isso. Antes de continuar, quero que saiba que Reed nunca me deu mais que prazer e alegria. Jamais o considerei uma carga, ou um dever.
- No precisa me dizer isso. Percebo.
- Quando Reed estava com cinco anos - continuou Edwin - Eu sofri um acidente. Fizeram vrios testes no hospital - a voz lhe estava mudando, e Maddy se inquietou
- Um dos testes me confirmou que era estril.
- No entendo...
- No podia ter filhos. Eu no gerei Reed.
- Oh, Edwin...
- Falei com a Elaine. Nem sequer tentou mentir. Acredito que j estava cansada de mentiras. Nosso matrimnio estava acabado, e ela j sabia que nunca chegaria a
ser uma grande estrela. Tinha havido outro homem, um sujeito que desapareceu depois que se inteirou que a tinha deixado grvida - suspirou-. Aquilo produziu nela
uma terrvel decepo. Estava certa que me enganaria em relao ao beb, porque eu no suspeitava nada. Tinha continuado ao meu lado porque, no fundo, sabia que
nunca teria sado daqueles clubes de m reputao sem mim. Elaine sempre foi uma mulher muito inquieta, e ao ver que tudo tinha terminado, no me esperou. Quando
sa do hospital e voltei para casa, me contaram que j tinha partido... Depois de deixar Reed aos cuidados de uma vizinha - interrompeu-se, torturado por aquela
dolorosa lembrana - Maddy, ela... O disse.
- Oh, Meu deus - exclamou, emocionada - Pobrezinho.
- Eu no me comportei muito melhor. Tinha que ir, assim paguei  vizinha e deixei Reed com ela, como Elaine tinha feito. Estive fora por um ms, tentando reunir
dinheiro para financiar Discos Valentine. At que conheci sua famlia, no estava muito seguro de querer voltar.  duro aceitar isso.
- Estava muito magoado. Voc...
- Reed ficou destroado - acrescentou - Eu no pensei no efeito que produziria nele a notcia. No quis pensar nisso. Tentei esquecer de tudo o que tinha deixado
atrs. Ento conheci seus pais. E, naquela nica noite, compreendi o que significava realmente uma famlia.
Maddy elevou o olhar para ele. Estava chorando.
- E dormiu em um colcho, em seu quarto.
- Fui testemunha do amor que se professavam seus pais e que professavam a seus filhos. Foi como se algum de repente tivesse aberto um vu para me mostrar o verdadeiro
significado da vida, o que realmente importava de verdade. Chorei muito. Seu pai me levou para tomar algo em um bar e eu o contei tudo. Deus sabe por que.
- Sempre  fcil falar com estranhos
- Escutou-me at o final, e se compadeceu, embora no tanto quanto eu acreditei que merecia - depois de tantos anos, Edwin sorriu ao evocar aquela lembrana. Tinha
um copo de usque na mo. Tomou um golpe, deu uma palmada no ombro e me disse que tinha um filho em quem pensar. Que devia voltar para casa em seguida. Viu tudo
muito claro, e tinha razo. Nunca esqueci o que fez por mim ao me revelar com tanta simplicidade  verdade.
Maddy tomou as mos e as apertou, comovida.
- E Reed?
- Era meu filho, sempre o tinha sido e sempre o seria. Fui um estpido de ter esquecido disso.
- No tinha se esquecido - murmurou - Eu no acredito que o esqueceu.
-  verdade. No mais profundo de meu ser, no me tinha esquecido. Lembro-me que estava brincando sozinho, em um jardim. Aquele menino, com apenas seis anos, voltou-se
de repente e me olhou com aquele olhar de adulto... - estremeceu - Nunca fui capaz de apagar aquela terrvel lembrana, quando vi em seus olhos o que sua me e eu
lhe tnhamos feito.
- No tem motivos para se culpar de nada. No - acrescentou quando Edwin se dispunha a protestar - Vi os dois juntos. No tem que se culpar de nada.
- Fiz todo o possvel por compens-lo, para fazer que as coisas voltassem para a normalidade. Na realidade, no demorei muito tempo em esquecer o que tinha feito
sua me. Mas Reed no esqueceu. Ainda continua carregando aquela amargura que vi em seus olhos, Maddy, quando tinha somente seis anos de idade...
- Tudo o que me contou explica o comportamento do Reed comigo - pronunciou Maddy, inspirando profundamente - Mas, Edwin, no sei o que posso fazer...
- Ama-o, certo?
- Sim, amo-o.
- Ento voc j fez tudo. Por fim est comeando a confiar em algum. No lhe tire isso agora.
- Ele no quer o que eu tenho para lhe dar.
- Claro que quer, e o aceitar. No o deixe.
Maddy se levantou, abraando-se.
- Est certo de que sou o que Reed precisa?
-  meu filho. Sim, estou seguro.

Reed no podia dormir. Tinha estado a ponto de ceder ao impulso de procurar o esquecimento em uma garrafa de usque, mas ao final tinha preferido o triste consolo
da autocompaixo.
A perdera. Porque no tinham sido capazes de aceitar um como era o outro, a perdera. Certamente, Maddy estaria muito melhor sem ele; disso tinha certeza. E tambm
de que ela era a melhor coisa que j tinha acontecido em sua vida.
A magoara, tal e como sempre soubera que aconteceria, mas... No era estranho que ele tambm estivesse sofrendo tanto?
No dia seguinte, Maddy iria para Filadlfia. O melhor que tinha a fazer era esquec-la, e deixar a promoo do musical e a edio do lbum nas mos de seu pai. Sim,
expulsaria de sua memria todas as lembranas relativas  Maddy OHurley.
Quis aproximar-se das janelas, mas se lembrou de como Maddy tinha gostado delas. Amaldioando entre dentes, voltou sobre seus passos.
A campainha da porta o surpreendeu. No estava acostumado a receber visitas a uma da madrugada. Como no queria que o importunassem, ignorou os golpes. Mas estes
continuaram, teimosos. Irritado, finalmente foi abrir.
- Ol - era Maddy a que estava na soleira, com sua mochila ao ombro e as mos afundadas nos bolsos de uma ampla saia jeans.
- Maddy...
- Estava no bairro -comeou a dizer, e entrou no apartamento sem que a convidasse a passar - e decidi passar por aqui. No o acordei, verdade?
- No, eu...
- Bem. Eu no gosto que me acordem. Assim... - deixou cair  bolsa - No me vai oferecer uma taa?
- O que est fazendo aqui?
- J disse que estava no bairro.
Sem prvio aviso, aproximou-se dela e a segurou pelos ombros.
- O que est fazendo aqui? - repetiu.
- No sabe? No podia ficar longe de voc - respondeu, inclinando a cabea.
Antes de que pudesse evit-lo, Reed estendeu uma mo e lhe acariciou o rosto. Depois a deixou cair.
- Maddy, faz apenas algumas horas...
- Disse um monto de coisas - terminou por ele-. E todas eram certas. Amo-o, Reed. Quero me casar com voc. Quero passar o resto de minha vida com voc. E acredito
que poderamos ser muito felizes. Mas at que consiga fazer voc pensar o mesmo, acho que terei que esperar. Pegar um desvio para chegar a meu objetivo.
- Est cometendo um erro.
- Reed, outra vez est pensando e atuando por mim. Eu tomo minhas prprias decises. E realmente eu gostaria de tomar algo. Tem gua com gs?
- No.
- De acordo, usque ento. Reed,  uma grosseria negar uma bebida a uma visita.
Reed continuou agarrando pelos ombros durante alguns segundos, at que no pde mais. Rendendo-se, apoiou a face contra a sua.
- Preciso de voc, Maddy.
- Sei - envolveu-lhe o rosto entre as mos - E me alegro que saiba.
- Se pudesse lhe dar o que quer...
- J falamos bastante disso no momento. Amanh vou para Filadlfia.
- J sei.
- Assim agora no quero falar. Nem discutir. Ao menos por esta noite.
- De acordo. Vou servir-te essa taa - dirigiu-se ao mvel das bebidas.
- Sabe, Reed? Ainda sigo experimentando uma sensao muito estranha ao me despir em um cenrio.
No pode fazer mais nada que rir. De alguma forma, Maddy sempre o fazia rir.
- Quero dizer que no me desnudo mais do que me despiria em uma praia pblica usando um traje de banho, mas mesmo assim, o ato de me despir ainda me  estranho.
E dentro de uns dias terei que faz-lo diante de centenas de pessoas. Assim preciso de muita prtica...
Quando Reed se voltou, Maddy estava sorrindo enquanto desabotoava lentamente a blusa.
- Pensei que voc poderia me dar uma opinio imparcial sobre minha atuao nesse nmero em particular. J sabe que despir-se  uma arte - entreabriu a blusa - Uma
verdadeira... Voltou-se de costas e o olhou, sedutora, por cima de um ombro -... Arte - deixou que a blusa escorregasse por seu corpo - O que voc acha?
- Acho que est fazendo muito bem.
- S quero me assegurar de representar o papel de Mary de uma forma verossmil - desatou-se o cinturo da saia e a deixou cair ao cho enquanto se voltava.
Reed deixou de lado a taa ao ver a diminuta roupa de baixo negra, com cintas, que usava.
- Nunca a tinha visto usar isso.
- Isto? - deslizou uma mo ao longo de seu corpo - Na verdade no  meu estilo. No  o confortvel o suficiente. Bom, o que acha?
- Acho que no vou deixar voc subir no cenrio usando isso.
Rindo, desabotoou uma liga.
- Tem que se lembrar que quando se ergue o pano de fundo no me ver, e sim Mary - tirou uma meia, fazendo uso de uma consumada tcnica, e logo fez o mesmo com a
outra - Ainda no me serviu uma bebida.
- Sinto muito, estava distrado - pegou seu copo e o ofereceu.
Maddy o aceitou, e por um fugaz instante o brilho de humor que danava em seus olhos se tornou um pouco mais profundo.
- Bom, agora  srio, o que pensa do nmero? Acha que vai valer a pena pagar para v-lo?
Reed queria ser terno. Queria ser terno e delicado para lhe mostrar o quanto significava para ele que houvesse voltado. Mas as mos que tinha enterrado em seu cabelo
parecia haver-se esticado de repente com uma inconcebvel urgncia.
- Nunca a tinha desejado tanto.
Maddy jogou a cabea para trs, deixando a taa de lado.
- Mostre-me.
Abraou-a, desesperado. Aquela foi a primeira, a nica vez que Maddy o sentiu perder o controle desde do incio. O corao comeou a pulsar a toda velocidade, antecipando-se
ao que viria. E deixou que a deitasse brandamente no cho. Acariciou-a por toda parte, por inteiro. Arrastou-a a uma cpula de prazer onde somente podia gemer seu
nome e pedir mais.
E houve mais. Muito mais.
Impaciente, terminou de despi-la. Com a mesma urgncia, Maddy desamarrou o cinto do robe procurando seu corpo nu.
Sentia o contato quente e suave do tapete sob as costas. E a dureza do corpo do Reed sobre o seu. Ouviu o sussurro de ou nome em seus lbios.
Nunca tinha experiente um orgasmo to rpido, to furioso, to desenfreado. Deixou-se arrastar por um redemoinho de prazer. O amor e a paixo se mesclaram intimamente,
at dissolver um na outra.
Ela estava ali por ele. E ele por ela.


Captulo 10

- Seria melhor que descssemos e segussemos a p - protestou Wanda.
Maddy diminuiu a velocidade ao se aproximar de outro buraco.
- Onde est seu senso de aventura? - perguntou-lhe, sorrindo.
- Perdi-o dois quilmetros atrs, nessa sarjeta em que camos.
- No era uma sarjeta - corrigiu-a Maddy enquanto seguia conduzindo pelo centro da Filadlfia - Por que no olha pelas janelas e me avisa quando passarmos diante
de algum edifcio de grande significado histrico?
- No posso olhar pelo guich - Wanda cruzou suas longas pernas, procurando uma posio mais cmoda. No era tarefa fcil, j que o carro que sua amiga tinha alugado
no podia ser menor - Enjo quando vejo os edifcios passarem.
- Os edifcios no passam, e sim o carro.
- Isso tambm - replicou Wanda - Na verdade, por que  que alugou esta sucata?
- Porque no entendo absolutamente nada de carros.  isso o Independence Hall?
Quando Maddy estirou o pescoo para ver melhor, Wanda lhe deu um tranco no ombro.
- Querida, no se distraia se quiser que voltemos ss e salvas a Nova Iorque.
Maddy freou bruscamente ante um semforo.
- Eu adoro conduzir - confessou com tom desenvolto.
- Tambm h pessoas que gostam de saltar dos avies - murmurou Wanda.
- Em Nova Iorque teria um carro se tivesse pelo menos alguma oportunidade de us-lo. De quanto tempo dispomos?
- Quinze minutos - respondeu, estremecendo quando sua amiga voltou a arrancar - Sei que deveria ter perguntado isto antes de subir neste carro contigo, mas... Quanto
tempo faz que no conduz?
- Oh, no sei. Um ano, possivelmente dois. Poderamos visitar essas lojinhas do South Street depois do ensaio.
- Se estivermos vivas - resmungou Wanda, e pisou em um freio imaginrio quando Maddy passou roando em outro carro - Sabe, Maddy? Qualquer que a visse pensaria que
 a mulher mais feliz do mundo. Entretanto eu, que h conheo um pouco, sei que esse sorriso que permanentemente tem costurado no rosto  um pouquinho falso.
Maddy voltou a diminuir a velocidade quando se aproximou de outro buraco.
-  to bvio?
- O suficiente. Como que vai com o senhor Maravilha?
- Quando o vejo, bem - suspirou.
- Parece o tipo de pessoa que semana que vem vai precisar de agarrar-se bem a algo ou algum.
Maddy se disse que aquilo era certo, muito certo, mas negou com a cabea.
- Ele tem uma boa razo para se sentir assim.
- Mas isso no muda o que sente por ele.
- No. Sabe, Wanda? Quando as pessoas comentavam que a vida era muito complicada, eu no acreditava isso. Vou lhe fazer uma pergunta pessoal, quando se casou achava
que seu casamento duraria para sempre.
- Suponho que eu sim e ele no.
- Bom, voc...? Quero dizer que... Se conhecesse algum que gostasse realmente, casaria com ele?
- Outra vez? - Wanda riu, por um puro reflexo, mas depois refletiu sobre a pergunta - Se fosse um tipo maravilhoso, suponho que sim. Sem duvid-lo. Se me apresentasse
a oportunidade, aproveitaria-a. Como a loteria. No era aqui que tnhamos que entrar?
- Entrar? Oh, maldio - exclamou Maddy - Agora sim que vamos chegar tarde ao ensaio.
- Em todo caso, ser melhor que tire primeiro a esse sujeito da cabea.
- Eu tinha a esperana que ele aparecesse. Sabia que era irreal esperar que ficasse toda a semana aqui enquanto eu me dedicava a ensaiar, mas de todo jeito tnhamos
combinado que viria hoje.
- E no apareceu.
- Surgiu uma emergncia, ou algo assim. No foi muito explcito sobre isso. Algo a respeito de um problema com os promotores.
- Todos estamos ocupados com um monto de coisas, garota. No se preocupe.
- Eu sei - com uma habilidade que Wanda s pode admirar, Maddy estacionou em um minsculo espao que havia em frente ao teatro - Acho que ser melhor me dedicar
ao que tenho nas mos Restam apenas dois ensaios para a estria.
- No me lembre - exclamou Wanda - Cada vez que penso nisso, meu estmago.
- Vai estar estupenda - assegurou-lhe Maddy, saindo do carro e fechando a porta. Em uma esquina do edifico, algum estava vendendo flores. Prometeu-se que compraria
uma depois do ensaio - Estaremos estupendas.
- Tentarei me lembrar disso. A ltima obra na qual participei suspendeu depois de duas atuaes. Pensei muito seriamente em acender o gs e colocar a cabea no forno.
Mas acontece que era eltrico.
- Vou te dizer uma coisa - pronunciou Maddy, detendo-se a entrada do teatro - Se fracassarmos, sempre poderemos usar meu forno. Eu tenho gs para as duas.
- Agradeo-a por isso.
- Para isso so as amigas - empurrou a porta e entrou. No final do corredor distinguiu um grupo de pessoas. E ficou sem fala - Hey, j esto aqui! A famlia completa!
- Quem esperava a no ser ns? - perguntou-lhe Frank OHurley, erguendo-a nos braos.
- Vieram todos! - quando voltou a pr os ps no cho, Maddy abraou sua me emocionada - Est com um aspecto fenomenal.
- Voc tambm - respondeu Molly - E chegou tarde ao ensaio, como  habitual.
- Errei o caminho quando vinha para c... Oh, Abby - saudou sua irm - Estou to contente de que tenha podido vir... Temia que no pudesse sair da fazenda.
- No podia faltar. Uma estria de minha irmzinha sempre  um acontecimento...
Abby, entretanto, olhava-a com uma sombra de preocupao. Conhecia Maddy muito bem, e no acreditava que sua aparente tenso se devesse  obra.
Sem soltar sua irm, Maddy se apressou a saudar seu cunhado.
- Dylan, obrigado por ter vindo.
- Acredito que eu devo agradecer pelo convite - beijou-a no rosto sorrindo - Mas de nada.
- Que pena que no tenham trazido os meninos... - comentou Maddy, dando uma piscada para Abby.
- Estamos aqui.
Deliberadamente, Maddy olhou na direo contrria aonde tinha procedido  voz.
- Ouvi algo? Teria jurado que... - interrompeu-se quando olhou por fim seus sobrinhos. Abriu muito os olhos, adotando uma expresso de imenso assombro - Vocs no
podem ser Ben e Chris! Eles so uns garotos pequenos, e vocs so muito altos.
-  que crescemos - exclamou Chris.
Maddy os observou com ateno.
- So vocs mesmo?
- Vamos, Maddy - Ben sorriu - Sabe que sim.
- Vai ter que demonstrar isso me dando uma abrao - e se agachou para abra-los.
- Voamos de avio - contou-lhe Chris, entusiasmado - E fui na janela.
- Senhorita OHurley, a chamam no guarda-roupa - chamaram-na pelo auto falante.
- Agora tenho que ir - soltou seus sobrinhos, erguendo-se - Bom, onde vocs vo ficar? H uma lista completa de hotis na recepo do teatro. Posso...
- J nos registramos em seu hotel - informou-lhe Molly.
- Estupendo. Vo ficar para o ensaio?
- Acha que algum se atreveria a nos impedir - perguntou Frank.
Naquele instante recebeu uma segunda chamada do som.
- Tenho que ir. Logo que tiver tempo vamos sair e celebrar. Eu convido.
Frank passou um brao pelos ombros de sua esposa, rindo.
- Acaso esperava que nos fssemos negar? Venha, vamos sentar na primeira fila.

- O senhor Shelby - pronunciou Hannah enquanto o fazia entrar no escritrio de Reed.
- Obrigado, Hannah. No me passe nenhuma chamada - sabia que esse dia no haveria caf nem pasteizinhos. Conseguiu inclusive ver a expresso desaprovadora de sua
secretria antes que fechasse a porta - Sente-se, Shelby.
- Suponho que o velho deve estar orgulhoso de voc - Shelby contemplou o escritrio antes de sentar-se comodamente-. Est arriscando alto. Ouvi dizer que contratou
aquele pequeno grupo de D.C. Um movimento arriscado.
Reed se limitou a arquear uma sobrancelha, sustentando seu olhar. Sabia que Galloway tinha oferecido a aquele mesmo grupo um contrato. Valentine simplesmente lhe
tinha oferecido um melhor.
- No nos importa correr alguns riscos.
- Sempre  uma dor de cabea conseguir que as emissoras coloquem um novo talento em suas listas de sucesso. E um talento desconhecido que vem por baixo sem uma slida
promoo - Shelby tirou um comprido e fino charuto de seu estojo - Por isso estou aqui. Pensei que seria mais prudente que falssemos antes da reunio do APD que
acontecera esta tarde.
Reed esperou em silncio que acendesse o charuto. Quando soube que Shelby tinha lhe pedido uma entrevista, compreendeu que estava assustado. A Associao de Produtoras
Discogrficas no convocava reunies todos os dias. E naquela mesma tarde as principais empresas do setor votariam se a organizao devia ou no investigar os promotores
independentes. Algumas das maiores companhias, inclusive a Galloway, ainda se apoiavam em promotores independentes, embora a sombra do escndalo, os subornos e a
corrupo manchavam esse tipo de atividades.
- Olhe, Valentine, nenhum dos dois comeou ontem com este negcio. Ambos sabemos que o principal  ter msica rodando. Sem a musica rodando nas principais emissoras
do pas, um disco morre, por melhor que seja.
Reed percebeu que estava suando. Tinha os nervos  flor de pele. Perguntou-se o que poderia acontecer se a Galloway passasse por uma completa investigao.
- Shelby, pagar pelo tempo nas emissoras  como montar um cavalo doente. Mais cedo ou tarde cair e arrastar voc com ele.
Soltando uma baforada de fumaa, Shelby se inclinou em sua direo.
- Ambos sabemos como funciona isto. Se para conseguir sucesso preciso molhar algumas mos de diretores de emissora no caminho, que mal h?
- E se esse diretor se negar e receber ameaas?
- Isso  absurdo - exclamou, mas uma gota de suor corria pela face.
- Se  ou no, somente uma investigao poder esclarec-lo. Enquanto isso, Discos Valentine trabalhar sem recorrer a promotores independentes.
- Inocncia de sua parte - espetou-lhe Shelby, levantando-se - As quarenta principais emissoras estabelecem continuamente suas listas de sucessos. Se um novo disco
no figurar nessas listas,  como se no existisse. Assim funciona o sistema.
- Ento o sistema necessite uma reforma.
-  to obtuso e to curto de idias como seu velho.
Um frio sorriso apareceu nos lbios de Reed.
- Obrigado.
- Para voc  muito fcil, no? - exclamou Shelby, amargurado - Est aqui sentado, em seu confortvel e acolhedor escritrio, sem sujar nunca as mos. Porque seu
papai j o fez por voc.
Reed acabou por perder a pacincia.
- Meu pai tem as mos absolutamente limpas. Valentine jamais recorreu nem recorrer ao suborno, s rasteiras ou s ameaas para manter-se.
- No pode ser to inocente, Valentine.
- Volte-me a me dizer isso dentro de umas horas, quando Discos Valentine votar a favor de uma investigao completa.
- Nunca funcionar - replicou Shelby enquanto apagava seu charuto com dedos trmulos. Tinha ido ver o Reed porque sabia que Valentine possua a reputao e o poder
suficiente para inclinar a votao para o lado que quisesse. Se sentia sufocado. Teve que afrouxar o n da gravata - Muitas produtoras sabem onde est o segredo
de sua profisso. Inclusive embora encontrem algo, eu no perderei. Oh, possivelmente rodem algumas cabeas, mas no a minha. H dez anos, Galloway estava em crise.
Hoje  um dos principais selos do mercado. E eu o consegui porque joguei esse jogo, me ative s regras. Quando a poeira abaixar, Valentine, eu ainda estarei acima.
- Estou seguro disso - murmurou Reed enquanto Shelby abandonava irado seu escritrio. Os homens como ele nunca pagavam por seus atos. Tinham ao seu dispor muitos
desgraados para limpar seu caminho. Se Reed tivesse desejado uma vingana pessoal, teria iniciado uma investigao particular. Tinha uma informao sobre um discotecrio
que tinha recebido uma surra s por negar-se a pr certos discos. Tambm tinha o caso do diretor de programas de Nova Orleans, cuja esposa tinha sido ameaada. Havia
outro que fazia freqentes viagens a Las Vegas e gastava verdadeiras fortunas no jogo. Fortunas que nunca teria podido ganhar honestamente com seu salrio. Aquilo
formava parte do jogo a que se referia Shelby.
Mas se fosse pouco provvel que Shelby chegasse a pagar por seus atos... Quem o faria?
Levantou-se e revisou o contedo de sua maleta. Era certo que tinha assumido o controle do negcio quando j estava baseado e estabelecido. No tinha tido que se
esforar para levant-lo. Se tivesse tido que faz-lo, teria cansado nos mesmo manejos que Shelby? Como no sabia, nem podia estar seguro, decidiu deixar essa investigao
nas mos da Associao de Produtoras Discogrficas. Morava-se uma reunio longa e desagradvel, pensou enquanto saa do escritrio.
- Hoje no retornarei, Hannah.
- Boa sorte, senhor Valentine. Recebeu vrias chamadas enquanto esteve falando com esse homem.
- Alguma importante?
- No, nada que no possa esperar a senhorita OHurley telefonou - Hannah lhe lanou o mais inocente de seus sorrisos e permaneceu  espera de sua reao. A hesitao
de seu chefe lhe disse tudo o que precisava saber.
- Se voltar a ligar, lhe diga...
- Sim, senhor Valentine?
- Diga que ligarei.
A decepo escureceu por um instante os traos de sua secretria.
- Ah, senhor Valentine...
- Sim?
Podia perceber sua impacincia, mas o pressionou ainda um pouco mais.
- Estava me perguntando se viajaria no final a Filadlfia para a estria. Porque, se no ser assim, possivelmente gostaria que me encarregasse de enviar algumas
flores para a senhorita OHurley.
Reed pensou na reunio que teria logo, em todo o trabalho que no podia ser ignorado. Evocou o rosto do Maddy. Seus sentimentos e necessidades, as dela e as dele,
eram realmente os mesmos ou estavam to afastados que jamais poderiam chegar a coincidir?
- Meu pai sim que ir. Se eu no for, estaremos representados.
- Entendo - respondeu Hannah, dedicando-se a ordenar os papis de seu escritrio.
- Eu me encarregarei das flores.
- Ser melhor que o faa... - murmurou Hannah entre dentes, zangada, quando seu chefe abandonou o escritrio.

Tinha ido bem. Maddy se deixou cair na cama enquanto evocava o ensaio. Tinha sido perfeito.
A noite do dia seguinte. A noite do dia seguinte, h essa mesma hora, estaria em seu camarim. Vinte e quatro horas. Rodou de costas e ficou olhando para o teto.
Como diabos ia agentar a espera daquelas vinte e quatro horas?
Reed no lhe havia devolvido a chamada. Girou a cabea para olhar o telefone que descansava sobre a mesinha. Somente tinha falado algumas vezes com ele desde que
saiu da Filadlfia, e em todas tinha percebido que novamente estava tentando distanciar-se dela. Possivelmente j o tinha conseguido.
A uma bailarina a dor nunca era esquecida. Sentia-a, inundava-se nela e a superava. Um desengano amoroso podia ser bem mais difcil agentar que uma contractura,
mas o superaria. Sobreviveria. Sempre tinha sido uma sobrevivente.
Sua famlia estava ali, ao seu lado. Levantou-se da cama e foi para o armrio. Trocaria-se, colocaria um sorriso no rosto e levaria sua famlia para dar uma volta
pela cidade. No era todo mundo tinha tanta sorte como ela, lembrou-se enquanto se despia. Contava com uma famlia que a queria e que no a abandonaria jamais.
Estava no topo de sua carreira. E mesmo que o sucesso lhe casse das mos, seguiria danando. Se tivesse que voltar para os clubes, atuar em pequenos palcos, faria-o
prazerosamente. Seria igualmente feliz.
Maddy OHurley no precisava de um homem que completasse sua vida, porque sua vida j estava completa. Gostava de ser quem era, e estar onde estava. Se Reed decidisse
sair de sua vida, ela se... De repente se apio no armrio, suspirando. Sim, era muito possvel que se transformasse na pessoa mais desgraada do mundo. Mas no,
no queria que ele a salvasse ou protegesse de nada. Precisava que a amasse, e embora duvidasse que Reed pudesse compreender, precisava que ele a deixasse am-lo.
Quando ouviu que batiam na porta, Maddy estava perigosamente perto da depresso.
- Quem ?
- Abby.
Sem atar o cinturo da bata, foi abrir. Ali estava Abby, to bela como sempre, vestida com um elegante vestido branco.
- Oh, voc j est pronta. Eu nem sequer comecei a me vestir.
- Vim antes porque queria conversar um momento com voc antes de sair.
- Antes de que me diga algo, tenho que te dizer que est maravilhosa. Talvez seja Dylan, quem sabe seja o clima do campo, mas a verdade  que nunca tinha tido to
bom aspecto.
- Possivelmente seja a gravidez.
- O que?
- Descobri um pouco antes que sassemos de casa - a segurou pelos ombros, entusiasmada - Vou ter outro beb.
- Oh, Meu deus. Abby, isso  maravilhoso. Acho que vou chorar.
- Certo. Mas vamos sentar antes.
Maddy procurou sem xito um leno nos bolsos da bata.
- Como Dylan reagiu?
- Ficou esttico - Abby comeou a rir enquanto se sentavam na cama - Escuta - tomou as mos - Esta noite, durante o jantar, vamos fazer o anncio oficial.
- Fico feliz por voc - abraou-a, emocionada.
- Sei, sei. Mas agora quero que me conte algo. Quando Chantel me ligou, disse-me que estava louca por um cara...
- Estava - murmurou Maddy - Mas j no estou. No  de meu estilo.
- Quem ? - perguntou-lhe Abby, descalando-se.
- Chama-se Reed Valentine.
- De Discos Valentine?
- Exato. Como sabe?
- Ainda continuo mantendo certo contato com a indstria do espetculo. E Dylan trabalhou com ele em um livro, h algum tempo.
- Sim, Reed me disse isso.
- E?
- E nada. Conheci-o, apaixonei-me por ele e fiz papel de ridculo - tentou manter um tom de voz leve e descontrado, e esteve a ponto de conseguir-. E agora aqui
estou, sentada e esperando  que o telefone toque como uma adolescente apaixonada.
- Quando tinha quinze anos, no teve muitas oportunidades de ser uma adolescente apaixonada.
-  um homem bom, Abby. Doce e bom, embora jamais se definisse a si mesmo com essas palavras. Posso te falar dele?
- J sabe que sim.
Comeou o relato pelo princpio, sem se esquecer de nada. Abby a escutou com sua calma e serenidade habituais. O contou tudo: o amor, os compromissos, o trauma que
tinha sofrido Reed durante sua infncia.
- Como v, por mais que o ame, no posso mudar o que aconteceu. Nem tampouco sua capacidade, ou sua disposio para sentir.
- Sinto muito - passou um brao pelos ombros, comovida - Sei quanto doloroso isso pode ser. S posso dizer que estou absolutamente segura de que, se ele a ama o
suficiente, voc poder fazer verdadeiros milagres. Sabe? Dylan no queria me amar, negava-se. E o certo  que eu tampouco queria am-lo. Ambos tnhamos decidido
no nos arriscar nunca a voltar a contrair esse tipo de compromissos. Era uma deciso muito lgica, tomada por dois adultos responsveis - sorriu, apoiando a face
contra a de Maddy-. Mas o amor o atrapalhou tudo. E o varreu tudo exceto o que realmente importava.
- Tentei me dizer o mesmo. Mas, Abby, ele foi sincero comigo. Desde o comeo me deixou claro que no queria comprometer-se. Que a nossa seria uma relao casual.
Fui eu quem teve que aceitar, e fazer os ajustes necessrios.
- Isso  muito lgico. O que aconteceu com aquele otimismo que sempre a caracterizou, Maddy?
- Acho deixei isso em casa.
- Ento v busc-lo. Isto de chorar s escondidas e se auto-compadecer no  prprio seu. Voc sempre enfrentou as situaes difceis e no retrocedeu at que as
resolvesse a sua maneira.
- Isto  diferente.
- No, no . Sempre invejei sua confiana, sua segurana em voc mesma. Eu, ao contrrio que voc, sempre tive medo de fracassar.
- Oh, Abby...
-  certo, e no pode me decepcionar agora. Se o amar, se o ama de verdade, ento enfrente e no ceda at que ele admita que tambm a ama.
- Tem que senti-lo primeiro, Abby.
- Eu acredito que ele sente - sacudiu-a carinhosamente pelos ombros - Esse homem est louco por voc, o que acontece  que  incapaz de reconhecer, nem ante ele
mesmo nem ante voc.
A esperana comeou a ressurgir no corao de Maddy.
- Tentei acreditar nisso.
- No tente, acredite. Eu padeci a pior relao do mundo, Maddy. E agora estou aproveitando da melhor. No se renda. Que me crucifiquem se vou ficar aqui sentada,
vendo-a esperar que a chame. Vista-se - ordenou-lhe - Vamos celebrar.
- Mandona - sorriu enquanto se levantava - Sempre foi uma mandona

Reed deixou soar o telefone pelo menos uma dzia de vezes antes de desligar. Era quase meia-noite. Onde diabos poderia estar Maddy? Por que no estava na cama, descansando
para estar desperta no dia seguinte?
Onde diabos estava?
Na Filadlfia, respondeu-se, aborrecido, enquanto passeava nervoso por seu apartamento. Estava a quilmetros dali, na Filadlfia, em seu mundo, com sua gente. Podia
estar fazendo qualquer coisa, com qualquer um. E ele no tinha direito algum de lhe fazer perguntas.
Ao diabo com os direitos, disse-se antes de pegar novamente o telefone. Era ela quem tinha falado de amor, de compromisso, de confiana. E era ela quem no estava
respondendo a suas chamadas.
Ainda podia se lembrar do olhar triste e decepcionado de Maddy quando disse que no estava certo que poderia assistir  estria da pea. A maldita reunio com a
Associao de Produtores Discogrficos ainda estava rodando sobre sua cabea, e ainda no tinha pudera se livrar de suas conseqncias. Explodiria um verdadeiro
escndalo uma vez aprovada a deciso de iniciar uma investigao completa. Um escndalo que afetaria a todo mundo, a cada marca, a cada empresa, inclusive os que
tinham as mos limpas.
Na manh seguinte provavelmente receberia dzias de chamadas de jornalistas, de cadeias de rdio, de empresas consultoras, de seus prprios empregados. No podia
deixar tudo pendente e ir ver a estria de um musical.
Embora no se tratasse de qualquer musical, pensou enquanto deixava soar o telefone. No, era seu musical. Desligou de novo. Discos Valentine patrocinava aquela
obra, e, portanto era obrigado a proteger seus interesses. Seu pai estaria ali, e com isso seria suficiente. Mas era ele, e no seu pai, quem presidia Discos Valentine.
Estava se justificando por no ir ou por se sentir-tentado a ir?
Na realidade, isso no importava. Nada disso importava nada. O que verdadeiramente importava era por que Maddy no respondia o telefone  meia-noite.
Passou uma mo pelo cabelo, desesperado. Estava se comportando como um estpido. Tentando tranquilizar-se, foi se servir uma taa e naquele preciso momento viu a
planta. Estavam saindo novos brotos, verdes e vigorosos. As folhas velhas e murchas tinham cado, para ser substitudas. Impressionado, acariciou delicadamente as
lustrosas folhas.
Um pequeno milagre? Possivelmente, mas era somente uma planta, depois de tudo. Uma planta muito teimosa, tinha que reconhecer. Uma planta que se negou a morrer quando
devia hav-lo feito, e que tinha respondido com entusiasmo a menor ateno que tinha recebido.
Virou-se e contemplou seu apartamento vazio. No tinha muito sentido imaginar Maddy ali dentro, com ele. E igualmente no tinha se preocupar pelo fato de que Maddy
no estivesse no hotel. Tinha outras coisas em que pensar, outras coisas que fazer.
Mas de repente partiu, deixando intacta a taa.

O quarto estava completamente s escuras quando uma chamada da porta a despertou. Maddy virou-se na cama, abraou o travesseiro e se disps a ignor-la. Mas os golpes
persistiram.
Era madrugada, recordou-se, bocejando. Ainda havia vrias horas para o amanhecer. Mas no era um sonho. Estavam chamando realmente a sua porta, e cada vez mais forte.
- J vou, j vou! -gritou, irritada, esfregando os olhos.
Se alguma das danarinas estava nervosa pela iminncia da estria, jogaria-a para fora de seu quarto sem hesitar. s trs da madrugada no podia se permitir ajudar
a ningum. Amaldioando entre dentes, acendeu a luz e vestiu o robe. Abriu o ferrolho e abriu a porta com a corrente presa.
- Reed! - instantaneamente acordada, fechou de novo a porta e retirou a corrente com dedos trmulos. Quando a abriu de novo, lanou-se em seus braos - Est aqui!
J tinha me acostumado  idia que no viria. Oh, no, minto, no podia me acostumar... - corrigiu-se imediatamente, e o beijou nos lbios - Reed, o que est fazendo
aqui s trs da madrugada?
- Importa-se que eu entre antes de lhe explicar isso
- Est aborrecido.
- Vamos, vamos - a colocou de lado para ter passagem.
- Algo errado? Oh, Meu deus, aconteceu algo com seu pai? Reed.
- No, meu pai est bem. Vir amanh.
Maddy relaxou um pouco, mas no de tudo.
- Est zangado.
- Estou bem - andou pelo quarto, aparentemente inquieto - No pude localiz-la esta noite.
- Claro, tinha sado para jantar com...
- No tem que me dar explicaes - estava furioso, embora somente consigo mesmo.
Maddy tirou o cabelo do rosto, desesperada por entend-lo. Eram as trs da madrugada, e Reed parecia fora de si, fora de lugar. Ela mesma estava cansada. Seria melhor
que levasse tudo com calma.
- De acordo. Reed, no vai me dizer que viajou at a Filadlfia somente porque eu no respondi o telefone, no ?
Enquanto a olhava fixamente, Reed viu que sua expresso assombrada mudava gradativamente para outra divertida. E a de diverso por outra de puro e autntico prazer.
- O fez? - em um impulso se aproximou de novo dele, apoiando uma face contra seu peito -  a coisa mais bonita que algum fez por mim. No sei o que dizer. Eu...
- mas quando ergueu o olhar, viu em seus olhos.
Todo o prazer que antes havia sentido se evaporou enquanto se afastava.
- Pensou que eu estava com outro - pronunciou em voz baixa - Pensou que eu estava me deitando com outro homem, assim veio para verificar pessoalmente - sentiu um
amargo sabor na boca. Um sabor que lhe era estranho. Estendeu uma mo indicando a cama vazia - Sinto decepcion-lo.
- No - agarrou-a pelos pulsos antes que pudesse voltar-se, porque j tinha visto as lgrimas brilharem em seus olhos - No era isso. Maldio, possivelmente isso
pudesse ser parte, de alguma forma, de tudo o que me passou pela cabea. Estaria em seu direto.
- Obrigado - libertou-se e se sentou na borda da cama, mas no pde controlar o pranto - Agora que j ficou satisfeito, por que no vai embora? Preciso dormir.
- Eu sei - passou as mos pelo cabelo antes de sentar-se a seu lado - Eu sei, e quando eu liguei to tarde e continuava sem poder localiz-la, perguntei-me... -quando
se encontrou com seu olhar, amaldioou-se a si mesmo-... Certo, perguntei-me se no estaria com algum mais. Eu no tenho nenhum direito sobre voc, Maddy.
- um idiota.
-Sei disso tambm. Somente me d uns segundos para lhe explicar, por favor - tomou as mos antes que pudesse negar-se - Sim, perguntei-me isso, e a idia me pareceu
horrvel. Depois me preocupei. Durante todo o tempo que demorei para chegar at aqui de carro, estive terrivelmente preocupado pensando que poderia ter acontecido
algo ruim com voc.
- No seja ridculo. O que podia me haver acontecido?
- Nada. Ou algo - apertou-lhe as mos, frustrado - Simplesmente tinha que vir. Para v-la.
A fria do Maddy estava amainando, mas ainda no sabia com o que outra emoo substitu-la.
- Bom, pois j me viu. E agora o que?
- Isso depende de voc.
- Ah, no - separou-se dele, levantando-se - Quero que voc me diga. Quero que me olhe agora mesmo nos olhos e me diga o que  o que quer.
- Quero voc - levantou-se tambm, lentamente - Quero que me deixe ficar aqui, com voc. No para fazer amor, Maddy. Somente para estar aqui.
Naquele instante, nada foi mais fcil para Maddy que esquecer da dor interna. Colocar aquela dor de lado e aproximar-se novamente de Reed.
- No quer fazer amor comigo? -perguntou, sorrindo.
- Quero fazer o amor com voc at a extenuao - acariciou-lhe a face - Mas precisa dormir.
- Est acaso preocupado por seu investimento? - comeou a desabotoar os botes da camisa masculina.
- Sim - envolveu seu rosto entre as mos - Sim estou.
- Pois no tem nenhuma necessidade - sem deixar de olh-lo aos olhos, deslizou a camisa por seus ombros - Confie em mim. Ao menos por esta noite, confie em mim.


Captulo 11

Em algum momento daquela longa e frustrante noite, Reed tinha tomado conscincia de que confiava nela, no que lhe dizia, no que sentia, sua vida iria ficar de pernas
para o ar. O problema era que j era tarde demais para voltar atrs.
Mas seu olhar era to claro e sincero, e seu toque to terno... Por aquela noite, por aquela nica noite, nada mais importaria.
Levou suas mos aos lbios, ansioso para expressar o que no podia lhe comunicar com palavras. E Maddy sorriu, comovida por sua ternura.
A luz da mesinha continuava acesa quando se deitaram na cama. Os olhos de Maddy permaneciam abertos, obscurecidos de desejo, enquanto ele salpicava seu rosto de
beijos. Depois deslizou um dedo por seu ombro nu com deliciosa delicadeza, subindo lentamente por seu pescoo at chegar aos lbios, cujo contorno se deleitou em
delinear. Excitada, ela capturou o dedo com os dentes e comeou a lamb-lo sem deixar de olh-lo nos olhos.
Observando-a, deslizou uma mo ao longo de sua perna, da panturrilha at a coxa, procurando sua sensvel carne. Ouviu-a conter o flego, mas seguiu adiante, subindo
sempre, fazendo-a estremecer-se de prazer uma, duas vezes, antes de abrir completamente o robe e descobrir seu corpo nu.
- No parava de pensar em como a toquei assim - murmurou Reed enquanto acariciava um seio pequeno, firme - Da ltima vez.
- Eu queria que viesse - reps Maddy - O que mais desejava no mundo era que estivesse aqui - tomando a sua vez comeou a lhe explorar seu corpo. Lentamente, esperando
ver surgir o fogo de desejo em seus olhos, foi baixando suas calas - Cada noite, quando fechava os olhos, imaginava que o veria aqui, em minha cama, pela manh.
E amanh se cumprir esse desejo.
Acariciaram-se, saborearam o prazer, sem pressa. Maddy sabia que aquela era uma noite mgica, uma noite em que suas almas estavam destinadas a fundir-se. Uma noite
que esperava no terminasse nunca.
Entrelaou os dedos com os seus, palma contra palma, enquanto seus lbios se encontravam uma vez mais em um longo e sensual beijo. No, no existia nenhum sabor
que pudesse comparar-se com o de seus beijos. Com aquele sabor, Reed podia lhe alimentar a alma. Jogou os braos ao redor do pescoo, desesperada por devolver uma
pequena parte do que j lhe tinha dado.
A generosidade de Maddy no parecia ter limites. E seu corpo respondia a cada movimento, a cada demanda, a cada sugesto que se apresentava. Sim, estava ali com
ele, a parceira mais desejvel e maravilhoso que um homem podia desejar. No sabia como corresponder, como compens-la pelo que to desinteressadamente estava lhe
oferecendo. A nica coisa que sabia fazer era am-la com infinito cuidado.
Se isso fosse possvel, Maddy teria o assegurado que com isso bastava, ao menos no momento. No havia lugar para as palavras quando sua mente e seu corpo se achavam
flutuando com tanta liberdade. Quando Reed a acariciou uma vez mais, ardeu. Murmurou seu nome e o corao saiu do peito.
E no momento em que seus corpos se fundiram com todo o ardor dos amantes que se reencontram, seu amor por ele a consumiu por completo.

Na metade da amanh, Maddy j estava em p e inquieta, transbordando uma energia nervosa. Ao cabo de umas poucas horas aconteceria  estria. Simplesmente no era
possvel permanecer afastada do teatro.
- Achei que no precisava estar ali at primeira hora da tarde - comentou Reed enquanto se dirigia com o Maddy para o teatro, em seu carro.
- No h ensaio, mas hoje  o grande dia.
- Eu pensava que era esta noite.
- Sim, mas  preciso estar ali vrias horas antes e verificar tudo. As luzes, o cenrio, o vesturio...
Reed foi seguindo as indicaes que ela dava, e teve a sorte de encontrar estacionamento de frente ao teatro.
- Reed, fico to feliz que tenha vindo. J lhe disso isso?
- Algumas vezes - pegou-a delicadamente pela nuca para atra-la para si - Acho que eu devia ter me esforado mais para deix-la na cama. Descansando - acrescentou
quando ela o olhou arqueando uma sobrancelha - Est um pouco nervosa.
-  o normal em um dia de estria. Preocupante seria se eu tivesse relaxada. Alm disso, acho que deveria ver mais de perto aquilo que est pagando. Voc no  o
tipo de homem que se interessa apenas pelo produto final. Vamos - saiu do carro - Tem que ver o que se esconde atrs dos bastidores.
Entraram juntos. Maddy saudou o vigilante da entrada e avanou guiando-se pelo rudo que se escutava ao fundo. Vozes de todo tipo, umas mais altas que outras, ordenando,
queixando. Todo mundo estava vestido com roupa de trabalho. Um homem verificava os microfones do cenrio, enquanto os tcnicos de iluminao ajustavam os focos e
um grupo de operrios preparava o pano de fundo.
- J conhece diretor de iluminao, no?
- Sim, j me apresentaram.
- Ele est se encarregando dos focos de baixo, e seu ajudante dos de acima.
- Quantos focos h?
- Dzias.
- A obra comea s oito. Esses detalhes j no deveriam estar todos arrumados?
- No ensaio de ontem fizemos algumas mudanas. No se preocupe - segurou seu brao - Tanto se der tempo a faz-los como se no, a obra comear s oito.
Reed lanou outro olhar a seu redor. Viu grandes gavetas com rodas, alguns abertas, outras fechadas. Cilindros de cabo dispersos pelo cho, escadas em qualquer parte.
- Senhorita OHurley - saudou-a um dos tcnicos de luzes - Tem voc um aspecto estupendo.
- Voc se assegure de me iluminar bem esta noite, para que eu continue tendo - brincou Maddy.
Todo aquilo lembrava a Reed a coberta de um antigo navio... Depois de ter suportado um temporal. Havia cordas e sogas por toda parte, algumas to grosas como o pulso
de Maddy. Penduravam do teto e serpenteavam pelo cho. Distinguiu uma pequena mesa em um canto, coberta de papis, com um cinzeiro lotado de pontas de cigarro. Tudo
cheirava a p, a tabaco e a suor.
Maddy ia explicando para que servia cada coisa, cada instrumento. Conhecia at o mecanismo do pano de fundo.
- Como  que sabe tanto?
- Passei toda a minha vida no teatro. Vem ver os cenrios. So incrveis.
Subiram at uma estreita passarela de ferro, elevada, de onde podiam ver os artistas que estavam construindo e pintando os cenrios trabalharem. Reed observava Maddy
com ateno. Percebeu que passava a mo vrias vezes pelo corrimo, inquieta.
- Se no te conhecesse melhor, eu diria que est bastante inquieta.
- No, no estou inquieta. Estou aterrorizada.
- Por qu? - colocou uma mo sobre a sua - J sabe o que  capaz de fazer.
- No. Sei o que j fiz - corrigiu-o-. E ainda no fiz esta pea. Esta noite, quando por fim o pano de fundo cair, ser a primeira vez. Ali est seu pai, falando
com o encarregado do teatro. Acho que deveria estar ali, com eles.
- No, deveria estar aqui, com voc - estava comeando a tomar conscincia da certeza daquela afirmao. No tinha empreendido uma viagem na madrugada de Nova Iorque
a Filadlfia porque desconfiasse dela. No a tinha acompanhado aquela manh ao teatro a falta de uma coisa melhor que fazer. Tinha-o feito porque, de alguma forma,
tinha que estar onde ela estava. O que era, alm de evidente, aterrorizador.
- Vamos descer - props de repente. Queria se ver rodeado de pessoas, de desconhecidos, de rudo, algo que o distrasse do que estava surgindo e removendo-se em
seu interior.
- Certo. Oh, olhe, l abaixo est minha famlia - o nervoso desapareceu como por milagre, e experimentou um prazer to intenso que deslizou uma mo pela cintura
de Reed sem chegar a perceber sua tenso - Aquele  papai, esse homenzinho magro que est conversando com os carpinteiros. Entende de tudo, e seria capaz de desempenhar
qualquer ofcio do teatro. E tambm de dirigir ou coreografar uma obra, mas nunca quis faz-lo. Gosta de estar em foco. O palco  o seu mundo.
- E voc?
- Dizem que sou a que mais parece com ele. A que quis seguir seus passos. V aquela mulher to bonita, com um menino pequeno?  minha me com seu neto mais novo,
Chris. Ontem Chris decidiu que queria ser tcnico de luzes porque assim podia subir em uma escada. E essa  minha irm Abby. No  linda?
Reed distinguiu uma mulher esbelta, de cabelo loiro, ondulado. Parecia emanar uma aura de serena felicidade, embora se encontrasse em meio de um autntico caos.
Viu que colocava uma mo no ombro a outro menino, enquanto apontava para algo.
- Imagino que esteja mostrando ao Ben o lugar onde se sentaro esta noite. A verdade  que est mais entusiasmado com a viagem que faro a Nova Iorque amanh do
que com qualquer outra coisa. Dylan tem uma entrevista com seu editor.
Reed viu que Dylan se aproximava deles e carregava o pequeno Chris sobre seus ombros. O pequeno comeou a gritar de alegria, encantado.
- So uns garotos maravilhosos - consciente do tom de emoo de sua voz, sacudiu a cabea - Vamos descer para cumpriment-los.
Uma vez de volta ao cenrio, tiveram que dar a volta em uma fila de focos de cores instaladas no cho. Ao cabo de umas horas, esses focos se acenderiam para ela.
Ao ouvir um grito, segurou a mo de Reed e o levou para um lado enquanto caa uma cortina de contas e lentejoulas.
- Lindo, no ?
- Claro que sim - respondeu, contemplando aquele luminoso pano de fundo.
- Usaremos durante a cena de meu sonho, quando imagino que sou uma bailarina de bal em lugar de uma danarina de striptease e, fazendo uma pirueta, caio nos braos
do Jonathan. O bonito do teatro, e dos sonhos,  que pode fazer se tornar realidade o que quiser que acontea.
Enquanto seguiam adiante, Maddy ouviu seu pai exclamar:
- Valentine! Que o diabo me levem - e abraou o homem alto e corpulento que se aproximou dele - Minha garota me contou que tinha patrocinado esta obra - olhou-o,
sorridente - Quantos anos passaram?
- Muitos - Edwin estreitou sua mo com entusiasmo-. Hey, parece que no envelheceu.
- Isso  porque seus olhos, sim, envelheceram - replicou Frank, rindo.
- E Molly - voltou-se para ela, e a beijou em cada lado da face - To bonita como sempre.
- Seus olhos no deixam passar nada, Edwin - assegurou Molly.
- Nunca me esqueci de vocs. E nunca deixei de invej-lo por ter uma esposa como a que tem, Frank.
- Nesse caso, no deixarei que volte a beij-la. Talvez seja mais difcil reconhecer, mas esta  Abby.
- Uma das trigmeas - tomou a mo de Abby entre as suas - Incrvel. Lembro-me que troquei a uma fralda. No sei se foi a sua.
Rindo, Abby se voltou para Dylan.
- Este  meu marido, Dylan Crosby. O senhor Valentine  um velho amigo da famlia.
- Crosby. Li algumas de suas obras. No trabalhou com meu filho em um de seus livros?
- Sim. Voc estava fora da cidade naquela poca, de modo que no tivemos oportunidade de nos conhecer.  um verdadeiro prazer.
- E os netos - Edwin olhou para Frank e Molly antes de agachar-se diante dos meninos - Que dupla. Como esto? Est aqui outro motivo de inveja, Frank.
- Tenho uma fraqueza especial por esses peraltas - admitiu Frank, dando uma piscada - E Abby vai nos dar outro neste inverno.
- Felicidades - sim, sentia inveja. No podia evitar. Mas tambm um imenso prazer - Se no tiverem nenhum plano, eu adoraria que jantssemos juntos antes da pea.
- Somos os OHurley - recordou-lhe Frank - Nunca temos nenhum plano que no possamos mudar. Como est seu menino, Edwin?
- Muito bem. De fato, ele... Bom, encontra-se agora mesmo aqui. Com sua filha.
Quando Frank se voltou, foi como se uma luz acendesse em sua cabea. Viu Maddy de mos dadas um homem alto e magro, de traos marcantes. E viu o olhar de sua filha,
terna, radiante e um tanto hesitante. Maddy estava apaixonada. Sentiu uma forte pontada no peito, metade de dor, metade de prazer. Mas ambas as sensaes se aplacaram
quando Molly segurou sua mo.
Teve lugar outra ronda de apresentaes, durante a qual Frank no deixou de observar Reed. Se esse era o homem que sua filha tinha escolhido, ele se asseguraria
de verificar que se tratava de uma boa escolha.
- Assim est  frente da Discos Valentine - comeou, sem nenhuma cerimnia prvia. No acreditava em testes sutis - E como est indo?
- Quero pensar que bem - Reed percebeu que o homem que tinha diante de si, era pequeno, mas com carter. Apesar de ter olhos azuis claros, quase transparente, e
de no haver muitas semelhanas em relao aos traos, vendo-o ele imaginava estar vendo Maddy. Era uma semelhana profunda, como se procedesse de seu interior,
da alma.
-  muita responsabilidade dirigir uma produtora de discos - acrescentou Frank - No est casado, n, rapaz?
- No, no estou.
- Alguma vez esteve?
- Papai, ainda no falei das mudanas que vamos fazer na ltima cena - tomando-o pela mo, Maddy o levou para um lado, onde ningum pudesse ouvi-los - Que diabos
acha que est fazendo?
- A que se refere? - sorriu - Meu deus, est to bonita como sempre...
- Deixa de baboseiras. No vai continuar submetendo Reed a esse interrogatrio.  muito evidente que quer amedront-lo.
- O que  evidente  que  minha pequena e que tenho o direito e o dever de velar por voc... Ao menos enquanto estiver perto.
Maddy cruzou os braos e inclinou a cabea.
- Papai, voc acredita que me educou bem?
-  obvio.
- Diria que sou uma mulher adulta sensata e responsvel?
- Claro que sim. E daria um murro ao primeiro homem que dissesse o contrrio.
- Bem - deu-lhe um sonoro beijo - Pois ento me deixe em paz, OHurley - e se voltou de novo para o cenrio, com outros - Sei que todo mundo tem coisas que fazer
esta tarde. Assim que eu vou  sala de ensaios me esquentar um pouco.

Dedicou-se a esquentar os msculos lentamente, meticulosamente, estirando-os um a um. Estava sozinha. De frente a uma parede de espelhos. Tinha sido idia do Macke
incorporar a seqncia do sonho, com seus passos de bal clssico. Quando comentou que fazia meses que no praticava bal clssico, lhe sugeriu que recebesse aulas.
Dito e feito. Tinha empregado uma grande quantidade de horas naquelas aulas extras. E agora esperava que o esforo valesse a pena.
Tinha trabalhado com esforo, tinha ensaiado milhares de vezes, e tinha na cabea todos os detalhes da msica e da dana. Mesmo assim, se havia uma cena com a qual
no se sentia segura, era precisamente aquela.
Estaria sozinha no cenrio durante os quatro primeiros minutos. Sozinha. Os focos projetando uma tnue luz azul. A cortina de lentejoulas brilhando a suas costas.
Soaria a msica... Maddy apertou o boto de sua gravadora e se colocou na frente dos espelhos. Cruzou os braos sobre o corpo, apoiando ligeiramente os dedos sobre
os ombros. Lenta, muito lentamente, ficou nas pontas dos ps. E comeou.
Executou repetidos saltos. J no era Maddy, e sim o sonho mais ntimo de Mary. Jet, braos estendidos. Tinha que aparentar que no estava fazendo o menor esforo,
como se flutuasse. Era como uma iluso, uma imagem imprecisa. Pura fluidez. Imaginou que os membros se derretiam, viravam gua. Ergueu os braos acima da cabea
enquanto fazia um arabesque. Permaneceria nessa posio durante alguns segundos, at que Jonathan entrasse e o sonho prosseguisse a pis de deux.
Baixou os braos, e os sacudiu para relaxar os msculos. Aproximou-se de novo da gravadora e apertou o boto rebobinando, disposta a repetir a sequncia.
- Nunca a tinha visto danar assim.
Ergueu o olhar e descobriu Reed na soleira.
- No  meu estilo habitual. No sabia que estava a.
- Surpreende-me continuamente - murmurou, entrando na sala - Se no a conhecesse, juraria que estava ante uma primeira bailarina.
- Oh, bom - riu - Alguns movimentos de bal clssico no  a mesma coisa do O Lago dos Cisnes.
- Mas poderia faz-lo se quisesse, no ? - recolheu a toalha do banco e enxugou delicadamente o suor do rosto.
- Provavelmente ficaria com vontade de fazer claqu a metade da obra.
- O que perde o bal clssico, ganha Broadway.
- Continue falando assim - sorriu Maddy - Preciso disso.
- Maddy, est aqui h quase duas horas. Ficar esgotada antes que o pano de fundo levante.
- Hoje tenho energia suficiente para representar trs vezes a pea.
- E quando ir comer?
- Corre o rumor de que os tramoyistas esto preparando goulash. Se pico um pouco por volta das quatro ou cinco, agentarei bem.
- Eu queria te convidar a comer.
- Oh, Reed, sinto muito. No poderia, no antes da estria. Depois sim - tendeu-lhe as mos - depois poderamos jantar voc e eu juntos, de madrugada...
- De acordo - tomou as mos. Sentia-a muito tensa e no sabia como tranquiliz-la - Maddy, sempre est assim antes de uma estria?
- Sempre.
- Apesar da confiana que tenha que ser um xito?
- O fato de estar confiante no significa que no tenha que trabalhar para realizar esse sucesso. Nada que vale a pena  fcil.
- No - olhou-a intensamente aos olhos - No .
Mas j no estavam falando de estrias, nem de musicais.
- Acredita de verdade que se esforar realmente por algo, com todas suas foras, no final acaba conseguindo-o?
- Sim, acredito.
- Tambm a respeito de ns?
- Tambm.
- Inclusive e embora as probabilidades estejam contra?
- No  uma questo de probabilidades, Reed.  uma questo de sentimentos. De pessoas, das pessoas.
Soltando-a, afastou-se. Como tinha acontecido na passarela, tinha experimentado uma sensao de vertigem. Um medo de cair.
- Talvez pudesse ser to otimista quanto voc. Talvez pudesse acreditar em milagres.
Maddy sentiu que a esperana a abandonava. Como uma bola murchando.
- O casamento  muito importante para voc - acrescentou Reed.
- Sim. O compromisso. Educaram-me para respeitar esse compromisso, para compreender que o casamento no  o final, e sim o comeo. Sim,  importante.
-  um contrato - corrigiu ele, falando quase para si mesmo - Um contrato legal, rgido. Ambos entendemos de contratos, Maddy. Podemos assinar um.
Maddy abriu a boca, mas a fechou lentamente antes de fazer uma tentativa de falar.
- Perdo?
- Eu disse que assinaremos o contrato.  algo importante para voc, mais do que eu pensava. E, na realidade, no me importa. Podemos fazer uns testes, conseguir
uma licena, e pronto.
- Uns testes - murmurou, consternada - Uma licena. Bom, tudo isso acaba um pouco com o aspecto romntico da coisa, n?
-  s uma formalidade - algo estava se revirando no estmago quando lhe deu as costas. O que estava fazendo era evidente. Estava fechando a porta de sua prpria
jaula. Os motivos que tinha para faz-lo eram outros assuntos - No conheo muito bem o que diz a lei, mas, se for necessrio, talvez consigamos resolver todos os
trmites na segunda-feira, em Nova Iorque. Assim na tera-feira poderia estar aqui de volta, para a pea.
Maddy estava aniquilada. Sabia que Reed tinha capacidade para lhe magoar, mas no para quebrar seu corao com tanta facilidade.
- Agradeo a oferta, Reed, mas no quero - apertou de novo o boto da gravadora e a msica comeou a soar.
- O que quer dizer? -agarrou-a por um brao antes que pudesse colocar-se em posio.
- Simplesmente o que disse. Desculpe-me, mas tenho que ensaiar.
Reed pensou que jamais antes a tinha ouvido falar com uma voz to fria. To fria e terminal.
- Voc queria o casamento, e eu aceitei. Quer mais o que, Maddy?
Se soltou bruscamente se afastando.
- Mais, muito mais do que voc est disposto a me dar. No quero um maldito pedao de papel, maldio. No quero que me faa nenhum favor. O que disse : Certo,
Maddy quer casar, e dado que no me importa atuar de uma maneira ou de outra, assinaremos esse papel e a faremos feliz. Muito bem, pois pode ir ao inferno.
- No era isso o que queria dizer - quis segura-la pelos ombros, mas ela retrocedeu.
- Sei o que queria dizer. Sei muito bem. O matrimnio s  um contrato, e os contratos podem ser quebrados. Possivelmente voc gostaria de incluir uma clusula de
fuga no nosso, para poder larg-lo legalmente quando se cansar. No, obrigado.
Reed se perguntou se realmente seu oferecimento tinha parecido to frio, to... Desprezvel. No entendia.
- Maddy, o que  o que quer? Quer que acenda velas, que coloque uma msica, que finque de joelhos diante de voc?
- Estou cansada de dizer o que quero  seus olhos j no brilhavam de fria. Seu olhar havia tornado frio. E, o que era inslito nela, tornou-se distante-. Dentro
de algumas horas tenho que subir ao palco, e j dificultou muito as coisas para mim. Deixe-me em paz, Reed.
Rebobinou a fita e comeou de novo. Uma vez sozinha, continuo danando. As lgrimas escorregando por sua face.


Captulo 12

Reed se encontrou com seu pai no corredor.
- Ainda est Maddy? Agora mesmo acabo de falar com o administrador do teatro. Parece que venderam todas as entradas para a funo desta noite. De fato, temos reservas
para toda a semana. Queria lhe contar.
- Lhe d um descanso - respondeu Reed, lutando contra um crescente sentimento de frustrao-. Est ensaiando uma cena.
- Entendo. Quer me dedicar um minuto? - mostrou o escritrio do administrador. Quando entraram, fechou a porta a suas costas - Antes estava acostumado a me contar
seus problemas. O que aconteceu?
-  difcil de explicar, mas tentarei.
- J sabe que sempre poder contar comigo - tirou um charuto, acendeu-o e esperou.
- Pedi para que Maddy que se casasse comigo. No - apressou-se a acrescentar antes que um brilho de alegria aparecesse nos olhos de Edwin - Na realidade, no foi
assim. Me ofereci para realizar todos os trmites necessrios para o casamento. E ela jogou a oferta na minha cara.
- Trmites?
- Sim, trmites - respondeu Reed, brusco e impaciente, na defensiva - Precisamos fazer testes, conseguir a licena... E encaixar esses trmites dentro de nossas
respectivas agendas.
- Deus - pronunciou Edwin, sacudindo a cabea - Isso soa muito frio e seco, Reed. No lhe deu de presente ao menos um buqu de flores?
- Poderia lhe dar de presente um caminho cheio de flores, se ela quisesse.
- Se ela quisesse. Bah! - Edwin assentiu com a cabea enquanto se sentava em uma cadeira - Reed, se tiver falado de casamento nesses termos com uma mulher como Maddy,
merece que ela a tenha rejeitado.
- Possivelmente sim. E talvez tenha sido melhor. No sei como pude entrar nisso, iniciar esta relao...
- Provavelmente porque a amava.
- O amor  uma palavra vazia.
- Se eu tivesse certeza que isso  verdade, minha vida inteira seria um fracasso.
- No - voltou-se rapidamente para ele - Voc nunca fracassou em nada.
- Isso no  certo. Fracassei em relao ao meu casamento.
- Voc no - replicou Reed com um n de amargura na garganta.
- Claro que fracassei. Escuta o que vou dizer. Nunca chegamos a falar disso como se devia. Voc no queria, e eu no insisti, pois sabia o quanto estava magoado
- olhou o charuto e o esmagou no cinzeiro - Casei-me com sua me sabendo de que ela no me amava. Pensei que poderia garantir sua afeio porque possua certo poder
para lhe dar o que ansiava realmente. Mas quanto mais poder eu alcanava, mais constrangida e limitada ela ia se sentindo. Assim quando finalmente rompemos, foi
tanto culpa dela quanto minha.
- No.
- Sim - corrigiu-o Edwin - O casamento  um assunto entre duas pessoas, Reed. No  um negcio, nem um simples contrato.
- No sei do que est falando. No entendo por que me est dizendo isto agora.
-Sabe muito bem por que. Agora mesmo Maddy est l em cima.
Reed j se dispunha a sair quando se deteve de repente, com uma mo na maaneta da porta. Lentamente a soltou e se voltou para seu pai.
- Tem razo.
- Sua me no me amava, e tampouco amava voc. Sinto muito, mas deveria saber que o amor no  algo que nasa do dever, ou do fato de dar a vida. O amor nasce do
corao.
- Ela te traiu.
- Sim. Mas tambm me deu um filho. No posso odi-la, Reed. E o que ela nos fez no pode continuar arruinando sua vida.
- Eu poderia ser como ela.
- O que significa isto? - Edwin se levantou como uma mola e o agarrou pela lapelas em um inslito gesto de violncia. Reed jamais o tinha visto to alterado - Durante
quanto tempo mais vai continuar carregando esse peso?
- Eu poderia ser como ela - repetiu Reed - Ou poderia ser como o homem que se deitou com ela. Nem sequer sei quem era esse homem.
Edwin o soltou de repente, retrocedendo.
- Quer saber?
Reed passou as mos pelo cabelo, desesperado.
- No, no me importa. Eles no me importam. Mas como posso saber o que h dentro de mim? Como posso estar seguro de que no herdei o que eles eram?
- No pode. Mas pode se olhar no espelho e pensar no que , mais que no que poderia ser. E pode acreditar, como eu acredito, que os ltimos trinta anos que passamos
juntos so os mais importante.
- Eu sei, mas...
- No h "mas".
- Estou apaixonado por ela - no instante que pronunciou aquelas palavras, todas as defesas com as quais se protegia desde de menino caram - Mas como posso saber
que isso no mudar no ms que vem, no ano que vem? Como posso saber que sou capaz de lhe dar o que tanto precisa durante o resto de nossas vidas?
- Nunca poder estar certo disso. Isso  algo ao que ter que se arriscar, algo que ter que ansiar e se esforar por conseguir. E, se a ama de verdade, conseguir.
- Na verdade eu tenho medo de mago-la. Maddy  a melhor coisa que j me aconteceu.
- Imagino que no lhe disse isso quando falou dos trmites do matrimnio...
- No - passou-se as mos pelo rosto - Estraguei tudo.
- Vou dizer uma coisa - Edwin o olhou, sorrindo - Nenhum filho meu deixaria que uma mulher como Maddy OHurley lhe escapasse entre os dedos... Somente por pensar
que no seria perfeito o suficiente para ela.
Reed esteve a ponto de rir.
- Isso soa a desafio.
-  que o .

Com o cabelo preso em grosa touca e envolta em um robe, Maddy comeou a colocar pestanas postias na penteadeira de seu camarim. J tinha quase se terminado de maquiar.
Faltava apenas um pouco mais de cor nas bochechas. Estava nervosa. Com o nervoso tpico que acompanhava uma estria. Mas no era somente isso que a preocupava. Havia
algo mais.
Casamento. Reed tinha falado de casamento... Mas segundo seus termos. Durante todo aquele tempo esperado que Reed terminasse por aceitar que deviam se comprometer
a viver juntos. Mas no tinha sido assim. Ele no tinha lhe devotado anos de prazer e alegria, a e sim um pedao de papel que os atasse legalmente, no deixando
lugar algum para os sentimentos.
Disse a si mesma que estava farta de sentimentos. Muitos sentimentos e pouca lgica. Uma mulher lgica teria aceitado os termos de Reed e teria aproveitado aquela
oportunidade. Mas, no lugar disso, ela tinha fechado uma porta. Olhou-se no espelho. Aquela noite seria inesquecvel, pela estria da pea. Mas tambm por que seria
noite triste, pelo incio do fim de sua relao com Reed.
Levantou-se e se afastou do espelho. Estava farta de ver-se a si mesmo.
Fora, no corredor, as pessoas se moviam apressadamente. Podia escutar o rudo, a tenso, a energia incitada por uma noite de estria. Tinha o camarim cheio de flores.
Dzias dos buqus e enfeites florais que se duplicavam no espelho da penteadeira.
Tinha recebido rosas de Chantel. Brancas. Seus pais tinham lhe enviado um precioso buqu de margaridas. Havia outro de gardnias, com uma nota de Risque: quebra
uma perna. E havia mais flores, mas nenhuma era de Reed.
- Trinta minutos, senhorita OHurley.
Maddy levou uma mo ao estmago ao ouvir a chamada. Restava somente meia hora. Por que no podia deixar de pensar em Reed? No queria atuar. No queria sair essa
noite a cantar e danar, a entreter centenas de desconhecidos. Queria voltar para casa e esconder-se sob os lenis.
De repente bateram na porta, mas antes de que pudesse responder, seus pais apareceram a cabea.
- Gosta de ver algumas caras simpticas? - perguntou-lhe Molly.
- Oh, sim. Necessito da maior quantidade possvel.
- Pois h de sobra - comentou Franz, entrando no camarim. Havia uma estrela na porta. No podia ter desejado nada mais para sua filha - No ficou nenhuma s entrada
sem vender, menina.
- Mesmo?
- Claro - Frank bateu carinhosamente em uma mo - Acabo de falar com o diretor do teatro. Est dando saltos de alegria.
- Acredito que deveria esperar a que casse o pano de fundo.
- Ora - exclamou Molly - Isso  o tpico nervosismo de uma estria, Maddy, ou h algo mais que a preocupa e que ns no sabemos?
Maddy hesitou por um instante. Nunca tinha havido segredos entre sua famlia e ela.
- No  nada... Alm do que estou apaixonada por um completo idiota.
- Oh, bom - Molly olhou para Frank, arqueando uma sobrancelha - Acredito que sei ao que se refere.
- Oua, oua - protestou ele, mas no teve tempo de dizer mais nada. Porque sua esposa j o estava empurrando para a porta.
- Fora, Frank. Maddy tem que se vestir.
- Se eu lhe troquei as fraldas e a banhei mil vezes - resmungou, mas no ops resistncia - Deixa-os com a boca aberta. Vai triunfar - e partiu, depois de lhe dar
uma piscada.
-  maravilhoso, no? - sorriu Maddy, referindo-se a seu pai.
- Bom, tem seus momentos - Molly olhou o vestido de plumas e lentejoulas que estava pendurado no gancho da porta-. Isso  para a estria?
- Sim.
- Lhe darei uma mo - desprendeu-o enquanto sua filha se tirava a bata - Esse idiota... No ser por acaso Reed Valentine?
- O mesmo - respondeu Maddy enquanto ficava apenas com as roupas de baixo.
- Hoje formos jantar com ele e com seu pai - ajudou sua filha o traje de lentejoulas que usava debaixo do vestido - Parece um rapaz muito agradvel.
- . Mas no quero voltar a v-lo.
- Quinze minutos, senhorita OHurley.
- Acho que me vou ficar doente - sussurrou Maddy.
- No, nem pensar - terminou de lhe grampear o vestido - Achei que seu Reed esteve um tanto distrado durante o jantar.
- Tem muitas coisas na cabea. Contratos, sobre tudo - acrescentou em um murmrio - Em qualquer caso, no me importa.
- J percebi. No nos facilitam nada as coisas, n?
- O que?
- Os homens - Molly a fez voltar-se - Que no nos facilitam nada as coisas.
Pela primeira vez nas ltimas horas, Maddy riu. Quase com pesar.
- Alguma vez te ocorreu pensar que as amazonas tinham razo?
- Refere a aquelas mulheres que matavam os homens depois de fazer amor com eles? - Molly pareceu refletir seriamente - No, no acredito. H algo reconfortante em
compartilhar a vida com um homem. Acostumar-se a ele. Onde esto os sapatos?
- Aqui - sem deixar de olhar para sua me, Maddy calou-os - Voc continua amando papai, no ? Refiro-me a am-lo de verdade, como sempre o amou...
- No - ao ver que estava com a boca aberta, Molly comeou a rir - Nada permanece inaltervel. A maneira que amo Frank agora  diferente da que eu amava h trinta
anos. Agora temos quatro filhos, e toda uma vida de lutas, risadas e lgrimas. Acredito que, quando tinha vinte anos, no podia am-lo tanto. E duvido que o ame
tanto agora como o amarei quando tiver oitenta.
- Quem me dera... - Maddy se interrompeu, sacudindo a cabea.
- No, me diga o que voc gostaria. Uma filha pode contar tudo a sua me, especialmente seus desejos mais ntimos.
- Que me dera Reed pudesse pensar o mesmo. Quem dera pudesse dar-se conta de que s vezes funciona, de que s vezes pode durar. Mame, amo-o tanto...
- Ento darei um pequeno conselho. No desista dele.
- Acho que ele est desistindo de mim.
- Bom, pois ento ser a primeira OHurley para quem isso vai acontecer. Sente-se, menina. Possivelmente esta peruca a ajude a que no a manter seus neurnios no
crebro.
- Obrigado.
Soou a chamada dos cinco minutos. Molly se aproximou da porta, mas antes de sair se voltou para olhar pela ltima vez sua filha.
- Animo. Tudo sair bem.
- Mame - Maddy levantou-se - Vou triunfar.
- Eu conto com isso.
Maddy saiu do camarim com quatro minutos de antecipao. Uma bailarina de seu grupo desceu as escadas luzindo uma vistosa peruca de plumas na cabea. A abertura
j estava soando. Dirigiu-se de onde procedia a msica. Encontrou-se com a Wanda atrs dos bastidores.
- Chegou o grande momento.
Maddy sorriu. Atrs de sua amiga podia ver o cenrio no monitor da mesa do diretor de cena, tal e como o estava vendo o pblico.
- Qual seu recorde de permanncia em cena, Wanda?
- Uma vez estive dezessete dias em uma s pea, no Rochester.
- Pois desta vez vamos arrasar - pronunciou Maddy, com as mos nos quadris. Logo subiu ao cenrio e se colocou frente ao pano de fundo, que ainda estava baixado.
Enquanto as outras bailarinas se reuniam, podia perceber a expectativa em cada uma delas. Atrs dela, o cenrio do clube noturno estava escondido na escurido. Em
um canto, escondido dos olhares do pblico, achava-se Macke. Maddy o olhou e fez um gesto com a cabea. Estava preparada.
- Focos a meia luz... Ok. Maddy tomou ar - Foco principal Ok.
Por cima de sua cabea se acenderam os focos, banhando-a em um arco ris de cores.
- Pano de fundo.
O pano de fundo se levantou, e a msica comeou a soar.
Pouco depois Maddy saa do cenrio para a mudana da primeira cena. Estava eletrizada, eufrica, explodindo de foras. Imediatamente a assistente de figurino a ajudou
a despir-se e a vestir outro vestido.
- Continue danando com tanta energia at que caia o pano de fundo, e a convidarei a comer no melhor restaurante da Filadlfia - disse-lhe Macke.
Maddy aproveitava o escasso tempo que dispunha para tomar flego e recuperar-se. Terminaram de fechar o vestido e de maqui-la em to apenas dois minutos.
- Trato feito.
Passou por debaixo do cho do cenrio rodeando por detrs o fosso dos msicos, que naquele momento estavam descansando. Jonathan e o ator que representava o papel
de seu melhor amigo j estavam atuando. Perto das escadas que levavam a asa esquerda do cenrio, um grupo de auxiliares se reuniram frente a um pequeno monitor de
televiso, com o volume ajustado ao mnimo. Maddy se deteve, sabendo que ainda dispunha de alguns minutos livres.
- Quem joga? -perguntou ao ver que estavam vendo um partido de beisebol.
- Os Piratas contra os Mets.
- Aposto nos Mets.
- Pois vai perder - riu um dos homens.
- Cinco dlares - pronunciou Maddy enquanto escutava Jonathan terminar sua cano.
- Feito.
E saiu de novo para atuar. A cena era a de seu primeiro encontro com Jonathan. A qumica era a adequada. Mary e Jonathan coincidiram na entrada de uma biblioteca.
O pblico ficou imediatamente cativado pela histria de amor da danarina de striptease e o filho do milionrio.
O ltimo nmero antes do intermdio era o do striptease do Maddy. Entrou apressada em cena, como se estivesse pressa, e mudou o traje de lentejoulas enquanto dialogava
com a Wanda. Logo teve lugar a amarga discusso com Terry. Por ltimo, o cenrio ficou iluminado somente por luzes vermelhas e rosadas.
Em um momento de seu ertico baile, lanou a boa slung de plumas vermelhas ao pblico, levantando um clamor de admirao quando foi parar no colo de seu pai. Para
voc, papai, pensou enquanto dava uma piscada. Porque voc me ensinou tudo o que sei. Fiel a sua palavra, empregou-se a fundo e triunfou.
O intervalo nunca servia para relaxar. Terei que trocar de roupa, maquiar-se, repor energias. Deram-lhe o recado de que os Mets estavam perdendo. Apelou para a filosofia.
Aquele dia tinha perdido coisas muitssimo mais importantes.
Desde seu esconderijo entre bastidores, Maddy se dedicou a observar ao pblico enquanto tomava um copo de gua. Acesas todas as luzes, as pessoas se levantaram para
estirar as pernas. Sim, pareciam entusiasmaram. E ela tinha contribudo a esse estado de nimo.
Foi ento quando viu Reed. Seu pai se encontrava ao seu lado. Rindo, Frank passou um brao pelos ombros de Reed. Esse detalhe a emocionou. Disse a si mesmo que aquilo
no devia importar, que no tinha sentido que importasse, mas foi intil. Ficou profundamente comovida ao ver seu pai rindo com o homem que amava.
- Se for sair com essa cara, acho que terminar afugentando as pessoas.
Retrocedendo, viu Wanda atrs dela. Ambas vestiam robes, para a cena no apartamento que compartilhavam. O pano de fundo de prolas e lentejoulas cairia logo, quando
Maddy interpretasse a seqncia do sonho.
- No se preocupe com isso.
- Ele est a fora? -inquiriu Wanda.
- Sim.
- Suponho que tem que demonstrar algo.
Sim. Que posso sobreviver sem Reed, disse-se Maddy.
- A mim mesma - murmurou antes de que as duas ocupassem seus lugares no cenrio - No a ele, e sim a mim mesma.
Quando terminou o musical o aplauso se elevou, eufrico. Os atores e bailarinos foram saindo. Maddy esperava atrs do pano de fundo. Ela sairia no final.
Com a cabea bem alta, sorrindo, Maddy saiu finalmente para saudar. Soaram os aplausos e os bravos, quentes, entusiasmados. E foram crescendo em intensidade. Um
clamor que seguia ressonando em sua mente quando se inclinou com reverncia, agradecida.
De repente se levantou a primeira pessoa, e logo outra, e outra. Centenas de pessoas se levantaram para aclam-la. Estava assombrada. No podia acreditar.
- Aviso de novo - sussurrou Wanda - Merece isso.
Maddy saiu de seu transe e se inclinou de novo antes que todos os atores e bailarinas se dessem as mos. Juntos saudaram outra vez, e o pano de fundo caiu. Os aplausos,
entretanto, continuaram, e tiveram que voltar a sair.
Ali estava a fila de bailarinos, todos com os quais tinham estudado, trabalhado e ensaiado durante interminveis horas para aquele nico momento. O pano de fundo
baixou de novo, e de novo teve que ser erguido.
E assim vinte e seis vezes.
No foi fcil pra Maddy voltar para seu camarim. Durante o caminho recebeu felicitaes, abraos e beijos de uma multido. O prprio Macke a estreitou com fora
entre seus braos.
- Tenho certeza que amanh estar igualmente magnfica.
Atrs dos bastidores tinha estalado um verdadeiro, motim: todo mundo estava celebrando. Tinham triunfado. O esforo tinha valido a pena. Por fim Maddy conseguiu
chegar a seu camarim. Uma vez ali, deixou-se cair em uma cadeira e se olhou no espelho.
Tinha conseguido.
De repente a porta se abriu, e uma parte da mar humana entrou. Viu primeiro seu pai, com a boa slung vermelha sobre os ombros como se fora o trofu de uma vitria.
Recuperou a energia quando saltou como uma mola da cadeira e se lanou em seus braos.
- Papai. Foi um sucesso. Diga-me que foi um sucesso.
- Um sucesso? Vinte e seis erguidas e quedas de pano  muito mais que um sucesso.
- Contou-as?
-  obvio que sim - levantou-a em seus braos - Minha menina triunfou. Estou to orgulhoso de voc, Maddy...
- Oh, papai, no chore - com os olhos cheios de lgrimas, tirou o leno do bolso de seu casaco - Tambm haveria se sentido orgulhoso de mim se tivesse fracassado.
Por isso o amo tanto.
- No vai dar um abrao em sua me? - Molly aproximou-se, igualmente emocionada - Sabe? No podia deixar de pensar na primeira vez que pusemos em voc um par de
sapatos e dana.  maravilhosa, Madeline OHurley.
- Estou to emocionada... - rindo, Maddy abraou sua irm depois - Cada vez que saa do palco, apertava a mo de Dylan. No sei como  que no quebrei seus dedos.
Ben no deixava de lembrar  mulher do lado que voc era sua tia. Quem dera...
- Eu sei. Quem dera Chantel estivesse aqui tambm - agachou-se para abraar Ben, e depois olhou para Chris, que se estava meio dormido nos braos do Dylan.
- No dormi, tia - disse o menino, com um grande bocejo - Vi toda a pea. Foi estupenda.
- Obrigado. Bem, Dylan, acredita que estamos preparados para invadir a Broadway?
- Acho que vai arrasar na Broadway. Parabns, Maddy.
- Bom, temo que j seja hora de levar os meninos.  muito tarde - declarou Abby - Nos veremos amanh, antes de partimos. Ligue para mim - tocou um brao brandamente,
em um gesto suficientemente explcito-. Pensarei em voc.
- Tambm vamos - pronunciou Franz, consultando sua esposa com o olhar - Ter que sair para celebrar com seus companheiros.
- J sabem que podem nos acompanhar...
- No, no.  muito agitao para ns, e precisamos descansar. Temos um concerto no Buffalo dentro de alguns de dias. Vamos, deixemos que a garota se vista - Franz
foi tirando todos os membros da famlia. Uma vez na porta, voltou-se pela ltima vez para sua filha. -  a melhor, menina.
- No - naquele preciso instante, Maddy lembrou de tudo: sua pacincia, as alegrias que tinha lhe dado, a magia que irradiara quando a ensinara a danar - Voc 
o melhor.
Maddy se sentou de novo, suspirando. Tirou uma rosa do vaso e acariciou uma face com ela, pensativa.
Quando a porta voltou a abrir, ergueu os ombros e forou um sorriso. Era Reed. Cuidadosamente Maddy colocou a rosa em seu lugar. J no precisava sorrir.
- Importa-se que eu entre?
- No - mas no o olhou. Deliberadamente se voltou para o espelho e se ocupou em tirar as pestanas postias.
- Acho que no preciso dizer o quanto esteve esplndida - comentou ele, fechando a porta.
- Oh, eu no me canso de ouvi-lo. Assim... Ficou para a pea.
-  obvio que fiquei para a pea.
Maddy o estava fazendo que se sentisse como um idiota. Reed nunca se esforou tanto para no perder uma mulher. E sabia que, se cometesse outro erro, a perderia
para sempre.
Quando se aproximou por trs, percebeu que as mos tremiam. Isso aliviou um pouco sua tenso. Ainda no a tinha perdido.
- Suponho que agora j sabe que seu investimento vale a pena - disse Maddy enquanto limpava a maquiagem do rosto com lenos de papel.
- Sim - deixou uma grande caixa azul sobre a penteadeira, ao lado do cotovelo. Ela se obrigou a ignor-la-. Mas  meu pai quem se encarregar pessoalmente de todo
o relacionado com o musical. Encarregou-me que lhe dissesse que adorou esta noite, e que esteve incrvel.
- Achei que iria vim me cumprimentar.
- Sabia que eu precisava v-la a ss.
Atirou os lenos ao cesto de papis. Mary fora embora, e restava apenas Maddy. Levantando-se, e indicou o vestido.
- Tenho que tirar o vestido. Importa-se?
- No - no deixou de olh-la nos olhos - No me importa.
Como sabia que no ser fcil, comeou a despir-se atrs de um biombo.
- Suponho que amanh voltar para Nova Iorque.
- No.
- Se seu pai est se encarregando da obra, voc no tem nenhuma necessidade de ficar.
- No vou a nenhuma parte, Maddy. Se quiser que eu me arraste aos seus ps, entendo que tem todo o direito do mundo a faz-lo.
Maddy pendurou sobre o biombo o vestido que acabava de tirar.
- Eu no quero que se arraste. Isso  simplesmente ridculo.
- Por qu? Me comportei  como um estpido. Estou disposto a admitir, mas se voc no est para aceit-lo, posso esperar.
- Voc no joga limpo - apertou com fora o cordo do robe enquanto saa de atrs do biombo - Nunca o tem feito.
- No, no tenho feito. Para minha prpria desgraa - deu um passo em sua direo, mas se deteve o ver a expresso de seus olhos - Se isso quer dizer que tenho que
comear de novo, a partir de agora mesmo, o farei. Amo voc, Maddy. Mais do que amei algum nesse mundo.
- Por que est fazendo isto? - perguntou, passando uma mo pelo cabelo. Procurava uma maneira de escapar daquela situao, mas no encontrava nenhuma-. Cada vez
que tento me convencer a mim mesma de que tudo est terminado e superado, cada que vez que me digo: Maddy, deixe-o de uma vez, voc me impede. Estou cansada de
depender de voc, Reed. Quero apenas recuperar meu equilbrio emocional.
Dessa vez no hesitou e se aproximou dela. Nada poderia t-lo impedido.
- Eu sei que pode viver sem mim. Sei que pode alcanar o sucesso sem mim. E talvez, somente talvez, eu tambm possa sobreviver sem voc. Mas no quero correr esse
risco. E estou disposto a fazer todo o possvel para no corr-lo.
- No o entendo. Se no nos compreendermos, se no confiarmos um no outro, como poderia funcionar nossa relao? Amo-o, Reed, mas...
- No diga nada mais. Deixe-me segurar este momento. Pensei muito, mudei muito, desde que a conheci. Antes de que voc entrasse em minha vida, as coisas s eram
brancas ou negras. Voc coloriu minha vida e no quero perder isso. No, no diga nada - repetiu - Abra primeiro a caixa.
- Reed...
- Por favor, somente abra primeiro a caixa - se a conhecesse to bem como acreditava, ou como esperava conhec-la, aquele gesto lhe diria tudo aquilo que no conseguia
expressar com palavras.
Forte. Maddy se disse que sua me sempre lhe havia dito que ela era forte. Naquele instante, tinha que se convencer de que isso era verdade. Abriu a tampa da caixa.
E ficou sem fala.
- No lhe enviei flores - comeou a dizer Reed - Porque achei que j teria recebido milhares. Pensava, e esperava, que isto significaria muito mais para voc. Hannah
demorou muitssimo para me trazer isso.
Maddy segurou a planta. Quando a entregara a Reed, estava amarela, murcha. Agora, em contrapartida, estava alegre e cheia de vida, com novos brotos. Como as mos
tremiam, deixou-a sobre a mesa da penteadeira.
-  um pequeno milagre - murmurou Reed - No morreu quando devia hav-lo feito. Seguiu lutando para sobreviver. Pode transformar algo em realidade, fazer um milagre,
se deseja com fora o suficiente. Voc me disse isso uma vez, e eu no acreditei nisso - acariciou meigamente seu cabelo, e esperou a que ela o olhasse - Amo-a.
A nica coisa que quero e que me d toda a minha vida para provar isso a voc.
Em um impulso, abraou-o.
- Comece agora.
Com uma gargalhada de prazer e alvio, beijou-a nos lbios. Maddy se apertou contra ele suspirando.
- Nunca tive a menor oportunidade de resistir - murmurou Reed - Do primeiro momento que a vi. Graas a Deus, nada voltou a ser o mesmo - mas de repente a afastou
para olh-la. Precisava superar um ltimo obstculo - Aquilo que disse esta tarde...
Colocando os dedos em seus lbios, Maddy negou com a cabea.
- No ir retirar agora seu pedido de casamento, no ?
- No - estreitou-a novamente em seus braos - No, mas no posso pedir isso enquanto no souber tudo sobre mim - era uma confisso difcil. A mais difcil do mundo
- Maddy, meu pai...
-  um homem excepcional - terminou ela por ele, tomando uma mo - Edwin me contou sobre isso h semanas.
- Ele contou?
- Sim. Achava poderia fazer alguma diferena?
- No tinha certeza.
Maddy sacudiu a cabea. Ficando nas pontas dos ps, beijou-o de novo.
- Pois pode ter. No h velas, nem msica, nem quero que se ajoelhe diante de mim. Mas quero que me pea em casamento.
Reed tomou ambas as mos e as levou aos lbios, sem deixar de olh-la nos olhos.
- Amo-a, Maddy. Quero passar minha vida inteira ao seu lado, ter filhos, me arriscar. Quero me sentar em um teatro e v-la atuar e deslumbrar o pblico sabendo que,
quando terminar, voltaremos juntos para casa. Quer se casar comigo?
Maddy esboou um lento e radiante sorriso. Abriu a boca para falar, mas naquele preciso instante bateram na porta.
- Livre-se deles - pediu Reed.
- Voc no se mova. Nem sequer respire - abriu a porta, preparada para fech-la mais rapidamente possvel.
- Seus cinco dlares, senhorita OHurley -um dos auxiliares de palco, sorridente, entregou-lhe uma nota - Os Mets ganharam por quatro a trs. Parece que  impossvel
voc perder algo essa noite.
Maddy aceitou o bilhete e, voltando  cabea, sorriu para Reed.
- Voc tem toda a razo.


Fim
